Mostra de Hitchcock é chance de descobrir obras desconhecidas

Retrospectiva que acontece no Rio de Janeiro e em São Paulo reúne raridades do cineasta

Ricardo Calil, especial para o iG |

Quando se fala em Alfred Hitchcock, logo vem à mente um punhado de filmes clássicos: “Um Corpo que Cai”, “Janela Indiscreta”, “Psicose”, “Intriga Internacional”.

E uma mostra como “Hitchcock” nos oferece a incrível – e infelizmente não tão comum – oportunidade de ver ou rever esses pontos altos do suspense na tela grande, em cópias restauradas, de 35 mm.

Mas a abrangente seleção também abre a oportunidade de conhecer momentos praticamente desconhecidos da obra de Hitchcock – desde seus primeiros curtas feitos na Inglaterra até seus programas feitos para a TV americana, passando por seu primeiro longa, seu primeiro filme sonoro, produções para Alemanha e a França.

Entre os 54 longas, três curtas e 120 episódios de TV da mostra (que vai de de 1º de junho a 14 de julho no CCBB Rio, de 15 de junho a 24 de julho no CCBB São Paulo, e de 8 a 17 de julho no Cinesesc), segue abaixo uma pequena seleção de 10 programas tão raros quanto imperdíveis.

Sempre Conte à Sua Esposa (1923)

O curta-metragem mudo de 9 minutos é o primeiro filme de Hitchcock que sobreviveu ao tempo. Quer dizer, sobreviveu em parte: eram dois rolos; um desapareceu. E Hitchcock, na verdade, não foi creditado. Originalmente, ele havia sido contratado como assistente de direção, mas o produtor brigou com o diretor Hugh Laurie, e Hitchcock foi promovido de função. Remake de um filme de mesmo nome de 1914, o curta é apenas uma curiosidade histórica e, ao mesmo tempo, fundamental para a história do cinema.

O Inquilino (1926)

O filme mudo tem uma tripla importância: é o primeiro longa-metragem de Hitchcock, seu primeiro grande sucesso e também seu primeiro filme de suspense. Adaptado de um livro que se inspirou na figura de Jack, o Estripador, “O Inquilino” se passa em uma Londres assombrada pelos assassinatos de um serial killer. Numa cena, um figurante faltou, e o próprio Hitchcock fez uma pequena ponta – o que se tornaria uma de suas marcas registradas. Na exibição da mostra do CCBB, haverá uma sessão com narração e música ao vivo.

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Cena de "Chantagem e Confissão"
Chantagem e Confissão (1929)

Foi o primeiro filme sonoro de Hitchcock e de todo o Reino Unido. Inicialmente, havia sido concebido para ser mudo. Mas o estúdio mudou de ideia no meio do caminho. No final das contas, foram feitas duas versões: a muda e a falada – e ambas vão ser exibidas na mostra do CCBB, junto com um curta-metragem do teste de som para o longa. O filme gira em torno de uma mulher que mata acidentalmente um pintor que tentava estuprá-la e passa a ser chantageada por uma testemunha. É uma oportunidade para ver como Hitchcock se adaptou à chegada do cinema sonoro.

Assassinato (1930)

A versão inglesa do filme é conhecida pelos admiradores de Hitchcock. Mas a versão alemã, também dirigida por ele, é raríssima; só existe uma cópia do mundo. A mostra no CCBB traz as duas. Hitchcock filmou as duas quase simultaneamente, no mesmo set. Rodava uma sequência com atores ingleses, parava, entravam em cena os atores alemães. Em ambos, a trama é sobre uma atriz encontrada junto ao corpo de uma amiga que foi assassinada e que corre o risco de ser condenada por não se lembrar das circunstâncias do crime. Ou seja, a história do um inocente acusado de um crime – mote clássico dos suspenses de Hitchcock.

