Mostra abre espaço para os filmes da "Hollywood da Nigéria"

Indústria nigeriana de cinema é uma das maiores do mundo e movimenta cerca de R$ 446 milhões por ano

Ricardo Calil, colunista do iG |

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Cena do filme "Thunderbolt: Magnum", de Tunde Kelani
O fenômeno audiovisual de Nollywood – a Hollywood nigeriana – chamou a atenção do Ocidente pela primeira vez em 2004, quando a revista francesa “Cahiers du Cinéma” publicou que o país africano havia sido o maior produtor de cinema do mundo naquele ano, com 1.200 filmes lançados, contra 934 da Índia e 611 dos Estados Unidos.

Desde então, o termo Nollywood passou a ser citado de forma cada vez mais frequente por cinéfilos ocidentais, mas a verdade é que ainda impera o desconhecimento sobre esse fenômeno com regras de produção, distribuição e estéticas tão particulares, tão diferentes das do resto do mundo.

Aqui em São Paulo, parte dessa ignorância começa a ser combatida com a mostra “Bem-vindo a Nollywood: Tunde Kelani”, que exibe nove longas-metragens de um dos principais nomes do cinema nigeriano, com sessões no Cine Olido, Cinemateca Brasileira e Pólo Educativo e Cultural de Heliópolis, até 4 de dezembro.

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É a ponta do iceberg. Hoje, Nollywood produz cerca de 2.500 filmes e movimenta cerca de US$ 250 milhões (R$ 446 milhões) ao ano. Mas, diferentemente do que o senso comum pode supor, há pouquíssimas salas de cinema no país, e elas se dedicam principalmente aos blockbusters hollywoodianos.

Já os filmes locais são feitos em vídeo, em produções rápidas e baratas (cerca de US$ 30 mil por filme), faladas em iorubá, inglês e outras línguas ou dialetos. E são lançados diretamente em DVD em grandes mercados de rua, onde são comprados por camelôs que garantem sua distribuição por todo o país – e também em Gana, no resto da África e em alguns países da Europa com forte presença de imigrantes africanos.

Como explicou Lino Bocchini em reportagem à revista Trip, única feita in loco por uma publicação brasileira até agora, “é um modelo capilarizado de distribuição baseado em camelôs e lojinhas que funciona incrivelmente bem há mais de uma década. Tanto que a indústria cinematográfica é hoje a terceira economia do país, atrás apenas do petróleo e da agricultura.”

A venda ao consumidor é parecida com a da pirataria no Brasil, mas em geral o produto chega ao camelô de forma legal – o que garante uma indústria autossustentável num país ainda pobre e superpopuloso (são 140 milhões de habitantes), com alguns sucessos que chegam a vender 700 mil exemplares. Dá o que pensar...

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Cena de "Arugba", de Tunde Kelani
Melodramas e terror

Mas, afinal, como são esses filmes nigerianos? Grosso modo, eles são o resultado de diversas influências misturadas e reprocessadas: melodramas indianos, telenovelas latinas, filmes de terror de baixo orçamento americanos e britânicos, filmes de gângster de Hong Kong, segundo uma relação dos organizadores da mostra em São Paulo. Mas há também filme ssobre tradições sociais e culturais das comunidades tribais nigerianas.

Dentro desse cenário, a obra de Tunde Kelani, homenageado da mostra, que estará presente em São Paulo, desponta como um recorte característico do cinema nigeriano – por trabalhar dentro desse esquema de produção –, mas com uma linguagem mais palatável ao olhar ocidental, já que o diretor estudou cinema na London International Film School.

Como seus colegas nigerianos, Kelani não tem restrições temáticas: seus filmes podem lidar com as tradições da cultura iorubá – “Thunderbolt Magnun” (2001) e “The Narrow Path” (2007) –, com confrontos políticos – “Saworoide” (1999) e “Agogo Eewo” (2002) –, com brigas de gangues numa universidade – “The Campus Queen” (2004) –, ou com um astro do futebol, caso de “Maami” (2011), seu novo filme, que também estará presente na Mostra.

É um pequeno pedaço de uma produção gigantesca. Mas um recorte que permite vislumbrar a fascinante colcha de retalhos do cinema nollywoodiano.

Bem-Vindo a Nollywood: Tunde Kelani
Até 4 de dezembro
Exibições no Cine Olido, Cinemateca Brasileira e Pólo Educativo e Cultural de Heliópolis
Ingressos: R$ 8 (Cinemateca), R$ 1 (Cine Olido), entrada franca (Pólo Educativo Heliópolis)
Programação: www.bemvindoanollywood.com.br

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