Malu de Bicicleta devolve bom cinema a Paulínia

Competição de longas de ficção é renovada com filme de Flávio Tambellini

Marco Tomazzoni |

Divulgação
Marcelo Serrado e Fernanda de Freitas, as competentes estrelas de Malu de Bicicleta
Em sua reta final, com apenas mais um filme para ser exibido, a competição de longas-metragens de ficção do Festival de Paulínia conheceu, depois de Cinco Vezes Favela – Agora por Nós Mesmos , mais um filme digno. Dirigido por Flávio Ramos Tambellini ( O Passageiro, Segredos de Adulto , Bufo & Spallanzani ), Malu de Bicicleta mostra com competência algo que Dores & Amores ficou longe de fazer. Mais do que discutir os relacionamentos do mundo moderno e a busca pelo amor, o filme também envereda pelo lado sombrio dessa discussão, o ciúme.

A história foi adaptada a partir do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, que também escreveu o roteiro, em sua estreia nos cinemas (a filmagem de Feliz Ano Velho , em 1987, não contou com a participação do escritor). Foi enxugada do romance boa parte da biografia do playboy Luiz Mario (Marcelo Serrado) para dar ênfase ao casal protagonista. Empresário da noite de São Paulo e “pegador” compulsivo, numa quase doença, Luiz Mario vai ao Rio tentar fugir dos problemas e é atropelado na beira da praia pela bela Malu (Fernanda de Freitas), em uma bicicleta.

Aí começa uma paixão sem limites e com ela, um ciúme doentio. Cheia de amigos e sem medo de dizer que “já aprontou muito”, Malu sem querer alimenta uma obsessão de Luiz de que ela o está traindo. Não há provas concretas nem qualquer motivo, só a desconfiança permanente. “A paixão é o nutriente da insegurança”, afirma um dos personagens. O sexo casual e a validade de se dar o troco entram em pauta, a paranoia cresce. É claro que isso não ia acabar bem. Ou ia?

O paralelo com o maior símbolo do ciúme na cultura brasileira, a Capitu de Dom Casmurro , é evidente, até pelo ponto de vista da história: sabe-se de tudo através do protagonista e as ações de Malu continuam um mistério para o espectador. O acerto de Tambellini é conseguir manter a tensão da trama acesa o tempo inteiro, atiçando-a rumo ao desfecho, sem meter os pés pelas mãos, com cadência, elegância. A montagem de Sérgio Mekler e Quito Ribeiro e a trilha sonora de Dado Villa Lobos só deixam tudo mais fluente.

Além de Fernanda de Freitas e Serrado, que enfim faz um papel competente no cinema, o bom elenco de apoio serve tanto para potencializar o eixo dramático quanto as cenas de humor, encabeçadas por Thelmo Fernandes e Marcos Cesana, naquele que é seu último trabalho nas telas (Cesana morreu, vítima de um AVC, em maio). Destaque também para Otávio Martins e a global Marjorie Estiano, desglamurizada. Malu de Bicicleta é sério concorrente aos prêmios principais.

* o repórter viajou a convite do festival

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