Michael Moore recebe aplausos e gritos entusiasmados em Veneza

VENEZA ¿ Michael Moore sempre foi manipulador, exagerado, aparecido. E também muitíssimo engraçado e eficiente ao passar sua mensagem. Ao contrário do que disse Werner Herzog, o diretor americano não tem vergonha nenhuma de fazer filmes-manifesto ¿ e, vale lembrar, embora tenha tido efeito nenhum nas eleições de 2004, seu ¿Fahrenheit 11 de Setembro¿ ganhou a Palma de Ouro. Com ¿Capitalism: A Love Story¿ (Capitalismo: uma história de amor), ele consegue mais uma vez causar comoção na plateia. A exibição para jornalistas na noite deste sábado foi a mais lotada de todas, teve o público acompanhando com risadas e comentários e, ao final, recebeu grande quantidade de aplausos entusiasmados ¿ e até gritinhos.

Mariane Morisawa, enviada especial a Veneza |

Reprodução



Capitalism: A Love Story faz uma espécie de resumo da carreira do cineasta, iniciada com Roger & Eu (1989) um documentário sobre a decadência econômica de sua cidade natal, Flint, Michigan, onde existia uma grande fábrica da General Motors. Mas também tem um senso de oportunidade fabuloso, saindo justo quando o capitalismo, pelo menos como conhecemos, parece estar realmente em crise profunda, com as pessoas refletindo sobre o excesso de ambição e o acúmulo exagerado de riquezas, que certamente contribuiu na eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos.

Moore inicia o longa-metragem de 120 minutos com vários despejos de moradores de suas casas. A crise financeira chegou primeiro ao ramo imobiliário, como se sabe, um setor artificialmente inflado durante anos. Como sempre, a equipe do diretor recolhe casos impressionantes, por exemplo o dos empregados de grandes empresas que, mortos, acabam gerando indenizações muitas vezes milionárias para seus patrões, sem que suas famílias tenham tido notícia de tal apólice de seguro.

O filme também tem muitos momentos de humor, desde aqueles em que compara o império americano com o império romano até os que mostra, como de praxe, o ex-presidente George W. Bush em situações ridículas. O cineasta não deixa de montar aquele seu número de tentar falar com poderosos, aparecendo na frente de sedes de empresas com um megafone, como faz desde sua primeira obra. Aqui, tenta recuperar o dinheiro dado aos bancos no fim do governo Bush, passando uma sacolinha por várias instituições, e envolve os prédios de corporações como Merryl Lynch, Citibank e Goldman Sachs com uma faixa de Crime scene (cena de crime). É apelativo, mas funciona, assim como os outros exageros que normalmente Michael Moore gosta de cometer, inclusive selecionando apenas os dados que mais interessam a sua tese. Não dá para acreditar em tudo o que ele diz, mas, no fundo, é tudo verdade.

Depois de fazer um panorama de como a situação chegou àquele ponto e de como o povo americano teria começado a se rebelar (e a eleição de Obama seria representativa disso), ele faz um convite aberto a todos da plateia a se juntar num movimento contra o capitalismo e a favor da democracia. Apesar de falar de socialismo no filme, mas um socialismo democrático, Michael Moore evita usar a palavra no final. Ainda que goste de se auto-promover, é de se admirar a coragem de provocar e exibir sem dó as mazelas, num momento em que a televisão norte-americana está cada vez mais alinhada aos interesses dos grandes grupos.

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