Lars Von Trier busca redenção em "Melancolia"

Diretor dinamarquês pausa cinema de extremos e oferece respiro em filme-catástrofe

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Ofuscado pelos comentários atrapalhados sobre o nazismo que o diretor Lars Von Trier fez em Cannes , não se falou tanto de "Melancolia" quanto de outros filmes do cineasta dinamarquês exibidos no festival – a repercussão de "Anticristo" (2009) e "Os Idiotas" (1998), para citar dois dos mais polêmicos, foi massiva. A paranoia foi tão grande que o longa-metragem até foi banido de alguns mercados , como na Argentina. Injustiça. Contemplado com o prêmio de melhor atriz para Kirsten Dunst, é o trabalho mais maduro de Von Trier, que doma seu gosto pela perdição e caminha rumo à luz, à redenção, embora mantenha sua visão de mundo intocada.

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Alexander Skarsgård, Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg em "Melancolia": casamento fracassado
Dividido em capítulos, da mesma forma que seus filmes recentes, "Melancolia" começa com um prólogo belíssimo. Ao som do prelúdio da ópera "Tristão e Isolda", de Wagner, música-tema da trilha sonora, os personagens passeiam por um universo fantasioso que resume a trama inteira. Enquanto Kirsten Dunst lança um olhar triste, pombas mortas caem do céu. Charlotte Gainsbourg corre desesperada por um campo de golfe com uma criança no colo. Um cavalo morre. Um planeta explode ao se chocar com a Terra. Tudo em câmera lenta, lapidado por efeitos especiais para lembrar pintores pré-rafaelitas e alemães. Há referências explícitas, por exemplo, a "Caçadores na Neve", de Pieter Bruegel, e "Ophelia", do inglês John Everett Millais, que inspirou a imagem da noiva deitada no riacho.

Assista a uma entrevista em vídeo com Lars Von Trier

A primeira parte, ou ária, acompanha Justine (Dunst) num melodrama similar a "Festa de Família" (98), que inaugurou o movimento Dogma 95. Atrasados para seu casamento, ela e Michael (Alexander Skarsgård, da série "True Blood") dirigem uma limusine longa por estradas estreitas até chegar à mansão onde a cerimônia vai ser feita, organizada com perfeição pela irmã da noiva, Claire (Gainsbourg), e bancada por seu marido milionário (Kiefer Sutherland). Tudo é maravilhoso, mas Justine não consegue se entusiasmar. A ilusão esmaece e o desastre se complementa com personagens problemáticos, típicos do universo de Von Trier – mãe niilista (Charlotte Rampling, espetacular), pai ausente (John Hurt) e o chefe inescrupuloso da noiva (Stellan Skarsgård, pai de Alexander).

O segundo capítulo é dedicado a Claire, que conduz a história, embora o protagonismo continue nas mãos de Justine e de Melancolia, o planeta que no início era apenas uma estrela de brilho avermelhado e agora segue trajetória de colisão com a Terra. Enquanto a primeira metade do filme é colorida e plural, a outra é concisa e tensa, num estilo que lembra Ingmar Bergman. Claire teme, por ela e pela filho, que as profecias pessimistas se concretizem e o fim do mundo esteja próximo. Seu marido, um astrônomo amador, tenta dissuadi-la ao colocar panos quentes na realidade – mais um dos tipos hipócritas e covardes da obra de Trier.

nullEnquanto isso, Justine serve como alterego do cineasta. Vítima de uma depressão patológica, que o diretor já experimentou mais de uma vez, não tem energia para caminhar, comer ou tomar banho – Dunst tem aí a chance de brilhar como atriz. Aos poucos, enquanto Melancolia se aproxima perigosamente e o desespero cresce, ela desabrocha, única a perceber o inevitável: um dia todo mundo morre, para que, então, o circo? Os ponteiros, não importa o que aconteça, sempre vão continuar se movendo.

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Inspirada em quadro de John Everett Millais, imagem deu origem ao cartaz de "Melancolia"
"Melancolia" tem ingredientes de filme-catástrofe de uma forma sutil e sensível – afinal de contas, "Armageddon" (98) está longe de servir de parâmetro. O ponto de contato principal é saber de antemão o desfecho e, mesmo assim, seguir ansioso para saber como se vai chegar até lá. Funciona, na verdade, quase como uma carta de princípios de Von Trier, que não deixa de abordar a dor, culpa e sofrimento que norteiam seus trabalhos, mas abre uma janela para que os personagens vejam mais do que escuridão. Pausa o fatalismo e dá certo crédito à humanidade, talvez justamente por abraçar o fatalismo de forma serena.

Um dos diretores mais inquietantes e talentosos em atividade no mundo, Von Trier preferiu dessa vez sublimar a beleza do que seguir investindo no cinema de extremos que promete continuar fazendo – seu próximo filme é sobre a vida sexual explícita de uma mulher, da adolescência aos 50 anos.

O tato, porém, provou ser mais bem sucedido. Mas ele tinha de pôr os pés pelas mãos diante da imprensa mundial e acabar persona non grata em Cannes . Seu filme mais acessível, por causa disso, acabou o menos falado. "Melancolia" está aí para provar que o bicho papão não é tão feio quanto parece.

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