Leite e Ferro flagra mães e crianças atrás das grades

Documentário registra com delicadeza unidade de amamentamento que já não existe mais

Marco Tomazzoni |

Documentários sobre o sistema prisional não são novidade no cinema brasileiro, mas a diretora Cláudia Priscilla encontrou um enfoque pouco ou nada conhecido do grande público, da mesma forma que o argentino Pablo Trapero fez recentemente em Leonera . Exibido na noite de ontem no Festival de Paulínia, Leite e Ferro mostra a vida em uma unidade especial de São Paulo, na qual as detentas podem amamentar seus filhos nos quatro primeiros meses após darem a luz. Mães e crianças juntas atrás das grades, mesmo que por pouco tempo.

Divulgação
Leite e Ferro: bebês no sistema carcerário
Cláudia, que estreia em longa-metragem, se deparou com o Centro de Atendimento Hospitalar à Mulher Presa (CAHMP) ao fazer uma pesquisa na área de direitos humanos para o marido, o também cineasta e produtor Kiko Goifmann ( Filmefobia , 33 ). A princípio impressionada com a estrutura no papel – com nutricionista, pediatra e ginecologista à disposição –, percebeu em seguida que a realidade era muito mais precária e dolorida. “O governo cria um benefício para estabelecer um vínculo materno e depois acaba com esse vínculo”, lamenta.

Após os quatro meses, a criança vai para outra pessoa da família, a uma instituição ou é adotada, às vezes até de maneira ilegal. A diretora acompanhou a separação uma vez, mas com a câmera desligada. “É de uma brutalidade que eu não teria estofo emocional para lidar”, conta. Segundo ela, a ideia do projeto era mostrar apenas o período da amamentação, sem o antes ou depois, e nem criticar a vida no cárcere. “O filme não é sobre cadeia, e sim sobre a maternidade naquele lugar trágico.”

O CAHMP, no entanto, foi fechado há um ano e as presas, realocadas em centros hospitalares. “Com certeza elas foram para um lugar pior”, afirma a documentarista. Goifmann ainda lembra que, apesar de terem conseguido, em 2007, autorização para registrar o dia-a-dia no centro com liberdade, provavelmente isso não aconteceria novamente. “Está cada vez mais difícil filmar na prisão. E pouco tempo depois chegaram umas mulheres do PCC, o que tornaria isso quase impossível.”

Rodas de comadre

A presa Luana é o fio condutor da história. Falastrona, afetuosa, primeira namorada do Pixote retratado por Hector Babenco, cresceu na rua e diz ter conhecido grandes nomes do submundo do crime. Traficante desde os 10 anos, aos 14 teve sua primeira filha. Ao levar a criança ao hospital para tratar uma desidratação, conseguiu encontrar uma veia naquele corpo pequenino antes que todos os médicos. Como, perguntaram? “É que era viciada no pico”, responde ela, na chocante sequência inicial.

Chocante, mas, ao mesmo tempo, engraçada, e o humor, por incrível que pareça, é um ingrediente essencial para o filme. Daquelas histórias sofridas de drogas – a maior parte da população carcerária feminina é relacionada ao tráfico –, surgem casos que, de tão incríveis, inspiram o riso, como a mãe que escondeu pedras de crack na boca e teve uma overdose, ou a outra que testemunhou um amigo morrer ao imitar o Super Homem e pular de cima de um prédio, depois de cheirar cola.

Tudo é registrado com uma intimidade de roda de comadre, como de fato as detentas se colocavam nas entrevistas, e o espectador sente que está dentro da conversa. O grupo, aliás, parece estimular uma espécie de competição para ver quem conta a história melhor, despertando a atriz que há dentro de cada uma – e elas sabem se portar diante de uma câmera. Dali saem discussões sobre o prazer de amamentar, sexo, fidelidade, violência policial, amor e religião, muita religião (todas agora são evangélicas fervorosas).

Cláudia traz um olhar feminino delicado para o assunto e enquadra com carinho tanto as personagens, muito fortes, quanto os bebês, que enchem a tela com sorrisos e bolhas de saliva. Há crianças por todos os lados, muitas delas brincando penduradas nas barras presas nas janelas. “Será que elas sabem que estão olhando pra uma grade?”, pergunta uma mãe. Leite e Ferro emociona, diverte, instiga e documenta. Uma boa forma de inaugurar a competição em Paulínia.

* o repórter viajou a convite do festival

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