Mesmo recluso, Terrence Malick é um gênio do cinema

Com "A Árvore da Vida", o cineasta volta a sentir o gosto da consagração que havia recebido nos anos 1970

Ricardo Calil, colunista do iG |

Nunca houve um cineasta com o estilo de Terrence Malick, o diretor de "A Árvore da Vida" , que estreia nesta sexta-feira no Brasil trazendo a Palma de Ouro em Cannes na bagagem. Não apenas o estilo cinematográfico, mas também o pessoal.

Houve outros gênios reclusos na história do cinema – talvez Stanley Kubrick seja o mais célebre. Mas, perto de Malick, o diretor de "2001 - Uma Odisseia no Espaço" era praticamente um animador de auditório.

Divulgação
Cena de 'A Árvore da Vida'

Para entender a personalidade de Malick, e o culto criado em torno dele, é preciso recorrer a um exemplo de outra área. Como o do escritor J.D. Salinger , tão famoso por ter escrito "O Apanhador no Campo de Centeio" quanto por ter preservado ferozmente sua vida particular da curiosidade de fãs e jornalistas.

Em 40 anos de carreira, Malick deu raríssimas entrevistas, nunca promoveu seus filmes e chegou a ficar 20 anos sem lançar nenhum trabalho como diretor, entre "Cinzas no Paraíso" (1978) e "Além da Linha Vermelha" (1998).

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Mas é claro que o mito em torno de Malick só pôde florescer porque, além da rara discrição, ele tinha um talento incomum. E porque, assim como no caso de Salinger, houve uma estréia explosiva.

Em "Terra de Ninguém" (1973), seu primeiro filme, baseado na história real de um casal de assassinos dos anos 1950, já estavam à vista algumas das características que fariam a fama de Malick: narrativa não-linear, imagens impressionistas de enorme beleza, com um inegável gosto pelo contraluz, e uma situação idílica que em dado momento será maculada por uma irrupção de violência, psicológica ou real.

Foi um espanto para o público e a crítica. Ninguém sabia dizer onde havia visto algo parecido – talvez porque não houvesse. O pequeno filme independente foi comprado por um grande estúdio e colocou Malick no mapa do cinema mundial.

Cinco anos depois, veio "Cinzas no Paraíso" (1978), um filme com uma chave mais romântica, sobre um triângulo amoroso no Texas do começo do século 20, que foi recebido de forma ainda mais entusiasmada pela crítica. Com apenas dois filmes, Malick firmou a fama de gênio do cinema.

E, então, quando todos esperavam ansiosamente pela próxima obra-prima, Malick sumiu, desapareceu, escafedeu-se. Ou, numa versão mais realista, mudou-se para Paris, escondeu-se do público e recusou-se sistematicamente a falar sobre seus trabalhos passados ou seus projetos futuros. Obviamente, o sumiço só aumentou o mito em torno de Malick.

Duas décadas depois, quando seus fãs já haviam desistido de esperar, surgiu a notícia de que ele finalmente faria um novo filme. Ainda que a maioria dos críticos não tenha colocado "Além da Linha Vermelha" (1998) no mesmo patamar das obras anteriores, poucos foram incapazes de reconhecer que estavam novamente diante de um talento invulgar e que o cinema só teria a ganhar com o retorno de Malick.

Graças aos deuses do cinema, Malick voltou ao ritmo do início de sua carreira. Ele demorou "apenas" sete anos para fazer o filme seguinte, "O Novo Mundo" (2005), que em geral foi recebido com a mesma admiração contida de "Além da Linha Vermelha".

Foi com "A Árvore da Vida" (2011) que ele recebeu o mesmo tipo de consagração do início da sua carreira, levando a Palma de Ouro em Cannes, apesar dos aplausos divididos com vaias na exibição para o público.

No talento e na pretensão, o filme é Malick ao cubo: uma história que pretende não apenas acompanhar a trajetória de um ser humano sobre a Terra, como mostrar as origens da vida humana no universo.

Houve dúvidas se Malick compareceu à cerimônia de premiação em Cannes. Mas depois uma foto provou que ele estava lá, em meio aos seus atores, e saiu de fininho assim que a Palma de Ouro foi anunciada. Um homem sempre fiel a seu estilo.

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