Nicole Kidman volta à boa forma em "Reencontrando a Felicidade"

Ao lado de elenco excelente, estrela incorpora um doloroso retrato da perda

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Divulgação
Nicole Kidman e Aaron Eckart juntos no filme de John Cameron Mitchell
Após anos amargando um fracasso atrás do outro , Nicole Kidman resolveu produzir uma adaptação da peça "Rabbit Hole", vencedora do Pulitzer, e a aposta deu certo. Aos 43 anos, a atriz foi lembrada por praticamente todos os prêmios da temporada e recebeu uma indicação ao Oscar 2011 . Com razão. "Reencontrando a Felicidade", título nacional piegas para o filme que estreia nesta sexta-feira (06) no país, é um doloroso retrato da perda e Kidman serviu como estandarte para o elenco competentíssimo que a acompanha. Conheça os cinco melhores papéis de Nicole Kidman

Dona de casa dedicada, Becca (Kidman) esconde nos afazeres domésticos o coração dilacerado pela morte do filho de quatro anos. Já se passaram oito meses, mas, no fundo, o tempo passa como se o acidente tivesse acontecido há poucos dias. Becca esconde brinquedos, roupas, se desfaz do cachorro para aliviar a rotina. O pai, Howie (Aaron Eckart), por outro lado, lida com a dor de um jeito diferente – tenta seguir em frente e manter uma vida social, embora gaste as madrugadas vendo vídeos da criança. Faz questão, ao contrário da mulher, de manter viva a presença do filho.

O casamento anda aos frangalhos e os dois buscam consolo num grupo de apoio. Ali, a raiva de Becca aflora e ela reage com acidez e humor à hipocrisia da mão no ombro e da religião. É o mesmo mecanismo que usa para fugir dos conselhos da mãe (Dianne Wiest) e sua insistência em comparar as mortes do neto e do filho, irmão de Becca.

Ainda há amor, mas o clima na casa se torna opressor, às vezes asfixiante. O casal se afasta cada vez mais, numa forma solitária de encarar a saudade, atrás de compensação ou alívio, e desenvolve relações secretas. Becca procura o adolescente (Miles Teller) que atropelou seu filho, enquanto Howie fuma maconha e se diverte com uma colega do grupo de apoio (Sandra Oh).

Esses desejos escondidos são o único ponto comum entre "Reencontrando a Felicidade" e os outros trabalhos do diretor John Cameron Mitchell. O filme fica longe da transgressão de "Hedwig - Rock, Amor e Traição" (2001) e do choque comportamental de "Shortbus". Aqui, Mitchell surge quase minimalista no estilo e deixa a força para os diálogos e situações criadas pelo dramaturgo David Lindsay-Abaire, que também escreveu o roteiro.

É um projeto de orçamento pequeno (US$ 5 milhões) e emoções superlativas. Muito se falou sobre a atuação de Kidman, mas a força se divide igualmente entre os outros atores. Eckart não foi o outdoor da máquina de promoção, mas entrega uma performance poderosa, sem dúvida um de seus melhores trabalhos. Dianne Wiest, por sua vez, está soberba. Se não fosse a forte figura midiática de Kidman, seguramente seria lembrada nos prêmios a coadjuvante.

Quanto à estrela, há anos ela não aparecia tão segura em cena. Faz uma interpretação de nuances, sofrida como a personagem, que se torna explosiva quando a mãe tira a máscara da tranquilidade e mostra a dor que sente por dentro. Um trabalho forte, que só peca, bem, por uma máscara de fato.

As plásticas de Kidman deixaram seu rosto praticamente inexpressivo. Em determinado momento, Becca grita e nenhuma linha – nenhuma – se forma nas bochechas ou na testa. É um busto de porcelana assustador no qual fica difícil de se acreditar, mesmo com lágrimas fartas. Além do mais, uma dona de casa suburbana dificilmente investiria em lábios falsos e intervenções cirúrgicas para ter uma face intocada. Não resta qualquer dúvida do talento de Nicole Kidman. O duro vai ser olhar para ela no futuro.

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