"Minha lealdade como cineasta não é ao Estado", diz José Padilha

Diretor de "Tropa de Elite 2" ataca a pirataria e defende o cinema político em coletiva

Guss de Lucca, iG São Paulo |

Divulgação
O diretor José Padilha durante entrevista em Paulínia (SP)
Em coletiva realizada na manhã desta quarta (06.10), no Theatro Municipal de Paulínia, interior de São Paulo, equipe e elenco do filme "Tropa de Elite 2" demonstraram ansiedade em saber a opinião dos jornalistas sobre a sequência do sucesso de 2007, "Tropa de Elite".

A expectativa, que já era alta, aumentou vigorosamente após o término da primeira projeção, ocorrida na noite anterior, que foi ovacionada pelo público. Isso, somado à notícia de que o longa vai estrear nesta sexta (08.10) em 636 salas, promete gerar uma discussão quente sobre temas espinhosos de política e sociedade brasileiras, não por acaso permeados pela corrupção.

A estrela da coletiva foi o cineasta José Padilha, conhecido por seus trabalhos politizados, como os documentários "Ônibus 174" (2002) e "Garapa" (2008) - e também pelo primeiro "Tropa de Elite". Com o discurso afiado, o diretor alegou não ter sentido haver pressão em sua realização por estar lidando com dinheiro de incentivo fiscal.

"O financiamento público não é um financiamento do Estado. É um financiamento do público. O Estado não produz riqueza nenhuma. O Estado cobra impostos. Então a minha lealdade como cineasta não é para o Estado, pois não me sinto financiado por ele. Me sinto financiado pelos milhões de brasileiros que pagam seus impostos, compram produtos e geram lucros para as empresas que aplicam no audiovisual. Então o comprometimento é com o meu público", explicou.

Padilha deixou claro que acredita no cinema político e no poder de um filme - ou um conjunto de filmes - interferir na realidade e provocar uma reação, tanto do público quanto de pessoas que ocupam "cargos chave" do governo.

"Alguns políticos reagiram ao filme antes mesmo do lançamento, dizendo 'eu não sou o deputado tal', 'eu não sou o governador do filme'. O fato é que o roteiro aborda acontecimentos modificados, mas reais. Houve uma rebelião em Bangu, políticos do Rio estão em fotos com milicianos de verdade, existiu um pedido de CPI que foi aberto só após a pressão da mídia... O governador do filme não é um governador, pois esses acontecimentos passaram por governos diferentes, mas alguns políticos insistem em se identificar", disse.

Outra questão levantada envolve a data de lançamento do filme, que chega aos cinemas do país em meio ao segundo turno da disputa pela presidência da República. "O ano estava difícil para datas, pois tínhamos uma Copa do Mundo e logo depois as eleições. E mais tarde tem a estreia do novo 'Harry Potter', o que diminuiria bastante o número de salas. Tínhamos duas datas: 03 de setembro e 08 de outubro. Como o filme não ficou pronto em setembro, lançamos agora", explica Padilha.

Quanto a uma possível influência de "Tropa de Elite 2" no segundo pleito, o diretor revelou um certo pessimismo, alegando que "tudo o que o filme trata infelizmente continuará sendo verdade antes e depois dessa eleição." "Se o filme fizer a Dilma ou o Serra falarem de segurança pública, estou feliz."

Esquema de segurança e criação coletiva

Em meio a muitas perguntas políticas, José Padilha jogou até em si a culpa de não se falar tanto do filme como cinema. Mas quando o fez, desmistificou o curioso processo de segurança para impedir que o filme fosse pirateado - como ocorreu com o primeiro "Tropa de Elite".

"O que aconteceu no primeiro filme foi um trauma", explicou o ator Wagner Moura. "Era revoltante ouvir pessoas dizendo que nós vazamos a cópia para promovê-lo ou que era um jeito de democratizar o audiovisual. Mas o que aconteceu foi um roubo", desabafa.

Na sequência, Padilha atacou a pirataria, elencando diversos motivos para condená-la, como a sonegação fiscal, competição ilegal e corrupção de autoridades. "Não dá para aceitar que o Ministério da Cultura aceite a pirataria dessa forma, por isso montamos um esquema de segurança."

"Onde existia o filme em formato digital havia câmeras, senhas de acesso e nenhuma conexão de internet. Finalizamos o longa apenas em película, então para roubá-lo a pessoa precisaria pegar sete rolos enormes de negativos, exibir o filme no cinema e filmá-lo com uma câmera", disse o cineasta.

Após sua conclusão, "Tropa de Elite 2" teve todas as cópias numeradas, o que facilitaria a identificação do cinema que deixar o filme vazar - caso isso aconteça após seu lançamento. "É caro tomar essas medidas, aumentou bastante o nosso orçamento, mas as leis do Brasil são coniventes com quem pirateia", encerrou.

Outro ponto abordado por Padilha foi a criação coletiva de um longa. De acordo com ele, o diretor não é autor do filme, pois está sujeito a “insights” constantes de outros membros da equipe e elenco, que colaboram para a realização da fita.

"O cinema brasileiro tem melhorado muito nos últimos tempos, e isso não quer dizer que os diretores melhoraram, mas sim que as equipes técnicas têm melhorado. Se eu quiser estragar o filme, os outros não vão deixar."

Para evitar o que ocorreu no filme anterior, que acabou sendo montado duas vezes, o diretor pediu que o montador Daniel Rezende participasse de todo o processo de filmagem, fato considerado incomum no cinema e que reforça a tese de criação coletiva de Padilha.

"Unir a pós-produção com é pré-produção é algo que não costuma acontecer. Nunca ouvi história de montador no set - uma facção inclusive diz que o montador deve se distanciar das filmagens, manter seu olhar fresco, mas, neste caso, ajudou bastante", contou Daniel.

Veja abaixo o diretor José Padilha durante a coletiva:

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