Jorge Mautner: “O processo de ‘brasilificação’ está em avanço absoluto”

Artista é inspiração do filme de Pedro Bial e Heitor D´Alincourt exibido no “É Tudo Verdade”

Anderson Dezan, iG Rio de Janeiro |

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Jorge Mautner com Gilberto Gil, Heitor D´Alincourt e Amir Labak: "O Brasil é a esperança do século 21"
Um diálogo entre Jorge Mautner e sua filha, a diretora de TV Amora Mautner, no documentário “ Jorge Mautner – O Filho do Holocausto ”, sintetiza a personalidade inusitada do artista que dá nome ao filme. “A psicanálise te ajuda a encontrar soluções para seus problemas”, diz ela. “Não preciso disso. Encontro sozinho a solução para meus problemas”, responde ele. “Não encontra”, rebate Amora. “Encontro sim”, diz Jorge. “Então por que o senhor faz psicanálise?”, questiona ela, intrigada. “Por pressão pública”, finaliza ele, levando a plateia ao riso.

Costurado por diálogos e histórias como essas, o documentário de Pedro Bial e Heitor D´Alincourt que abriu a edição carioca da 17ª edição do festival “É Tudo Verdade” - retrata a trajetória do compositor, violinista, poeta, escritor e cantor carioca, filho de pai judeu e mãe católica austríacos, que chegaram ao Brasil fugindo do regime nazista de Adolf Hitler. Nas telas, o público vê como Mautner transformou-se no artista autor da “Mitologia do Kaos” e da teoria da “Amálgama Brasileira” - que mescla diversas influências em sua obra.

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Jorge Mautner, Amora Mautner e Heitor D´Alincourt posam na abertura do "É Tudo Verdade"
No início do filme, Jorge Mautner conta que, após a separação de seus pais, ele foi morar em São Paulo com a mãe e seu segundo marido. Os pais de seu padrasto eram como avós para ele. A avó postiça, uma francesa católica, não o tratava muito bem porque ela não gostava do fato de seu filho ter se casado com uma mulher divorciada, com filho. Já o avô postiço o tratava com carinho. “Ele era um alemão e falava para eu não ligar para a esposa chata dele. Ele me tratava como um verdadeiro neto, mas no seu quarto tinha uma suástica! Veja a contradição”, conta Mautner no filme, rindo.

Em outra parte, Amora Mautner conta que estudava na infância em um colégio tradicional da zona sul do Rio e seu pai ia buscá-la de sunga. “Ele achava que esse era um traje que não ficava restrito à praia”, relembra. Seu nome também causava problemas. “Ficavam implicando com ele, diziam que eu tinha nome de fruta”, conta ela, explicando em seguida a origem de seu nome. “Meu pai o escolheu porque Amora é o feminino de Amor”.

Com direção de arte caprichada e uma luz e fotografia de encher os olhos, o filme conta também com sucessos de Mautner, como “ Maracatu Atômico ”, “ Lágrimas Negras ” e “ Vampiro ”, interpretados por ele, Caetano Veloso ou Gilberto Gil . As 36 canções que compõem a trilha sonora do filme vão estar em um futuro CD.

Produzido pelo Canal Brasil, o documentário “Jorge Mautner – O Filho do Holocausto” será exibido na versão paulistana do festival “É Tudo Verdade” nesta sexta-feira (30), às 19h, no Cine Sesc, e no domingo (1), às 20h, na Cinemateca do BNDES. Antes da exibição na sessão de estreia do evento no Rio, Mautner teve uma conversa exclusiva com a reportagem do iG . O bate-papo você confere a seguir:

iG: Qual é a sua avaliação do documentário? O que achou da homenagem?
Jorge Mautner: Toda vez que assisto ao filme é uma emoção muito grande. Ele mostra fatos dolorosos, mas que, ao mesmo tempo, foram superados pelo humor. O filme tem uma qualidade incrível: ele é artístico e possibilita uma comunicação total com o público. Foi um trabalho muito bem estudado pelo Bial e o Heitor. Saiu primoroso.

iG: Qual é a mensagem que o senhor acha que o público vai captar ao assistir ao filme?
Jorge Mautner: A mensagem é a do Brasil universal, da amálgama de José Bonifácio. E que o nazismo não se repita. O filme veio muito a propósito porque o rapaz que matou as crianças na Noruega tem o Brasil como aquilo que deve ser destruído. Ele tem horror ao nosso país, que chama de multiculturalismo. Na verdade, o Brasil é a amálgama que é a esperança da sobrevivência da humanidade.

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Mautner com Pedro Bial e Heitor D´Alincourt: "O 'Kaos' sempre é difícil de ser retratado"
iG: O Brasil é a bola da vez?
Jorge Mautner: Mais do que isso. O Brasil é o continente indicado há muito tempo. Todas as profecias falam isso. Rabindranath Tagore (filósofo indiano) dizia que “a civilização superior do amor nascerá no Brasil”. Jacques Maritain (filósofo francês) dizia que “o único lugar onde a justiça e a liberdade poderão aflorar juntas é o Brasil”. Stefan Zweig escreveu no século 19 o livro “Brasil, o País do Futuro”. Já é isso agora.

iG: As outras culturas têm olhado mais para o Brasil para incorporar a nossa amálgama?
Jorge Mautner: Totalmente. O processo de “brasilificação” está em avanço absoluto. Não há dúvida. É por isso que a Copa do Mundo vai ser aqui, as Olimpíadas também e o Papa virá novamente. O Brasil é a esperança concreta do século 21. Temos as florestas, o petróleo e outras riquezas, mas a maior de todas é o povo brasileiro, com essa amálgama.

iG: Quando o Brasil passou a chamar a atenção do restante do mundo?
Jorge Mautner: Essa virada se deu a partir da democratização. Primeiro teve o episódio do impeachment do Collor, mas acentuou-se no governo do maior estadista do século 21, Lula da Silva , e com seu ministro Gilberto Gil.

iG: Com o aumento da classe C, a mistura da amálgama brasileira ficou ainda mais visível?
Jorge Mautner: Não temos mais superioridade e inferioridade. Isso agora é pra valer. É crucial.

iG: O filme mostra a grande amizade que o senhor tem com o Caetano e o Gil. Como o senhor descreve essa relação?
Jorge Mautner: Eles são meus irmãos nessa luta. A nossa união é pra sempre, você pode ver isso no filme. Quando os conheci em 1969, em Londres, estabeleceu-se um pacto que vai durar para toda eternidade.

iG: Qual é cena do documentário que mais te emociona?
Jorge Mautner: O começo é impressionante com a música “Lágrimas Negras”. Quando o Gil canta “Rouxinol” ou eu canto “Vampiro” com o Caetano. Mas a cena mais emocionante é quando converso com minha filha [Amora Mautner].

iG: Sua obra já foi gravada por diversos cantores. O senhor destacaria alguma em especial?
Jorge Mautner: Tem uma garotada nova muito boa, como a Márcia Castro e a Ana Cañas . As gravações do Caetano, Gil, Wanderléa , Chico Science e Fagner são especiais. Cada pessoa tem uma interpretação diferente, que mexe. Não consigo escolher uma. O “Kaos” é quântico, cada coisa é uma coisa em si e estão interligadas. É a amálgama.

iG: Os diretores conseguiram retratar o “Kaos com K” nas telas?
Jorge Mautner: Conseguiram com muita sabedoria. Mas o “Kaos” sempre é difícil de ser retratado [risos].

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