João Jardim enquadra violência na vida conjugal

Diretor fala de ¿Amor?¿, em competição no Festival de Brasília, e das chances do documentário ¿Lixo Extraordinário¿ no Oscar 2011

Marco Tomazzoni, enviado a Brasília |

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Lilia Cabral interpreta um dos depoimentos de "Amor?", do diretor João Jardim
Diretor de documentários bem-sucedidos – “Janela da Alma”, “Pro Dia Nascer Feliz” e o inédito “Lixo Extraordinário” –, João Jardim queria falar do amor. Mais do que isso: do amor que começa, termina ou vive com algum tipo de violência. Mas até que ponto esse sentimento que alimenta um convívio marcado pela dor e brutalidade pode ser considerado amor? Daí surgiu “Amor?”, com interrogação mesmo, filme que será exibido neste domingo (28) na competição do 43º Festival de Brasília.

Depois de um ano pesquisando em delegacias e entidades assistenciais, a equipe do filme havia colhido 50 depoimentos em áudio. Os mais interessantes, no entanto, eram tão impactantes que dificilmente poderiam ser contados pelos próprios entrevistados. “Era a intimidade deles, então necessariamente precisaríamos da concordância do parceiro ou da parceira. Percebi que precisava fazer com atores”, explicou Jardim em entrevista ao iG . O que, a princípio, era um documentário se tornou, assim, o primeiro projeto do cineasta em ficção, amparado por um elenco estrelado – Lilia Cabral, Julia Lemmertz, Letícia Colin, Mariana Lima, Ângelo Antônio e Eduardo Moscovis, entre outros.

Através de muitos ensaios, Jardim procurou que os atores incorporassem as histórias, assumissem o relato como se fosse seu, e transmitissem isso para a câmera em forma de depoimento. Mais ou menos como Eduardo Coutinho fez recentemente em “Jogo de Cena”, embora o diretor afirme não se preocupar com a comparação. “A partir da pesquisa, vou descobrindo o filme que a gente vai fazer. Não tenho uma ideia pré-determinada, deixo o assunto ir se impondo naquilo que tem de mais interessante. E a forma vai se adequando a isso, nunca é uma camisa de força. O filme é diferente, original, porque ele foi para esse caminho. Para mim, não interessa provocar, o conteúdo se encarrega disso.”

Uma mulher se reconcilia com o marido depois de ser agredida, outra é quase afogada pelo namorado, um casal de lésbicas sofre de ciúme doentio, um homem esfaqueia a amante. As histórias se sucedem, oito no total, intercaladas, conta Jardim, por imagens poéticas. “São respiros que tentam fazer a gente associar nossas próprias vivências amorosas, para que fique mais fácil mergulhar naquilo ali, entendendo que pode acontecer com qualquer um. Costumo dizer que esse filme é sobre eu, você e todos nós. A violência está em qualquer um e o filme provoca a reflexão de como lidar com ela, ou expressá-la de uma forma que não seja aniquiladora para o outro.”

O apelo universal do tema está nas páginas dos jornais, gente que às vezes não sabe como sair da relação e sofre, diz o diretor, por anos e anos, até décadas. Em outras, o desfecho tem final trágico, como no caso Eloá, a adolescente morta a tiros pelo ex-namorado após ficar dias em cativeiro. Depois de ser preso, a primeira coisa que o rapaz fez ao chegar na delegacia foi perguntar se Eloá estava bem. “Mas é amor isso? Não sei se é amor. Para a pessoa que viveu e sofreu as consequências disso, é”, questiona.

Os casos de violência são, na maioria, masculinos. Parte deles, inclusive, nem é necessariamente física, que é, em geral, o ápice do processo. A situação vai sendo construída aos poucos, em forma de assédio moral, por exemplo. “O homem faz isso de um jeito muito esperto, essa é a questão”, afirma o cineasta. “A gente tem a expectativa de que o homem violento faça isso de maneira clara. Não faz, nenhum deles. Quando acontece, é porque fez muitas outras coisas antes – ataques, ameaças, gritos. Esse processo é muito sutil.”

Com estreia prevista para o primeiro semestre de 2011, “Amor?” teve orçamento de R$ 900 mil e, além de patrocinadores, contou com apoio do canal a cabo GNT, em seu primeiro projeto no cinema. Jardim imaginava que, mesmo usando atores, o filme ia continuar sendo um documentário. Hoje, porém, ele admite que se tornou outra coisa, um híbrido. “É uma ficção. Tudo nele é encenado, menos o texto. Tem o formato de um documentário, mas ficou muito distante de um, que precisa descrever uma realidade.”

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Um dos trabalhos orientados por Vik Muniz
Não é o caso de “ Lixo Extraordinário ”, documentário que Jardim codirigiu com Lucy Walker e Karen Harley. Coprodução entre Brasil e Inglaterra, o filme registra o trabalho do artista plástico brasileiro Vik Muniz no Jardim Gramacho, maior aterro sanitário do mundo, na região metropolitana do Rio, e como a vida dos catadores foi afetada. “Lixo” está entre os 15 semifinalistas da categoria de melhor documentário no Oscar 2011 .

Apesar do sucesso do filme no circuito internacional – já ganhou prêmios de público em Sundance e Berlim –, Jardim permanece cético quando à indicação na Academia de Hollywood. “Os produtores estrangeiros estão fazendo uma campanha forte. Acho muito difícil, mas tem uma chance pelo tema, que envolve meio ambiente e arte. Além disso, é muito emocionante para o público internacional. A gente está acostumado a ver aquelas pessoas morando no lixo, ao contrário do estrangeiro.”

O diretor, que acabou se afastando do projeto por compromissos profissionais, concorda que a montagem de “Lixo Extraordinário” enaltece a figura de Vik Muniz, rapaz humilde da periferia paulistana que, ao se mudar para Nova York, torna-se um artista de sucesso e volta para ajudar os necessitados. “Isso é uma coisa do produtor”, explica Jardim. “O projeto era fazer o filme ter sucesso, se comunicar, e aí precisava de um protagonista forte, de um herói. 'Lixo' tem a curva dramática de um filme de ficção e essa construção é muito eficaz. Do ponto de vista autoral, de uma obra de arte, pode ser questionável, mas acho o filme bom, tem muito valor.”

* O repórter viajou a convite do festival

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