Mario Bellatin e Cristovão Tezza analisam fronteira entre realidade e ficção

PARATY ¿ A exemplo do que aconteceu na mesa de Sérgio Rodrigues e que deve acontecer no encontro entre Sophie Calle e Grégoire Bouillier, o tema na conferência do mexicano Mario Bellatin e de Cristovão Tezza, na tarde desta sexta-feira (03), passou mais uma vez pela relação entre realidade e ficção. Para Bellatin, cuja presença carismática e até excêntrica roubou as atenções, não se pode separar uma coisa da outra.

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |

AE
O mexicano Mario Bellatin e o brasileiro Cristovão Tezza durante o debate

Mario Bellatin e o Cristovão Tezza no debate "O eu profundo e outros eus"

Em alguns momentos da escritura a realidade se sobrepõe à ficção e vice-versa, disse o mexicano. Não penso em aspectos da minha vida quando escrevo, mas ao contar histórias eles aparecem inadvertidamente. De qualquer forma, o que interessa é poder atingir um ponto neutro da linguagem, em que o silêncio também fale.

Nesse sentido, o autor ¿ um dos hispano-americanos de sua geração mais difundidos atualmente ¿ afirmou que espera que o leitor entre nesse universo e perceba que houve alguma coisa no silêncio, nas tramas inconclusivas de suas histórias, consideradas experimentais pela desenvoltura e com personagens bizarros. Não sou experimental porque isso já virou um rótulo. Busco uma literatura que use apenas o que necessita, e não o que o autor ou a época ditem, na qual o próprio texto se defina. Não é uma literatura purista, e sim forneça um retorno à realidade em qualquer realidade.

Ganhador de todos os prêmios literários do Brasil no ano passado com o romance O Filho Eterno, inspirado na relação que mantém com seu filho, portador da síndrome de Down, Tezza obteve a rara sincronia do reconhecimento de crítica e público. A popularidade lhe rendeu uma agenda ocupadíssima pela enxurrada de convites pelo Brasil afora, de gente que queria ver o autor de perto. É a espetacularização da cultura da imagem, que ainda não havia chegado à literatura, apostou.

Quanto ao uso de elementos de sua vida no livro, Tezza disse que se trata de um material literário como qualquer outro, mas que é preciso se afastar para obter o distanciamento necessário para bater no personagem sem precisar manter compromissos com a realidade. O grande desafio do escritor é sair do terreno da confissão para adentrar o da literatura, definiu. É uma coisa perigosa virar personagem de si mesmo. Mas é claro que sempre vai ter algo do escritor em sua obra, somo todos Frankensteins de memórias.

Criador da visionária Escuela Dinamica de Escritores, na Cidade do México, Mario Bellatin ganhou notoriedade por recentemente ser curador de um congresso de literatura mexicana contemporânea na universidade Sorbonne, em Paris. No lugar de enviar os autores para debater com o público, no entanto, Bellatin resolveu mandar jovens que decoraram suas teorias. A ideia, óbvio, não agradou muito. Ele faria algo similar na Flip, com um clone seu? Nem louco perderia uma viagem ao Brasil, respondeu.

Livros queimados na Irlanda

A escritora irlandesa Edna OBrien participou sozinha da mesa anterior, batizada de Sentidos da transgressão, que anteriormente teria também a participação de Catherine Millet, até a polêmica escritora francesa ganhar uma conferência própria no domingo. Famosa por ter seu livro de estréia, Country Girls (1960), banido de seu país pelo modo como descrevia a vida sexual de camponesas, OBrien minimizou o caso, afirmando que chocar os integrantes do governo não era nada difícil.

Eram três homens que ficavam numa sala e não tinham o trabalho, mas sim a alegria de banir um livro. Três cartas reclamando de um trecho eram suficientes para que o trabalho fosse recolhido, afirmou. A autora não amenizou, no entanto, o impacto que o livro teve em sua cidade natal, um povoado irlandês: as poucas pessoas que compraram suas edições foram convidadas pelo padre local a queimá-las na igreja.

Sem muito jogo de cintura, a editora inglesa Liz Calder, presidente da Flip, não conseguiu domar o ímpeto de OBrien, aparentemente muito feliz de estar diante de uma plateia brasileira, nem soube encadear as perguntas, o que tornou a conversa dispersa demais. Mesmo assim, Edna, de 78 anos, falou de Byron in Love, romance sobre o poeta que deve ser publicado até o final do ano, da importância que a Irlanda tem em sua obra e declamou, dramática, um poema em homenagem ao presidente norte-americano Barack Obama.

Autora de uma biografia de James Joyce, OBrien lembrou que ele e sua esposa ¿ que, comenta-se, leu apenas três páginas de Ulisses, incluindo a do título ¿ tinham uma relação fora do normal, que conseguiu superar os obstáculos de um relacionamento com um escritor. Os poetas têm sorte de que para escrever seus poemas levam semanas, meses. Já um romance pode levar quatro, cinco anos, afirmou. Por isso, a atividade requer um pouco de monstruosidade, egoísmo e abrir mão da vida social, é um pouco deprimente. É mais fácil ser mãe e escritora do que uma esposa e escritora. Já me perguntaram se não me casaria de novo, mas duvido que alguém quisesse, brincou.

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