"Já me senti um objeto", afirma Catherine Deneuve no Brasil

Em São Paulo para divulgar o filme "Potiche" e um festival de cinema francês, atriz falou da carreira, feminismo e beleza

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Beto Lima
Catherine Deneuve de cigarro na mão em São Paulo: "Muita coisa ainda precisa mudar"
Ícone do cinema francês e mundial, Catherine Deneuve é, mais do que isso, uma lenda. Aos 67 anos, a atriz está no Brasil para divulgar o filme "Potiche - Esposa Troféu", que vai abrir na noite desta quarta-feira (08) o Festival Varilux de Cinema Francês. Ainda belíssima, com um cigarro fumegando na mão, talvez para acentuar o caráter cinematográfico de sua presença, Deneuve conversou no início da tarde com jornalistas em um hotel de São Paulo e tentou afastar a aura que cerca seu nome. "Ícone é uma palavra muito perigosa, uma idealização, algo pesado de se carregar", disse, empurrando fumaça com os lábios. Se a ideia era desmistificar, não adiantou muito.

Deneuve foi descoberta pelo cineasta Jacques Demy no início da década de 1960, com quem filmou o musical "Os Guarda-Chuvas do Amor" (1964), e adquiriu fama a partir do suspense "Repulsa ao Sexo" (65), de Roman Polanski, e "A Bela da Tarde" (67), de Luis Buñuel, dois filmes intensos, em que interpretava personagens com forte sexualidade. Participou de dezenas de produções, entre elas "A Sereia do Mississipi", "Tristana", "O Último Metrô", "Fome de Viver", e conseguiu uma indicação ao Oscar de melhor atriz por "Indochina", de 1992. Na vida pessoal, foi casada três vezes: com o diretor Roger Vadim, o fotógrafo David Bailey e o astro italiano Marcello Mastroianni. Não é pouca coisa.

Beto Lima
Deneuve posa ao lado do cartaz de "Potiche"
Exibido no Festival de Veneza no ano passado e com estreia nacional marcada para 24 de junho, "Potiche", dirigido por François Ozon, começa com Deneuve no papel de uma dona de casa bibelô, um enfeite numa relação submissa. A estrela admitiu já ter passado por uma situação parecida – "sim, claro" – e foi mais além, ao afirmar que isso é mais comum do que parece. "Todos em sua vida tiveram a oportunidade de ser um objeto, estar ao lado de alguém sem poder expressar suas ideias, opiniões. Homens, inclusive – existem muitos homens-objeto por aí, que só servem de decoração para suas mulheres."

A reviravolta em "Potiche" se dá quando o marido de Deneuve (Fabrice Luchini) adoece, é afastado da direção da fábrica da família e a mulher que assume seu lugar. Na trama, o ano é 1977 e o feminismo começa a ganhar manchetes e cozinhas mundo afora. A atriz comemorou o fato do Brasil ter uma presidenta, mas ressaltou que o machismo permanece enraizado na sociedade. "Há mulheres no mundo que trabalham muito mais do que os homens e não ganham salários iguais, uma injustiça. Muita coisa ainda precisa mudar. Felizmente existem muitas feministas por aí lutando por isso."

O reencontro com Gérard Depardieu em "Potiche" – a oitava parceria dos dois nas telas –, segundo Deneuve, foi mais significativo para os espectadores, já que eles voltam a ser alvo de um interesse amoroso. Depardieu interpreta um sindicalista de esquerda que na juventude teve um caso com o personagem da atriz. "Ozon foi muito hábil em aproveitar nosso passado cinematográfico nesse casal", disse, se referindo à empatia que a presença dos dois gera no público.

Beto Lima
Catherine Deneuve ao subir ao palco
Deneuve já havia trabalhado com o diretor em "Oito Mulheres" (2002) que, assim como "Potiche", mostra a estrela cantando e dançando. Mesmo caso de "Les Bien-Aimés" , de Christophe Honoré, seu último filme, exibido há poucas semanas em Cannes, no qual atua ao lado da filha, Chiara Mastroianni. A atriz afastou, no entanto, similaridades com o cinema musical de Jacques Demy, que a dirigiu em produções do gênero no início de sua carreira. "É apenas uma homenagem. Ozon e Honoré são muito mais realistas, com bom senso. Já Demy estava mais próximo do conto e tinha certo pessimismo. As pessoas cantam [nos filmes], mas não é tão alegre."

Sem conhecer muitos filmes brasileiros – "poucos deles chegam às salas de Paris" –, Deneuve reconheceu que é difícil achar espaço no circuito de distribuição para produções fora de Hollywood, inclusive do cinema francês. "Há uma situação de força desproporcional, que é preciso lutar. Mas é preciso saber que não existem tantas salas para cinema de autor quanto para o cinema americano, que dialoga com um maior número de pessoas."

A atriz afastou os boatos de que exigira centenas de toalhas e outros pedidos esdrúxulos para vir ao Brasil ("isso é Sharon Stone, não sou eu") e atribuiu sua beleza longeva à genética. "Minha mãe [centenária] ainda é uma senhora muita bonita. Me protejo do sol, tomo bastante água e gosto da vida ao ar livre, das coisas simples. Tento tomar cuidado, mas não muito. Na verdade, não me pergunto muito sobre isso", explicou. Milagres da natureza.

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