Lobo Antunes faz jus à expectativa e protagoniza melhor mesa de sábado na Flip

PARATY ¿ Parecia um programa de auditório. O público ria na hora certa, aplaudia com vontade após uma boa frase. No fim, até houve um lamento correndo pelas cadeiras, ¿aaah¿, e salva de palmas com a plateia inteira de pé. Tudo isso para António Lobo Antunes, o escritor português de 66 anos que, considerado de antemão a maior personalidade literária da sétima edição da Flip, protagonizou não só a melhor mesa deste sábado (04), mas uma das melhores até o momento.

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |

Divulgação/Walter Craveiro

"Quem quer ser escritor precisa ver Garrincha jogar 10 minutos", palpita Lobo Antunes

O desempenho, é verdade, também se deve ao mediador, Humberto Werneck, e sua empatia com Lobo Antunes. Os dois se conheceram em Paraty, mas já se tratam como se fossem melhores amigos. A cumplicidade rendeu elogios mútuos constantes, mas o melhor foi mesmo de Werneck, ao apresentar o colega lusitano: Alguns críticos acham que Lobo Antunes é tão grande escritor que a academia sueca pode ter cometido um erro de português, brincadeira (ou nem tanto) que faz alusão clara ao Nobel ganho por José Saramago.

Boa parte da conversa ganhou contornos biográficos, com Werneck perguntando histórias da família do autor, neto de brasileiros de Belém do Pará. Para mim, o Brasil não é um país, são cheiros, sabores, os doces das minhas tias, uma maneira de viver, de falar. Isso está sempre comigo, contou Lobo Antunes, cuja última passagem pelo País havia sido em 1983.

O Brasil também povoou sua infância em Lisboa, já que a biblioteca do avô era constituída basicamente por clássicos brasileiros do século 19, como José de Alencar, Aluísio de Azevedo e Raul Pompéia. Além dos amigos Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, seus maiores heróis até hoje, porém, são os poetas ¿ Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, que considera o maior poeta do século 20. Tenho uma relação difícil com a prosa, começo a ler e tenho vontade de corrigir, confessou o escritor. Leio poesia para aprender a escrever, pois num poema cada palavra tem um peso. Por isso mesmo, os melhores tradutores são poetas.

Ganhador do Prêmio Camões e de mais uma infinidade de distinções literárias, Lobo Antunes se afastou da medicina após se estabelecer como autor de sucesso. Até lá, no entanto, demorou para ser reconhecido, tanto que seu primeiro livro só foi publicado quando tinha 37 anos, por uma pequena editora portuguesa. A principal responsável por essa rejeição talvez seja a narrativa complexa de suas obras, que exige um esforço extra do leitor.

Atualmente, só tenho uma regra antes de começar a escrever: penso que vou fazer um livro que não sou capaz de escrever, preciso de desafios cada vez maiores, disse, cada grande escritor tenta mudar a arte do romance. O segredo, comentou, não está em tentar bancar o esperto para o leitor, abusar das metáforas ou esbanjar erudição; para ele, o que faz a diferença é prestar atenção nos pequenos detalhes, aqueles que as pessoas não percebem, e a partir disso fazer sua arte. Fica o conselho para os aspirantes: Quem quer ser escritor precisa ver Mané Garrincha jogar 10 minutos. Aquilo sai da alma, suspirou.

Sobre as declarações de que vai abandonar a literatura, soltas de quando em quando, não deu muita bola, até porque assumiu que escrever é uma doença. É minha alegria e meu tormento, porque só se pode escrever se for inconcebível, muito mais prazeroso é ler. Não suficiente, Lobo Antunes também tratou de teorizar sobre seu ofício, ao que foi prontamente aplaudido ¿ Escrever é um trabalho impossível, pois é anterior às palavras. O grande problema é transformar a linguagem das emoções em uma linguagem que não existe, sentenciou. Talvez isso que a literatura tenha que ser: sonhos, pesadelos, a vida. Belo jeito de encerrar a noite.

Realeza do jornalismo

Na mesa anterior, Gay Talese mostrou realmente integrar a realeza do jornalismo mundial em mais uma bela demonstração de experiência e sabedoria. Com mediação de Mario Sérgio Conti, o escritor norte-americano, um dos fundadores do jornalismo literário, lembrou da infância na loja do pai alfaiate, imigrante italiano, e da mãe, que vendia vestidos. A família morava no andar de cima e aproveitava o espaço para, ao mesmo tempo, exaltar as forças dos EUA na 2ª Guerra Mundial e torcer para os soldados italianos.

Divulgação/Walter Craveiro

Talese: "Queria contar histórias
de pessoas que não são ouvidas"

As conversas das mulheres da comunidade que o garoto ouvia no térreo serviram para ele decidir o que queria fazer para o resto da vida: contar as histórias de pessoas simples. Queria ser jornalista para escrever não-ficção como se fosse ficção. Queria ser um contador de histórias de pessoas que de outra forma não seriam ouvidas, pessoas que personificavam o drama humano, um conflito.

Em busca da verdade, aplicou sempre uma técnica que não esconde: hangin out, passar o maior tempo possível com seus entrevistados, se misturar. Não surpreende saber que ele já trabalhou em prédios, pontes e seu auge, no início da década de 1970, quando conseguiu o emprego de gerente de uma casa de massagens ¿ um prostíbulo, digamos ¿ para fazer uma matéria sobre a redefinição da moral nos EUA. A curiosidade pode nos levar a vários lugares, inclusive uma casa de massagens, inclusive com gente nua ao vivo, brincou.

Além de lembrar o caso Bobbit, Talese também falou sobre seu novo projeto, um livro em que vai contar seu casamento de 50 anos com a editora Nan A. Talese. O quão longe posso ir sobre a privacidade? O único desafio que vi foi mergulhar no único casamento que conheço bem, contou, sou o repórter do interior de um relacionamento. Para tanto, vai usar um arquivo que mantém desde 1959 no qual guarda, em ordem cronológica, cartas, contas, anotações, tudo sobre a vida a dois.

Na última pergunta, Conti ¿ que até então havia tido participação discreta  ¿ pesou a mão e perguntou se eram verdade os boatos que saíram na imprensa norte-americana de que o novo livro traria detalhes sobre casos extraconjugais de Talese e sua esposa, e se isso não seria uma concessão à era das celebridades. Acredito que posso manter meus padrões de delicadeza, respeito e honestidade, o escritor começou a responder. No futuro, seremos recompensados pela habilidade de escrever, de fazer o melhor trabalho que achávamos que podíamos, e é tudo que tenho a dizer sobre isso. Classe e profundidade, puro Talese.

No último dia da Flip, o britânico Simon Schama abre a programação ao abordar o panorama histórico dos EUA. Na sequência, a francesa Catherine Millet fala de seus dois livros, nos quais compartilha detalhes de sua vida sexual, Edson Nery da Fonseca e Zuenir Ventura fazem uma derradeira homenagem a Manuel Bandeira e por fim, às 18h, os principais convidados da festa lêem trechos de suas obras favoritas. Confira abaixo:

- 11h30, Mesa 16: "As sem-razões do amor"
Catherine Millet
Mediação: Maria Rita Kehl

- 14h30, Mesa 17: "O futuro da América"
Simon Schama
Mediação: Lilia Moritz Schwarcz

- 16h15, Mesa 18: "Antologia pessoal"
Edson Nery da Fonseca
Zuenir Ventura
Mediação: Humberto Werneck

- 18h, Mesa 19: "Livro de cabeceira"
Convidados da Flip leem trechos de seus livros prediletos

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