"Machete" é menos afiado do que parece

Bobagem de ação diverte, mas diretor Robert Rodriguez não sabe quando parar

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Quando o trailer de "Machete" apareceu na sessão dupla de "Grindhouse" (2007), todo mundo achou uma boa ideia – um mexicano barra pesada, fã de sangue objetos afiados, garanhão, tirando sarro dos filmes de ação e até igreja. A ideia continuou parecendo boa ao longo dos anos e Robert Rodriguez conseguiu o feito de colocar Danny Trejo, típico ator coadjuvante, em um papel principal e de cara levá-lo ao Festival de Veneza, na estreia do filme, que chega nesta sexta-feira (10/12) ao Brasil. O trailer seguiu sendo a matriz para a história que, apesar de divertir, foi um pouco longe demais.

Divulgação
Danny Trejo é Machete, o mexicano casca-grossa, defensor de seus "compadres"
Machete – mesmo nome de um personagem de "Pequenos Espiões", já que Trejo é figurinha frequente na filmografia de Rodriguez, seu primo – é um ex-policial federal casca-grossa mexicano. Depois de ver a família ser morta pelo chefão das drogas Rogelio Torrez (Steven Seagal, impagável), perambula pelo Texas, perto da fronteira com o México, atrás de trabalho, junto com outros imigrantes ilegais.

A oportunidade de ganhar uma grana aparece através de um engravatado (Jeff Fahey), que o contrata para assassinar o senador John McLaughlin (Robert De Niro, definitivamente um cara com senso de humor), em plena campanha de reeleição com a promessa de erguer uma cerca elétrica na fronteira e evitar a entrada dos "insetos chicanos". O esquema se revela uma cilada e Machete, líder da revolução, parte em busca de vingança, auxiliado por Jessica Alba (apagada), Michelle Rodriguez (chefe da resistência e surpreendentemente bonita) e o padre Cheech Marin (a melhor coisa do filme).

O grande elenco ainda conta com Lindsay Lohan em uma pequena participação, suficiente para provar que seu tempo de rehab ainda não acabou, e Don Johnson, o eterno "Miami Vice", irreconhecível, como o líder de uma organização paramilitar xenófoba – "não podemos deixar o Texas ser devolvido ao México", diz ele.

O cartaz cheio de rostos conhecidos e a premissa divertidíssima prometiam muito, até pelo excelente trailer "gore", recheado de sangue digital e cordas feitas de intestino. Mas Robert Rodriguez parece não ter muito mais a apresentar. Precursor dos filmes Mexploitation – produções mexicanas de baixo orçamento, geralmente policiais, com drogas e mulheres de pouca roupa – nos Estados Unidos, nos sucessos "El Mariachi" (1992) e "A Balada do Pistoleiro" (1995), fez feio a retomar a série em "Era Uma Vez no México" (2003).

O universo de "Machete" permanece sendo o mesmo, mas, em comparação a Quentin Tarantino, seu amigo e comparsa, Rodriguez continua sendo um adolescente sem muita coisa na cabeça. Não há belos diálogos, há frases. Não há sequências divertidas, há cenas. Faltou desenvolvimento das ideias ou coragem para podar os excessos nas paródias – os 105 minutos de duração são muito mais do que um filme como esse poderia ter. Não se pode dizer que o projeto não é autoral: Rodriguez dirigiu, produziu, escreveu, editou e compôs a trilha sonora. Tudo que está lá é, portanto, culpa sua. Até um certo comentário crítico e debochado da farta mão de obra mexicana nos EUA.

Pode-se atirar pedras, mas "Machete", é preciso ser dito, continua um entretenimento fácil para tardes vazias. Trejo, aos 66 anos, tem lá suas tiradas de gênio e tudo que se passa na igreja do irmão/policial/padre vivido por Cheech Marin é sensacional – como não vibrar com uma matança em frente ao altar, ao som de "Ave Maria"? O segredo é ir sem expectativa. "Machete" podia mais. Rodriguez é que não.

Assista ao trailer de "Machete":

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