Lourenço Mutarelli se afirma como ator em "Natimorto"

Escritor e quadrinista estrela adaptação de seu romance homônimo

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Simone Spoladore e Lourenço Mutarelli em "Natimorto", de Paulo Machline
Lourenço Mutarelli saiu definitivamente do gueto. Autor maldito dos quadrinhos, não é de hoje que ganhou o respeito dos críticos literários com seus livros e agora, veja só, cristaliza sua carreira como ator. Começou com um papel pequeno em “O Cheiro do Ralo” (2006), adaptação de seu romance de estreia estrelada por Selton Mello, e chega ao ápice em “Natimorto”, com direção de Paulo Machline. Desta vez, o escritor não só participa do filme baseado em seu livro homônimo, como também o protagoniza.

A história, disfuncional como sempre, é puro Mutarelli. O autor interpreta um agente musical que vê em uma cantora recém-chegada a São Paulo (a belíssima Simone Spoladore) um talento incrível. Afirmando que o mundo não está pronto para entendê-la, o agente propõe que os dois passem o resto de seus dias confinados em um quarto de hotel – ela, cantando (o espectador, no entanto, nunca ouve sua voz), e ele, contando as histórias fantásticas de sua vida.

A estranheza do personagem de Mutarelli, que fascina a garota, ganha ares místicos com um jogo engenhoso criado por ele, fumante inveterado: vislumbrar o futuro através de um paralelo entre as cartas do tarô e as imagens chocantes impressas nos maços de cigarro. Em vez de estimular a relação, no entanto, o mau agouro que o baralho pode ou não mostrar acaba desestabilizando a frágil empatia do casal, que discorda dos termos de seu “exílio” da sociedade.

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Spoladore: cantora "boa demais" para o mundo
Aí é que Mutarelli deslancha. Se os leitores já enxergavam nele os personagens problemáticos de seus livros, na tela, então, ele faz jus à suspeita e se entrega de forma assustadora aos fantasmas do empresário – levando a reclusão no hotel às últimas consequências, o personagem mergulha numa espiral doentia de insegurança e delírio. A coisa ganha contornos ainda mais devastadores se levarmos em conta que Mutarelli de fato passou por algo parecido, quando sofria de ataques de pânico. Aqui, ficção e realidade dividem uma linha muito tênue.

Mas é justamente na derrocada do protagonista que “Natimorto” perde a força. Indicado ao Oscar pelo curta-metragem “Uma História de Futebol” (2001), Machline investe em uma direção afetada, conduzindo a trama por meio de ângulos inusitados, montagem em flashes, cores berrantes e barulhinhos estranhos. A opção acaba chamando a atenção para os detalhes, e não para história. Enfraquece a dramaturgia no lugar de tornar a história crível.

O que não invalida o filme de todo. Mesmo que os diálogos não raro soem literários demais, são neles que “Natimorto” se sustenta, assim como na química de Mutarelli e Spoladore. Apesar de não compartilhar o humor que tornou cult “O Cheiro do Ralo”, a estranheza presente em ambos deve garantir sua parcela de fãs, embora a adaptação tenha demorado para entrar em cartaz e ganhe estreia limitada.

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