"Living in the Material World" tem 4 horas de George Harrison

Documentário dirigido por Martin Scorsese foi um dos destaques do Festival do Rio

AE |

Mike Mitchell / AP
George Harrison
Quando entra em cena pela primeira vez, George Harrison não está em evidência. Encara a câmera protegido por uma parede de tulipas. Uma voz o provoca: "Vá em frente e voe, baby, apenas sinta-se livre."

O tom enigmático prepara o espectador para a limitação da própria natureza da linguagem documental. Mesmo com as quase quatro horas de imagens, o "beatle quieto" poderá até ficar mais próximo, mas não será plenamente compreendido. 

Veja letras de George Harrison no Vagalume

"Living in the Material World", exibido nesta semana no Festival do Rio e lançado em DVD na Europa e nos EUA (ainda sem previsão de ser lançado aqui em DVD, embora já esteja na internet), traz o rigor jornalístico de Martin Scorsese para desvendar o personagem, guitarrista, membro da maior banda de rock.  Harrison, assim como Ringo, nunca desfrutou da idolatria gerada por Paul McCartney e John Lennon. Ao reconstituir seus passos, o cineasta renova o fascínio por alguém que ignorou a posteridade.

"Não me importo se eu não for lembrado", disse certa vez, conforme relatou Olivia Harrison ao New York Times. Ela foi casada com o britânico entre 1978 e 2001, ano da morte dele. Olivia, também produtora do filme, foi quem procurou Scorsese para assumir a empreitada.

O principal argumento para sensibilizá-lo foi uma afetuosa carta escrita por George para a mãe dele quando tinha um pouco mais de 20 anos. "Ele expressava a ideia de que sabia que a vida não se limitava à riqueza e à fama", afirmou o diretor também ao NYT. O foco aqui está nos depoimentos de quem conviveu com o músico como Paul, Yoko Ono, Terry Gilliam, Ringo, Jackie Stewart, Eric Idle e George Martin.

O produtor Phil Spector, por exemplo, descreve o ‘tormento’ de gravar algumas faixas de "All Things Must Pass", primeiro álbum solo de Harrison pós-Beatles, por conta da obsessão harmônica do guitarrista em suas composições.

Eric Clapton fala abertamente do caso em que ele roubou a primeira esposa do amigo, Patti Boyd - a famosa história por trás do hit "Layla". Paul McCartney admite em um dos trechos de sua entrevista que a relação de trabalho com o companheiro nem sempre foi das mais equilibradas. O filme, aliás, mostra uma destas discussões no estúdio. 

Há um vasto material audiovisual, que inclui vídeos caseiros, fotografias, gravações de áudio e cartas. Num dos arquivos exibidos, há um pitoresco prenúncio do fim. "Acordei, fui para Twickenham, pratiquei até a hora do almoço - deixei os Beatles - fui para a casa, e à tarde fiz King of Fuh no estúdio Trident, depois comi umas batatinhas", escreveu em seu diário em 1969. No ano seguinte, após as conturbadas gravações de Let it Be, a banda encerrou as atividades.

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