"John Carter" usa visual deslumbrante para adaptar obra clássica

Diretor de "Wall-E" filma série pioneira de fantasia e ficção científica com mesma pirotecnia de James Cameron em "Avatar"

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Taylor Kitsch, o herói de "John Carter"
Pouca gente pode saber do que se trata, mas "John Carter: Entre Dois Mundos", é um dos maiores lançamentos de 2012. Com orçamento de US$ 250 milhões, o que lhe garantiu um lugar entre as dez produções mais caras da história do cinema, o filme estreia nesta sexta-feira (09) em todo o mundo brigando com o desconhecimento geral. A seu favor, um grande aliado: outros US$ 100 milhões investidos em marketing para fazer o público notar esse mastodonte da Disney.

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Tanto dinheiro é proporcional ao tempo que o projeto levou para sair do papel: passaram-se quase 100 anos desde que o fantasioso romance "Uma Princesa de Marte", de Edgar Rice Burroughs (autor de "Tarzan"), foi publicado em 1917. Era o primeiro de uma série de 11 livros com o personagem John Carter, soldado veterano da Guerra Civil norte-americana, transportado sabe-se lá como de uma caverna no século 19 para o meio de uma briga de tribos em Marte, ou Barsoon, como os marcianos a chamam.

Assista a uma cena exclusiva de "John Carter"

Famosa nos países de língua inglesa, a obra continuava apenas uma curiosidade no resto do planeta, embora sua influência na ficção científica seja fundamental – "Avatar", "Duna", "Star Wars", "Matrix", "Flash Gordon"... Praticamente tudo que se seguiu no gênero deve alguma coisa ou as calças aos livros de Burroughs. Enquanto isso, o original, digamos assim, permanecia longe das telas.

nullTentativas não faltaram, desde a década de 1930, mas a adaptação sempre esbarrava nas limitações tecnológicas e diferenças criativas entre os realizadores. Quando a Disney finalmente comprou os direitos da série, entrou em cena Andrew Stanton , fã ardoroso dos livros. Até então lotado na Pixar, onde dirigiu as animações "Procurando Nemo" e "Wall-E" (ambas premiadas com o Oscar), ele mudou de departamento para comandar seu primeiro longa-metragem com atores reais.

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Lynn Collins, a princesa de Marte
A proposta de Stanton desde o início era materializar a experiência da leitura, tornar as criaturas e o universo marciano críveis para o público. Por isso, terminou as filmagens com o elenco na metade de 2010 e investiu até há pouco na pós-produção, misturando atores com cenários e alienígenas digitais, mais ou menos como "Avatar". Ao contrário do épico de James Cameron, porém, a ênfase não foi no 3D – o próprio Stanton disse não se preocupar com a versão em três dimensões, que, realmente, não acrescenta nada.

Leia também: Andrew Stanton faz estreia arriscada fora da animação com "John Carter"

Fora isso, o deslumbramento visual de "John Carter" é genuíno. Em termos técnicos, não se via nada igual justamente desde "Avatar". Stanton conseguiu criar uma realidade alternativa com toneladas de efeitos por computador, ETs convincentes, raças distintas, engenhocas curiosas, uma língua própria (feita, de novo, pelo mesmo linguista de James Cameron) e, claro, seu grande herói, John Carter.

O papel principal coube ao descamisado Taylor Kitsch, conhecido apenas pela série "Friday Night Lights". Aliás, boa parte do elenco "humano" não é o do primeiro time, concentrado, curiosamente, em pontas (Bryan Cranston) ou nos alienígenas – caso de Willem Dafoe, Thomas Haden Church e Samantha Morton, por exemplo, responsáveis pelas vozes e captura de movimentos de seus personagens.

De uma mina de ouro no Arizona em 1868, Carter é transportado para a árida Marte (parecedíssima com a Tatooine de "Guerra nas Estrelas") e cai nas mãos dos primitivos tharks, seres verdes, com quatro braços e quase três metros de altura. O terráqueo, não se sabe por que, é capturado como se fosse um animal exótico, quando na verdade Marte tem duas cidades humanas, Helium e Zodanga. Rivais, as duas se diferenciam na índole e nas cores (Helium é azul e a maléfica Zodanga, vermelha), mas os integrantes de ambas têm o corpo coberto por tatuagens vermelhas tribais e não usam lá muita roupa.

nullCarter se vê no meio da guerra das duas cidades e logo se revela um trunfo para qualquer dos lados: graças à baixa gravidade de Marte, ele ganha força fora do comum e é capaz de dar saltos fenomenais, como o "Hulk" de Ang Lee. Mas o herói, por enquanto, está interessado em dar o fora do planeta e voltar para sua mina de ouro. Isso até aparecer Dejah Thoris (Lynn Collins), a princesa guerreira, cientista e sexy disposta a tudo para converter Carter para sua causa, obviamente a mais nobre.

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Tars Tarkas, o personagem de Daniel Dafoe
Stanton paga o preço de ter que introduzir um universo novo: um amontoado de raças e personagens com nomes bizarros (Tars Tarkas, Tardos Mors, Matai Shang, Sab Than), que se sucedem na tela sem dar muito tempo para entender quem é quem. Isso que o roteiro, além do próprio cineasta, tem as mãos de Mark Andrews (diretor de "Valente" ) e do escritor Michael Chabon ("Garotos Incríveis"), ganhador do Pulitzer.

Leia também: Um guia para as criaturas de "John Carter"

Esse nem é o maior problema de "John Carter". Com mais de duas horas de projeção, depois de certo tempo a confusão começa a fazer algum sentido e os protagonistas mostram a que vieram. Falta para o épico funcionar para valer boas cenas de ação – sem maior impacto e com um certo clichê – e as sequências, criadas como se fossem independentes, acabam sem fluência. Mas o que destoa mesmo são o prólogo e o epílogo, dispensáveis, em que o sobrinho de Carter, Edgar Rice Burroughs (!), narra toda a ação através dos diários do tio sobre Marte.

Fica claro que "John Carter" é uma aposta milionária da Disney para fundar uma nova franquia – livros como base não faltam. E é provável que ela dure, ao menos para um segundo filme. Mesmo longe de ser perfeito, o filme tem munição suficiente para deslumbrar espectadores mundo afora e deixá-los curiosos pela resolução da isca, que, claro, está no final. Além disso, a Disney provou conseguir ser dar bem nas bilheterias promovendo filmes medíocres como "Alice no País das Maravilhas" e "Tron - Legado" . Como "John Carter" é melhor do que os dois, pode dar certo. Se o sucesso vai ser proporcional ao investimento, aí já é outra história.

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