Jean-Luc Godard para iniciantes

No aniversário de 80 anos do cineasta, um passo a passo para mergulhar em sua farta obra

Ricardo Calil, colunista do iG |

AFP
O diretor Jean-Luc Godard na França: da Nouvelle Vague à negação do cinema, sempre assistido
“Chato” é o adjetivo mais usado para se descrever a obra de Jean-Luc Godard. “Difícil” vem logo ali em segundo lugar. E, então, aparece “genial”.

O resultado não é fruto de pesquisa Datafolha ou de busca no Google. Ou ainda de um daqueles levantamentos que o jornalista Ali Kamel tanto gosta de fazer. É um chute científico mesmo, baseado em um par de décadas acompanhando a cobertura sobre a obra do cineasta franco-suíço – que completa 80 anos nesta sexta-feira, 3 de dezembro, mesma data do lançamento de seu novo trabalho, “Filme Socialismo”, no Brasil.

Para os não-iniciados, existe uma maneira de entrar no universo de Godard de forma a dissociar seu nome das palavras “chato” e “difícil” – e a entender melhor o “genial”, o “revolucionário”? Talvez exista um percurso. Um passo a passo que facilite a descoberta de sua obra. Um “Godard para iniciados”. Ou, se alguém aí encarar a tarefa de maneira irônica, um “Godard for dummies”. E a melhor maneira de começar não é correr ao cinema ver “Filme Socialismo” – o que talvez assuste os desavisados. O melhor é começar pelo começo.

Primeiro passo

Ver os filmes de Godard na fase da Nouvelle Vague, do seminal “Acossado” (1959) até “Week-end à Francesa” (1968) – boa parte deles disponíveis em locadoras. Ainda que repletos de referências a outras obras de arte e de desconstruções de linguagem, são trabalhos essencialmente narrativos, mais fáceis de assimilar – até porque foram copiados à exaustão por outros cineastas depois, como o americano Hal Hartley. São também conhecidos como os “anos Karina”, pela parceria com sua então mulher e musa Anna Karina, que estrelou sete de seus filmes – incluindo os brilhantes “Uma Mulher é uma Mulher” (1962) e “Pierrot Le Fou” (1964). A presença luminosa da atriz dinamarquesa torna essa fase a mais solar de toda a obra de Godard, como pode ser visto na cena abaixo de “Band à part” (1964):

Segundo passo

Ver as incursões de Godard pelo universo pop. O cineasta nem sempre se dedicou à arte nobre, elevada, erudita. Ele já encarou – claro, de forma idiossincrática, reflexiva – produtos populares, industriais, com sucesso de massa. Como os Rolling Stones gravando uma de suas músicas mais emblemáticas, no auge de sua primeira fama, no documentário “Simpathy for the Devil” (1968). Ou Woody Allen, comediante americano que ele admira (ou admirava) e que entrevistou em 1986.

Terceiro passo

Ler a monumental biografia de Godard escrita por Antoine de Baecque e ver o documentário “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague”. Depois de começar a conhecer a obra, é hora de entender um pouco o homem por trás dela. Godard não começou sua trajetória como um intelectual eremita. Ele teve uma vida bem mais aventurosa do que se imagina (assista a uma entrevista de 1967, com legendas em inglês, aqui ). Para financiar seu começo no cinema, por exemplo, roubou e vendeu livros da coleção de Paul Valèry de seus pais. Depois, assaltou também o caixa da revista “Cahiers du Cinema” – a mítica publicação de crítica que reuniu vários dos futuros cineastas da Nouvelle Vague. Viajou pelas Américas quase sem dinheiro – mais ou menos na mesma época que Che Guevara. Teve brigas homéricas com Karina, que incluíram tentativas de suicídio dos dois lados. E teve um rompimento histórico com seu ex-melhor amigo François Truffaut, bem documentado em “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague”.

Quarto passo

Assistir à série “História(s) do Cinema” ( veja um trecho em francês aqui ), que Godard fez para a TV entre 1980 e 1988 e que traz sua personalíssima visão sobre essa arte no século 20. Talvez esse seja o primeiro passo realmente difícil. Não espere uma narrativa didática, e sim uma reflexão muito particular que vai da mitologia è economia do cinema. Nessa fase, vale ver também seus filmes-ensaio, que são tanto cinema quanto história das idéias, como “JLG por JLG” (1995), “Elogio ao Amor” (2001) e “Nossa Música” (2004). Ah, sim, este é o momento para encarar o recente “Filme Socialismo”.

Quinto passo

Ver os filmes de ficção de Godard a partir de meados dos anos 70, após o fim de sua fase política (que comentarei a seguir). O diretor fez uma longa – e quase sempre frustrada – tentativa de reaproximação com o cinema narrativo, mas sempre em contraponto aos padrões hegemônicos que seriam estabelecidos a partir dali por Hollywood e seguidos em quase todo o mundo. O conjunto é desigual, certamente inferior ao de fase da Nouvelle Vague. Mas em todos os filmes há pelo menos um par de momentos de grande beleza, como no “Carmem de Godard” (1985) ou no polêmico “Je Vous Salue, Marie” (1984), que foi censurado no Brasil pelo indefectível José Sarney por sua livre reinterpretação da vida da Virgem Maria.

Sexto passo

Agora você está pronto para as fases mais difíceis de Godard: o período maoísta. Com o maio de 68, Godard renuncia à autoria de seus trabalhos, se junta a um coletivo batizado de Dziga Vertov e passa a fazer filmes que buscam fazer a revolução através do cinema. È a fase da negação: do cinema como arte, da estrutura narrativa, do roteiro e assim por diante. Ao lado de suas experimentações com vídeo dos anos 1970 e 1980, a fase maoísta foi aquela que marcou a ferro a fama de chato e difícil na obra de Godard, apesar de ter durado só até 1972. Se você conseguir ver até o fim os filmes dessa fase, pode tirar seu diploma de graduação em Godard. Abaixo, um pequeno aperitivo: um falso comercial do Dziga Vertov.

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