Morro carioca vira cenário de filme que ridiculariza traficantes e policiais

“Totalmente Inocentes” faz piada com “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”, e inaugura novo gênero cinematográfico no País

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Léo Ramos
iG acompanhou a filmagem de "Totalmente Inocentes"
Dezenas de policiais fortemente armados tomam o morro Dona Marta, em Botafogo, zona sul do Rio. A ação é para prender o perigoso traficante conhecido como Diaba Loura, chefe do tráfico local.

Os policiais são atores. As armas, de brinquedo. Diaba Loura é um divertido travesti interpretado por Kiko Mascarenhas. O morro Dona Marta, que desde dezembro de 2009 tem uma UPP (Unidade de Policia Pacificadora), é set de “Totalmente Inocentes”, primeiro filme de Rodrigo Bittencourt.

A reportagem do iG acompanhou na noite de terça-feira (23) as filmagens do longa, que também tem no elenco Viviane Pasmanter, Fabio Assunção , Mariana Rios , Fabio Porchat, entre outros. Trata-se de uma sátira ao gênero “favela movie”, ao contar a história de um trio de jovens que vive numa fictícia favela carioca. O mais velho deles, Da Fé (Lucas de Jesus), é apaixonado por Gildinha (Mariana), que também mora naquela comunidade. Ingênuo, ele acredita que para conquistar sua amada ele precisa se tornar o chefão daquele lugar. O problema é que ele e seus amigos são gente boa e não levam o menor jeito para o crime.

Favela Fashion Week

O morro é disputado por duas facções rivais. A do bando da Diaba Loura, travesti interpretada por Kiko Mascarenhas, e a do bando de Du Morro, vivido por Fabio Porchat. “Com esta minha cor branquela estou mais para assassino da Noruega. Mas a ideia é essa mesma, brincar com os estereótipos”, diz Fabio. O bando da Diaba Loura invade o morro como se estivesse entrando na passarela do Fashion Week, repleto de brilhos, maquiagem e poses. “Fico uma hora e meia para me arrumar”, conta Kiko, de peruca, unhas pintadas, cílios postiços e roupa que lembra o roqueiro Marilyn Manson.

Dois dos intérpretes de bandidos mais temidos do cinema nacional (Zé Pequeno, em “Cidade de Deus”, e Baiano, em “Tropa de Elite”) agora são policiais. A dupla Leandro Firmino e Fabio Lago interpreta os engraçados Tranquilo e Nervoso. “O Tranquilo é bem nervoso, e o Nervoso é o oposto”, explica Lago. “É tão difícil fazer filme como bandido como policial, não vejo diferença”, diz Firmino.

Léo Ramos
Fábio Porchat e Mariana Rios se divertem nos bastidores

Fuga das galinhas

O nome da favela é DCC, sátira também ao nome da CDD (Cidade de Deus, comunidade da zona oeste do Rio, que deu nome ao filme que inaugurou a cinematografia recente de favelas). Há cenas como a fuga da galinha entre as ruelas do morro e até a tomada em 360 graus do cerco de traficantes, ambas presentes no “Cidade de Deus”. O diretor explica que não se trata de uma ironia, mas uma homenagem ao cinema nacional. “É uma história de amizade entre garotos, em meio a uma comédia bastante popular. Por que um cara da favela não pode sonhar? É isso que discuto com o filme”, diz Bittencourt.

Ao invés de sangue, violência, mortes e policiais corruptos, o roteiro prioriza o riso. Fabio Assunção vive Wanderlei, um jornalista atrapalhado que trabalha para a revista Taras & Tiros, mistura de revista de celebridades com jornal policial.

Com custo de produção avaliado em R$ 4 milhões e produzido por duas campeãs de bilheteria em comédias recentes ( Mariza Leão , de “De Pernas pro ar” , e Iafa Britz, de “Se eu fosse você 2”), o filme tem previsão de estreia para o começo do segundo semestre de 2012. “Cinema americano faz muito isso, de brincar com seus filmes nas piadas. Estamos inaugurando um novo gênero no País com este longa”, afirma Iafa.

Alcoólicos anônimos

Rodado em quatro semanas e meia, sendo as três primeiras em Paulínia (SP), a locação escolhida no Rio foi o morro Dona Marta, por ter uma praça central de casas coloridas e vielas bem inclinadas. Na filmagem que o iG acompanhou, o bando da Diaba Loura é preso por policiais e levado ao camburão, cercado de jornalistas.

Com 116 pessoas, contando produção e elenco, além de 39 figurantes (entre bandidos e policiais fardados e armados com brinquedos), a Associação dos Alcoólicos Anônimos do Dona Marta serviu de QG da produção. É onde todos jantavam, se maquiavam e se vestiam antes de subir as ladeiras do morro. As filmagens aconteceram, na maioria das cenas, na praça Cantão, no lado esquerdo da comunidade. Moradores acompanharam a agitação de suas janelas e do alto das lajes. “Agora entendo porque as moças do morro têm perna grossa. É de tanto subir e descer as ladeiras todo dia”, conta Mariana Rios.

Curiosamente no mesmo local foram filmadas cenas de “Tropa de Elite 2” . Dona Marta ficou mundialmente conhecida por ser palco do clipe que Michael Jackson gravou em 1996. Em meio a isso, foi palco de chacinas e intensos tiroteios na década de noventa. Agora pacificado, voltam ao morro os refletores e câmeras. Dessa vez, para zombar do passado recente. O vendedor de churrasquinho comemorava o bom movimento para uma terça-feira de frio na cidade. “Podia ter filme sendo feito todo dia aqui”, vendo bem mais que pipoca em dia de estreia”.

Assista a seguir ao making of:


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