"Lixo Extraordinário" emociona em Paulínia

Documentário sobre relação de Vik Muniz com catadores foi aplaudido de pé

Marco Tomazzoni |

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Uma das obras criadas com lixo, a partir do trabalho feito no aterro do Jardim Gramacho
Nenhum filme no Festival de Paulínia foi aclamado como "Lixo Extraordinário", exibido ontem, no último dia da competição. A equipe do documentário viu o público levantar de suas poltronas – cerca de 1,3 mil pessoas, já que o Theatro Municipal estava lotado – e aplaudir de pé por longos minutos, assim que subiram os créditos. Quando as luzes da sala foram acesas, as palmas voltaram com força. Além de o filme ter agradado a plateia, foi uma homenagem aos catadores do Jardim Gramacho, que acompanharam a sessão.

O foco do documentário, no entanto, é outro. Parceria de uma produtora inglesa e da O2 Filmes, visava registrar a obra do artista plástico Vik Muniz, o brasileiro mais badalado no universo das galerias e leilões mundo afora. Com uma infância pobre em São Paulo, viajou para os Estados Unidos ainda jovem, se fixou em Nova York e ganhou fama por suas fotos e, principalmente, por reproduzir famosas obras de arte com materiais inusitados, como geléia, calda de chocolate ou manteiga de amendoim.

Por achar filmes de artistas “chatos”, usou seu espaço na frente das câmeras para documentar um novo "projeto social". Em 1996, Muniz havia ido ao Caribe fotografar crianças que trabalhavam em lavouras de cana-de-açúcar e, de volta a seu estúdio, recriou as imagens apenas com, veja só, açúcar. O trabalho deu origem à série “Sugar Children” e foi um sucesso. A ideia, então, era repetir o experimento, agora com pessoas que viviam literalmente no lixo, esquecidas pelo mundo, e reverter o dinheiro para as comunidades locais.

O Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho fica em Duque de Caixas é o maior aterro sanitário do mundo, destino de 70% do lixo do Rio de Janeiro e 100% de quatro outras cidades. Tudo ao redor gira em torno do negócio, de galpões para recolher material reciclável a uma favela onde vivem boa parte dos 3 mil catadores que trabalham ali. Lixo, aliás, é uma palavra proibida: se aprende logo que o correto é dizer “resíduos sólidos”, já que algo que gera dinheiro não pode ser chamado de lixo, por ter utilidade a alguém e também ajudar a preservar o meio ambiente.

Vik toma contato com essa realidade difícil e logo encontra personagens para suas obras, do presidente da associação dos catadores, que luta por uma realidade melhor para sua categoria, a mulheres com histórias trágicas até chegarem ao lixão. Gente trabalhadora, cheia de dignidade e sem qualquer vergonha. Esses pormenores são registrados com certa beleza pelas cineastas Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim ("Pro Dia Nascer Feliz", "Janela da Alma"), que contaram com a direção de fotografia de Dudu Miranda – difícil não se impressionar com as dimensões gigantescas do aterro, montanhas de lixo sendo reviradas por catadores de colete, que brigam por espaço com urubus.

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"Lixo Extraordinário": prêmios de público em Sundance e Berlim
Depois de fotografar os catadores em diversas poses, inclusive numa recriação de “Marat assassinado”, quadro de Jacques-Louis David (1793), Muniz levou os retratados para um galpão e, a partir das fotografias, recriou as imagens com objetos encontrados no próprio lixo. O artista, aliás, só fez a direção: quem metia a mão na massa eram os catadores. O contato com a arte, a descoberta da autoestima, a venda dos quadros em Londres e a abertura, com a presença dos personagens, da exposição retrospectiva de Vik no Rio, em 2008, que bateu recordes de público, mostram o caminho rumo à redenção. Imagens fortes, que emocionam.

Se engana quem acha que o filme é só sobre os catadores. Acima de tudo, é sobre o artista. Claro que as histórias humanas de luta e superação comovem – tanto que o longa já ganhou prêmios de público nos festivais de Sundance e Berlim –, mas "Lixo Extraordinário" desde o início se propõe a ser um veículo para Muniz, mesmo que com cara de cinema social. Esse conflito fica evidente em um breve momento, no qual o artista, ao afirmar estar se desapegando de bens materiais, reflete até que ponto seu gesto de generosidade não é uma faca de dois gumes, uma vez que ele também se beneficia do projeto. Constrói-se aí uma sinuosa figura de herói.

Enquanto documentário, o filme é tradicional, correto, quase um vídeo institucional. Os bastidores da viagem de Muniz ao Rio e do desenvolvimento do projeto aparecem através de conversas com assessores e a mulher do artista, sempre em inglês, apesar de todos serem brasileiros. A impressão de ensaio e roteiro é patente. Muito mais instigante, por exemplo, é "Estamira" (2005), de Marcos Prado, também filmado em Gramacho. Mesmo assim, "Lixo Extraordinário" tem sua importância como documento dessa etapa da carreira de Muniz e também do aterro, que será fechado em 2012. Sem deslumbramento, pode ser um modo de conhecer melhor essa realidade paralela.

* o repórter viajou a convite do festival

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