'Margin Call' apresenta uma visão privilegiada da crise

Filme com Kevin Spacey mostra as últimas 24 horas de um banco de investimentos prestes a quebrar

Dubes Sônego, iG São Paulo |

O edifício de número 745 da Sétima Avenida, em Nova York, amanheceu agitado no dia 15 de setembro de 2008. Depois de um final de semana de reuniões e negociações tensas com o governo e outros bancos, o Lehman Brothers, então o quarto maior banco de investimentos dos EUA, jogava a toalha e despejava na rua centenas de jovens analistas e executivos, levando caixas de papelão com seus pertences pessoais. O movimento continuaria por toda aquela segunda-feira, e no dia seguinte. Estourava a maior crise financeira internacional desde a quebra da bolsa, em 1929.

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Kevin Spacey em 'Margin Call'

É em clima de final de festa parecido que começa "Margin Call – O Dia Antes do Fim". Com estreia prevista no Brasil para esta sexta-feira (dia 9), o filme conta a história das últimas 24 horas de um banco de investimentos, antes de os Estados Unidos mergulharem em uma grande crise financeira. No cinema, o banco não tem nome. Mas o paralelo é evidente.

Demitido sem chances de terminar nem mesmo o relatório no qual estava trabalhando, Eric Dale, especialista em análise de risco de investimentos, entrega a um de seus jovens comandados um pendrive e pede que cheque as informações. Antes de o elevador fechar, diz para ter cuidado.

Intrigado, o jovem analista resolve ficar até mais tarde no escritório. Descobre que o banco está prestes a quebrar e que pode levar junto todo o sistema financeiro. Chama de volta então dois colegas nos quais confia, para que deem uma olhada. A partir daí, a notícia começa a subir níveis hierárquicos em reuniões cada vez mais dramáticas noite adentro, nas quais será decidido o futuro deles e do banco.

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Zachary Quinto em 'Margin Call'
Informação privilegiada

Um dos pontos mais interessantes de "Margin Call" é talvez a forma como discute, sem maniqueísmo, as motivações e ambições de quem está no centro de uma crise financeira como a atual. E quão próximas elas podem ser das de qualquer cidadão com a conta no banco bem menos recheada.

Há entre os personagens desde o banqueiro que gasta fortunas com carros, restaurantes e mulheres até o jovem doutor em engenharia aeronáutica que abandona a carreira científica por um salário melhor no mercado financeiro. Ou o alto executivo que, mesmo nauseado por tomar atitudes contrárias aos próprios valores, desiste de pedir demissão porque se acostumou a um padrão de vida que não conseguiria manter de outra forma. E o grande banqueiro que, em meio ao caos, se sente tranquilo e só pensa em como vai ganhar com a nova crise.

Trata-se de um universo de personagens que J.C.Chandor, roteirista e diretor do filme, conhece de perto. Filho de um executivo do Merrill Lynch, passou a vida em subúrbios ricos de Nova York, tendo contato com tipos semelhantes, como contou em entrevista ao site americano Movie Line. “Eu conheço muito sobre esses personagens. Não do ponto de vista técnico, mas do emocional. Por que as pessoas escolhem os empregos que escolhem? Por que pedem demissão? O que as assusta?”.

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Mas, se do ponto de vista intelectual o filme é empolgante, pode parecer um pouco monótono e dar sono em quem espera reviravoltas típicas de outros filmes do mercado financeiro, como "Wall Street", que toma novo rumo após Gordon Gekko enganar a filha para refazer a própria fortuna.

O ritmo, na verdade, é quase documental. Provavelmente porque esta é a principal escola de Chandor. Antes de fazer Margin Call, o diretor passou 15 anos dirigindo comerciais, documentários, filmes institucionais e tudo mais que caísse em suas mãos.

Em 2004, por exemplo, fez um documentário de 8 minutos, "Despacio", com orçamento estimado em US$ 5 mil, segundo o site IMDB. E, antes, em 2002, trabalhou em funções ligadas à produção de som em dois curiosos documentários de curta duração, sobre a experiência dos envolvidos nas filmagens de Rambo 1 e 2.

O salto para "Margin Call" é evidente. A começar pelo dinheiro disponível para a produção. Foram US$ 3,3 milhões. Pouco se comparado às grandes produção de Hollywood, mas um valor significativo para quem fazia parte do segundo (ou terceiro) time do cinema americano em termos de orçamento.

Além da competência na direção, o filme conta com uma série de astros de Hollywood que ajudam a dar peso à história. Atraídos pela natureza do projeto, vieram Kevin Spacey, Demi Moore, Paul Bettany, Jeremu Irons, Zachary Quinto, Penn Badgley, Simon Baker e Stanley Tuci, entre outros.

É um retrato de uma crise que ainda não acabou.

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