Mistura da realidade e ficção pontua debate de romancistas na Flip

PARATY ¿ Três livros que, apesar de distintos, compartilham um chão comum. A mesa ¿Verdades Inventadas¿, na Tenda dos Autores, tratou de esclarecer na tarde desta quinta-feira (02) as similaridades entre as obras de Sérgio Rodrigues, Arnaldo Bloch e Tatiana Salem Levy e trazer à tona o que pode ser a dita ¿verdade¿.

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |


Para Rodrigues, colunista do iG, ela nem chega a existir, afirmação que alude a um debate paralelo sobre a objetividade jornalística. A realidade não existe, defendeu, ela existe somente na linguagem. Autor do romance Elza, a garota, o jornalista reconta a história de Elza Fernandes, assassinada, especula-se, a mando de Luiz Carlos Prestes, mítico líder do Partido Comunista Brasileiro, através de uma mistura de farta pesquisa e de ficção, pontuada pelo personagem Xerxes.

Segundo Rodrigues ¿ que deu cabo do projeto em apenas um ano, graças a uma disciplina que nunca tinha tido ¿, a hibridez com o jornalismo não invalida nem de longe o resultado final do relato. A realidade de um jornalista não é mais verdadeira do que a de um escritor, sentenciou.

Arnaldo Bloch segue o mesmo caminho. O também jornalista colocou no papel as memórias de sua família, antiga proprietária do grupo Bloch. Além de entrevistas e do factual puro, Arnaldo contaminou o texto com testemunhos de suas tias-avós, criando uma narrativa polifônica e conferindo luzes e sombras ao relato. A biografia definitiva é uma falácia, um selo para vendas, disse.

Achar que a apuração minuciosa da realidade vai garantir maior ou menor grau de fidelidade é um erro, é desconhecer a subjetividade e as diferentes visões de uma mesma cena. Dar voz ao universo de valores, sentimento e à pesquisa me deixou muito mais próximo da verdade do que qualquer redução purista sobre o tema, acrescentou, enfático.

Para Tatiana, o processo foi de certa forma o mesmo, apesar de, ao mesmo tempo, bastante diverso. Em A Chave de Casa, ganhador do Prêmio SP de Literatura na categoria estreante, a personagem principal, alterego da escritora, ganha do avô a chave da casa em que ele morava na Turquia e parte em uma jornada de autodescobrimento. No debate, autora revelou que a premissa partiu do passado de sua família judia, expulsa da península ibérica durante a inquisição.

Nos primeiros passos da escritura do livro, Tatiana até chegou a entrevistar uma tia-avó e iniciou uma pesquisa preliminar, mas em seguida jogou tudo para o alto. Não queria falar de fatos. Como escritora, estou sempre em busca da verdade, mas não de fatos, e sim da literatura. Uma palavra, uma frase às vezes chegam mais perto da verdade do que o fato em si, argumentou.

No fim das contas, a família da autora não se reconheceu no romance e nem ela mesma já sabe o que é verdade ou ficção nas linhas que, a princípio, tinha essência autobiográfica. Pra mim, é como disse Nietzsche: É preciso transformar em sangue próprio seu passado e o dos outros.

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