Aventure Malgache e Bon Voyage (1944)

Hitchcock fez belos filmes cujas histórias se passavam em tempos de guerra, como “Notorius” ou “Sabatador”. Mas os curtas “Aventure Malgache” e “Bon Voyage” são casos à parte: filmes feitos durante a Segunda Guerra Mundial, por encomenda do Ministério da Informação Britânico, falados em francês, em homenagem ao movimento de resistência à ocupação nazista da França. São filmes pouquíssimos vistos, já que “Bon Voyage” foi exibido poucas vezes na França, e “Aventure Malgache” foi engavetado pelo Ministério da Informação. O resultado foi considerado explosivo demais pelos britânicos.

Festim Diabólico (1948)

De todos os filmes desta lista até aqui, “Festim Diabólico” é o primeiro da fase americana de Hitchcock – portanto, uma produção mais conhecida pelos fãs do cineasta. Mas essa é uma chance rara de ver ou rever este que foi um dos maiores experimentos da carreira de Hitchcock. Foi o primeiro filme colorido do diretor. Mas isso é o de menos. O fundamental é que o filme foi todo realizado em planos-sequência (tomadas sem corte) de quatro a dez minutos. No total, são apenas oito cortes no filme todo (para efeito de comparação, apenas a cena do chuveiro de “Psicose” tem 78 cortes). E “Festim Diabólico” foi filmada e editado para que o espectador tivesse a impressão de não houve nenhum corte, que tudo seria uma única e longuíssima tomada. É sempre divertido tentar observar onde estão, afinal, os cortes. A história do filme também é ousada: baseia-se na história real de dois estudantes que matam um colega apenas para provar que podem cometer o crime perfeito. Há até referências ao conceito do Super Homem de Nietzsche.

Pavor nos Bastidores (1950)

Depois do sucesso nos Estados Unidos, Hitchcock voltou à Inglaterra para fazer este pequeno filme que foge um pouco do seu estilo habitual. A trama é sobre uma estudante de teatro que tenta inocentar um amigo acusado injustamente de assassinato e, para tanto, acaba se tornando assistente de uma grande estrela (Marlene Dietrich). Hitchcock transforma o mundo teatral em um palco de crimes e suspense. E combina realidade e ficção de forma muito original. Apesar de suas qualidade, “Pavor nos Bastidores” sempre passou meio batido dentro da filmografia do cineasta.

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Cena de "O Terceiro Tiro"
O Terceiro Tiro (1955)

É uma das raras comédias de Hitchcock. E ele mostra que podia se dar bem no gênero, se quisesse. Aliás, é um dos filmes preferidos do próprio cineasta, que se divertia muito com a indiferença dos personagens diante de um cadáver. Eles se deparam com o corpo na floresta e tentam escondê-lo porque partem do princípio de que o tinham matado. Como se trata de Hitchcock, não dá para esperar uma comedia leve e inconsequente. A levada é de humor negro.

Hitchcock na TV

Sem dúvida nenhuma, uma das grandes atrações desta mostra é o panorama da produção do cineasta para a televisão. O grosso vem da série Hitchcock Apresenta, no qual ele servia como um impagável mestre de cerimônias para pequenas histórias de suspense. A preferência, claro, deve ser dada aos episódios dirigidos pelo próprio Hitchcock; a mostra traz 17 deles. Há ainda três episódios que ele dirigiu para outras séries: The Hitchcock Hour, Startime e Suspicion. Todos servem para mostrar que um mestre é um mestre em qualquer meio.

Trama Macabra (1976)

O último filme dirigido por Hitchcock não costuma figurar entre seus melhores trabalhos. Na verdade, ele foi prejudicado por uma série de fatores, como o fato de não haver muito dinheiro para contratar grandes atores. Hitchcock queria Al Pacino para o papel principal, mas seu salário estava inflacionado por causa de “O Poderoso Chefão”. A moda dos anos 70 também não ajudava muito, e o resultado visual ficou muito aquém da elegância dos filmes de Hitchcock dos anos 50. Ainda assim, o filme tem ótimos momentos de suspense e até de humor. Não está entre os melhores do cineasta, mas é uma despedida bastante digna.

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