Marco Ricca estreia em Cabeça a Prêmio

Adaptação de livro de Marçal Aquino não decola, mas revela cineasta promissor

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Daniel Hendler e Alice Braga em Cabeça a Prêmio: romance às escondidas
A parceria entre o diretor Beto Brant e o roteirista e escritor Marçal Aquino criou um microcosmo já reconhecível no cinema nacional. Crime, bandidos de aluguel, amor furtivo, intrigas, cerrado, zona fronteiriça – algumas palavras-chave que remetem às tramas de Os Matadores , Ação Entre Amigos e O Invasor , seus maiores sucessos. Colega de Brant em Invasor e Crime Delicado , o ator Marco Ricca mergulhou nesse universo para adaptar Cabeça a Prêmio , romance de Aquino, em sua estreia na direção. O filme entra em cartaz nesta sexta-feira (19) em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Campo Grande, encabeçado por um elenco de primeiríssimo time.

As histórias se misturam numa cidadezinha do centro-oeste brasileiro, perto da divisa com a Bolívia. Miro (Fulvio Stefanini) administra com mão-de-ferro as cabeças de gado de sua fazenda e "diversifica" os negócios com contrabando de países vizinhos. Seu irmão mais novo, o alcoólatra Abílio (Otávio Muller), não quer saber de prudência e expandir os carregamentos, apesar da polícia fechar o cerco. O piloto do avião, Dênis (o uruguaio Daniel Hendler, de O Abraço Partido), está de caso com a filha de Miro, a patricinha Elaine (Alice Braga). Os paus-mandados do fazendeiro, responsáveis pelo trabalho sujo, são vividos por Cassio Gabus Mendes e Eduardo Moscovis. Engrossam a lista Via Negromonte, Cesar Troncoso (O Banheiro do Papa), Denise Weinberg e Ana Braga, que interrompeu a aposentadoria para interpretar a mãe de Alice, sua filha na vida real.

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Marco Ricca no set: talento como diretor
Grande nome das telas e dos palcos, Ricca faz uma estreia corajosa e transforma o roteiro – escrito por ele mesmo, em parceria com Felipe Braga e próprio Aquino – numa bomba-relógio de conflitos. Louco para fugir com a namorada, Dênis de repente vira testemunha-chave da Justiça no caso de contrabando. A garota vai querer trair o pai? Abílio sente-se ressentido pelo poder do irmão e quer mais. Gabus Mendes procura o amor, enquanto Moscovis encontra o seu e começa a questionar seu papel de matador. Os personagens vão e vêm em seus núcleos, a trama gira, a pressão aumenta, a bomba parece que vai explodir e... não estoura.

E aí está o problema. Ricca consegue criar um par de cenas interessantíssimas, bem construídas, mas que, juntas, não chegam a criar a tensão necessária para a história decolar. A direção é feita de forma seca, retratando a aridez das relações e do clima mato-grossense, só que fica seca demais, tira o suco de uma ação que poderia crescer para se tornar algo como um irmãos Coen brasileiro. No desfecho a situação se torna ainda mais clara: ao invés de ficar na ponta da cadeira, como se deveria, fica-se de pernas cruzadas, pensando em como os personagens chegaram até ali, sem se deixar convencer.

Não dá, no entanto, para ignorar os méritos de Cabeça a Prêmio . O elenco contribui muito para isso, é verdade – até porque os papéis foram escritos especificamente para cada ator –, e Ricca mostra talento atrás das câmeras. A prova disso é o desconforto crescente que se abriga no estômago do espectador, e que eventualmente se vai. Mesmo assim, um primeiro filme que revela um cineasta promissor.

Assista ao trailer de Cabeça a Prêmio :

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