Liquidificador é a estrela de novo filme

Inusitada comédia de André Klotzel combina humor negro e pé no trash

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Ana Lúcia Torre e seu fiel escudeiro em Reflexões de um Liquidificador
Se o cinema brasileiro é eventualmente acusado de se repetir, agora não é o caso. Reflexões de um Liquidificador traz o eletrodoméstico como protagonista, em uma história de humor negro e cenas regadas a sangue, com um pé no trash. Originalidade, portanto, não falta. O lançamento também é pouco usual: com estreia marcada para a próxima segunda-feira (09), o filme poderá ser visto em apenas uma sala de São Paulo, com ingressos a preços reduzidos e sessões acompanhadas de curtas, debates e espetáculos de stand-up comedy. Tudo para chamar a atenção.

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O narrador da história, com voz de Selton Mello
Era esse o objetivo do diretor André Klotzel. Preocupado com o destino de seu filme, fez questão de guardá-lo a sete chaves, sem participar de festivais, e transformar a estreia em um acontecimento, um "roadshow". "Repetidamente os filmes brasileiros que não estão na mídia têm uma carreira péssima, saem de cartaz sem que se tenha tempo de assisti-los", afirma o cineasta. "Filmes como o meu precisam dar uma chance ao boca a boca. Dar um espaço nobre, lançar numa sala bacana, deixar ele um tempo em cartaz, fazer da ida ao cinema um evento."

Conhecido pelo premiado Marvada Carne (1990) e por Memórias Póstumas (2001), adaptação de Machado de Assis com Reginaldo Faria no papel de Brás Cubas, Klotzel sabe que dessa vez seguiu por um caminho diferente, tanto que está com receio das reações que o filme possa causar. A trama segue Elvira (Ana Lúcia Torre), uma dona de casa aposentada depois do fechamento da casa de sucos e vitaminas que mantinha com o marido, Onofre (Germano Haiut). Dessa época, só sobrou o liquificador que moía as frutas. Por algum motivo obscuro, depois de muitos anos o aparelho adquire consciência e passa, como ele diz, a moer também pensamentos e, eventualmente, conversar com sua dona.

A voz do liquidificador coube a Selton Mello, que não estava presente nas gravações, no segundo semestre de 2008. A solução para não deixar Ana Lúcia conversando sozinha foi bastante debatida. A equipe cogitou escalar um outro ator que não fosse Selton, mas o diretor achou que não ia dar muito certo. "Cada ator tem uma dinâmica, e se apóia naquele com quem se está contracenando", explica ele. Também se pensou em usar um ponto eletrônico, só que possíveis mudanças nas falas podiam dificultar tudo. O jeito foi gravar as cenas "em branco", ou seja, Ana Lúcia reagia de acordo com uma ideia do diálogo, o tema principal, sem saber exatamente o que o aparelho estava dizendo. Deu certo.

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Comédia também tem seu lado "trash"
O lado sombrio que permeia toda a história está relacionado ao sumiço de Onofre, que Elvira registra na delegacia, e a uma dose considerável de sangue, quando o espectador é presenteado com cenas dignas de um filme "gore", terror que não economiza nos litros de líquido vermelho. "É o tipo de coisa que tem legiões de fãs, mas não é meu caso, não sou um cultuador", diz Klotzel. Talvez por isso o diretor tenha zelado por não pesar a mão nessa parte, fazendo dela apenas um capítulo de uma comédia. "Tomei cuidado para o filme manter o senso de humor, a leveza. Poderia ser uma história mais pesada, mas me sentia com vontade de fazer uma abordagem mais cômica, um humor negro leve."

Outro ingrediente é a tensão criada pelo investigador Fuinha (Aramis Trindade), desconfiado de que Elvira esteja por trás do desaparecimento do marido. A soma de todas essas facetas já estava originalmente no roteiro de José Antônio de Souza, que, após longa carreira no teatro e televisão, estreia no cinema. "A maior parte já estava lá", lembra Klotzel. "Recebo roteiros frequentemente, mas nunca aconteceu de ter recebido um, ler e dizer 'quero filmar'. Foi um roteiro com o qual me senti me senti próximo, uma empatia grande."

Reflexões de um Liquidificador estreia no Espaço Unibanco Augusta com sessões das 14h às 22h e a meia-entrada tem o valor do horário de início (das 14h custa R$ 2, das 16h, R$ 4, e assim por diante). A cada semana haverá a apresentação de um curta-metragem, com debate com o diretor às segundas-feiras. Nas quartas, é a vez de Klotzel ou algum membro do elenco ou da equipe conversar com o público, sempre depois da última sessão. Os shows de stand-up, às 20h e 22h, serão revezados por Marcelo Mansfield, Carol Zoccoli, Murilo Gun e Criss Paiva. O assunto das apresentações, convenientemente, será em geral cinema.

Assista ao trailer de Reflexões de um Liquidificador :

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