Incansável, Gay Talese dá aula de jornalismo em Paraty

PARATY ¿ Aos 77 anos, mais de 50 dedicados ao jornalismo, o escritor norte-americano Gay Talese tem boas histórias para contar. Isso ficou claro na manhã desta quinta-feira (02), quando levou praticamente uma hora para responder duas perguntas na coletiva de imprensa. Encandeando um assunto no outro, ligando elo atrás de elo, deixou nas entrelinhas e em frases lapidares lições de como se fazer jornalismo e deixar para trás as armadilhas fáceis oferecidas pelo Google.

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |


Um dos fundadores do new jornalism ou jornalismo literário, estilo que liga os dois gêneros, ao lado de grandes como Norman Mailer e Truman Capote, Talese entrou na sala dinâmico, perguntando quem estava no comando da situação. Vamos começar logo, esses cavalheiros são muito ocupados, advertiu, trajando um terno bege impecável e, sem intenção de sentar-se, permaneceu de pé.

Ao ser indagado pelo repórter do iG sobre como faz pesquisas para suas reportagens, lembrou um exemplo emblemático. Disse que em julho de 1999 estava deprimido, sem conseguir ultrapassar a metade de um livro que escrevia, e resolveu ligar a televisão. Trocando de um canal para outro, viu na tela as imagens do jogo decisivo do campeonato mundial de futebol feminino daquele ano. Em um estádio com 90 mil pessoas na Califórnia, se enfrentavam EUA e China. Impressionado com o caráter simbólico da partida, Talese assistiu até o final, mesmo sem entender as regras do esporte, e testemunhou a derrota chinesa nos pênaltis, graças ao erro de uma jogadora.

No dia seguinte, os jornais estamparam na capa a glória norte-americana e ninguém falou com as chinesas, muito menos com a garota que errou a cobrança. Sempre há uma história boa de quem perde, disse, com a experiência de quem começou no jornalismo esportivo. A partir disso, construiu uma pauta embasada no fato de que aquela jogadora era o símbolo da nova China, a China da perseverança, que passou pelo comunismo, pelas guerras do ópio, um país, enfim, que supera obstáculos.

Tentou vender a ideia para diversos editores de Nova York e nenhuma revista se interessou. Decidido, mesmo sem falar mandarim nem conhecer qualquer pessoa na China, Talese pegou o avião e foi para o Oriente. A questão é estar lá, defendeu, categórico. Dinheiro não é o problema, sempre há um jeito fácil de se fazer. Após descrever de modo saboroso, repleto de detalhes, toda sua romaria para chegar a Beijing e encontrar o time e a jogadora ¿ e se decepcionar com o resultado, em especial pela burocracia imposta pelo Ministério dos Esportes chinês ¿, o jornalista disse que percebeu que aquela não era a história que devia ser contada.

Me dei conta que a história da família que produziu aquela jogadora de futebol era mais importante. A mãe dela viveu a revolução cultural em 1968 e a avó, se ainda estiver viva, estava lá na época do último imperador. Uma geração através de três mulheres. Esqueça a jogadora, fale com a mãe, lembrou, entusiasmado. No fim, por conta própria, passou três meses na China e ainda foi às Olimpíadas de Sydney, no ano seguinte. O resultado faz parte de Vida de Escritor, livro que Talese vai autografar na Flip ao lado de outros como O Reino e o Poder e Fama e Anonimato.

Jornalista: vendedor de si mesmo

Ao contrário do frenesi do jornalismo diário e da web, em que tudo deve ser atualizado o quanto antes, o escritor disse que nunca teve pressa para escrever, nem quando trabalhava em redações. Escrever não é um jogo de produtividade, mas de qualidade, de algo que se possa ler com o passar do tempo e continue relevante. Mesmo quando trabalhava em jornais, pensava que estava escrevendo para a história, e não para o café-da-manhã.

Avesso à tecnologia, Talese não usa computadores, e-books, gravador ou coisa que o valha. Trabalha do mesmo jeito que fazia há cinco décadas, quando começou no The New York Times graças à indicação de um colega de faculdade que afirmou que seu primo era o editor-chefe do jornal. Na verdade, o editor não fazia ideia de quem era o tal parente, mas, poucas semanas depois, chamou o recém-formado para uma vaga de copista. Mais uma vez, é preciso estar lá, ir ao encontro das coisas porque não há como prever o que vai acontecer. Como jornalista, como curioso, é preciso estar lá, você não pode usar apenas o Google ao longo da vida.

Na mesma ocasião, Talese afirmou que o fato de ser educado e estar usando terno ajudou a conseguir a entrevista, o que foi suficiente para ele cunhar de bom grado mais um capítulo para sua cartilha. Tempo, paciência e boas maneiras, não há o que ajude mais um escritor de não-ficção a se aproximar de pessoas. E vestir-se bem também não faz mal, brincou, recordando da época em que trabalhava na loja do pai, alfaiate, e de como tratava bem os clientes. Assim como o vendedor, o jornalista bate na porta atrás de informações, mas precisa vender a si mesmo, estar apresentável e convencer o entrevistado de que, não, você não é um gângster, um ladrão, e não vai tirar vantagem dele.

Incansável, sem dar sinais de que queria parar, Talese também apresentou uma teoria de por que escândalos sexuais passaram a ser veiculados pela mídia e destruírem a carreira de políticos. Na época em que eu era repórter, John Kennedy era o presidente norte-americano e os jornalistas políticos sabiam de suas namoradas, de seu caso com Marylin Monroe, mesmo casado com a bela Jackeline. Apesar disso, ninguém falava disso nos jornais. O que mudou em 20 anos, segundo Talese, foi a ascensão das mulheres no jornalismo e no judiciário, trazendo à nossa cultura a noção de política correta e o termo abuso sexual.

Até hoje não sei o que assédio significa. Quando Michael Jackson sofreu aquelas acusações terríveis, ninguém sabia o que ele havia feito e mesmo assim a família daquele garoto recebeu milhares de dólares. Se tivessem explicado, por exemplo, que Jackson enfiou o pênis na orelha de alguém, já era alguma coisa. Quando estudava em colégio de freiras, elas batiam na gente, mas ao menos nos ensinavam a falar corretamente, concluiu, ácido. Espere isso e muito mais na conferência de sábado, às 17h, em conversa com o jornalista Mario Sergio Conti.

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