Matt Damon e Emily Blunt seguram "Os Agentes do Destino"

Mistura de romance e ficção científica supera até contornos celestiais da história

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Matt Damon e Emily Blunt em "Os Agentes do Destino": química explosiva
Boas ficções científicas são raras de chegar ao mercado, talvez ainda mais do que bons romances, produzidos aos borbotões para saciar uma parcela cativa do público. A quantidade, obviamente, faz com que a qualidade apareça aqui e ali, mas a simpatia de um casal em primeiro plano nem sempre resiste à superexposição de uma grande tela de cinema. "Os Agentes do Destino", que estreia nesta sexta-feira (13) no Brasil, supera essa barreira e é bem-sucedido em fazer a união, geralmente desastrosa, desses dois gêneros, romance e ficção. Mais um motivo para bater palmas para George Nolfi.

Roteirista de "Doze Homens e Outro Segredo" (2004) e "O Ultimato Bourne" (2007), que fechou a trilogia do agente desmemoriado, Nolfi fez de "Os Agentes do Destino" seu primeiro projeto autoral, se encarregando da direção, roteiro e produção. Uma tarefa ambiciosa que deslanchou e garantiu financiamento com a escalação de Matt Damon, o Bourne em pessoa, amigo do, então, cineasta estreante. O desafio seguinte foi encontrar o par do protagonista. Nolfi passou meses, sem sucesso, atrás de uma bailarina que soubesse atuar. A britânica Emily Blunt ("A Jovem Rainha Victoria", "O Diabo Veste Prada") havia ficado interessada pelo papel e insistiu para ganhar uma chance. Não sofreu uma transformação como a de Natalie Portman, mas impressionou Nolfi o suficiente.

A partir disso, a estrutura romântica do filme estava montada, embora a arquitetura fosse de ficção científica, a partir de um conto de Philip K. Dick, fonte de um sem número de adaptações ("Blade Runner", "O Vingador do Futuro", "Minority Report"). Na história, o jovem político David Norris (Damon), à frente das pesquisas para conseguir uma vaga no senado por Nova York, sofre um revés na campanha na véspéra da votação. Desiludido, conhece no banheiro masculino a dançarina Elise (Blunt). O instante é breve, mas a paixão, avassaladora.

Entram em cena homens misteriosos, de terno, sobretudo e chapéu, que se monstram particularmente interessados na separação do casal. Meio sem querer, Norris descobre que eles são responsáveis por garantir que o plano original de cada pessoa no planeta seja levado a cabo. Invisíveis ou nem tanto, se encarregam de fazer com que um molho de chaves desapareça, um ônibus atrase, uma xícara de café caia na roupa – coincidências, aos olhos normais, que servem de encaixe para o quebra-cabeças do destino traçado para cada um.

No caso de Norris, a aparição de Elise foi um equívoco do agente Harry (Anthony Mackie, de "Guerra ao Terror") e os dois não podem ficar juntos. Do contrário, as aspirações previstas para o político nunca serão concretizadas, nem as da dançarina. Não é preciso dizer que os dois vão levar a luta contra a ordem até as últimas consequências.

É inegável a origem celestial dos agentes, entre eles John Slattery ("Mad Men") e o sempre assustador Terrence Stamp. O visual nostálgico dos personagens tem um quê de "Além da Imaginação", mas o parentesco surge forte com os anjos de Wim Wenders ("Asas do Desejo", "Tão Longe, Tão Perto"), depois reprocessados em Hollywood com "Cidade dos Anjos". No mundo de Nolfi, o céu ganha uma estrutura corporativa, comandada pelo presidente, autor dos planos individuais e chefe dos agentes, que têm possibilidade de crescimento na empresa. Uma ideia curiosa, que humaniza o além e tira seu tom solene sem esquecer a ficção científica – o modo como os anjos, ou agentes, viajam pela cidade é um dos trunfos da faceta thriller do filme.

Mas a força inegável está no par formado por Matt Damon e Emily Blunt. Os diálogos são afiados, fluentes, e a química, explosiva. Há tempos um casal não era tão genuíno em cena, o que se revela essencial para o andamento da narrativa. Se rumo ao desfecho a pieguice se avizinha perigosamente, os dois mantêm o espectador crente em seu romance, até mesmo quando uma "lição de vida" começa a se desenhar na trama. Uma aposta arriscada do diretor e roteirista, que se paga no final.

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