iG Recomenda: O Poder do Soul

Documentário flagra shows memoráveis de James Brown e B.B. King em 1974 na África, em festival que celebrava "retorno às raízes"

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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James Brown: brilho, talento, sensualidade e um ás da dança ao vivo no Zaire
"Antes de nos fazerem cristãos e nos chamarem de negros, a África era o berço da civilização." É com esse discurso que o boxeador Muhammad Ali justifica o amplo interesse dos negros norte-americanos pelo continente no início dos anos 1970. Em um misto de engajamento, oportunidade e tino comercial, o empresário Don King aceitou o convite do presidente do Zaire (atual Congo), o ditador Mobutu, para sediar no país a luta entre Ali e o então campeão George Foreman pelo título mundial. Em paralelo ao combate, no pacote, um festival de três dias com os maiores expoentes da música negra dos Estados Unidos, em uma espécie de "volta para casa". A luta foi retratada no premiado documentário Quando Éramos Reis (1996) e o festival, no excelente O Poder do Soul , lançado agora em DVD no Brasil.

Nem tudo deu certo para os organizadores. Marcado para setembro de 1974, o desafio teve que ser adiado em seis semanas devido a um ferimento de Foreman no olho. Os shows, no entanto, não podiam atrasar: o trabalho de montagem dos palcos já estava adiantado em um estádio de Kinshasa, capital do Zaire, e os equipamentos, com prazo para voltar aos Estados Unidos. Sem contar os técnicos, comprometidos na sequência com as turnês de Rolling Stones e Cat Stevens, e o investimento de US$ 14 milhões. O jeito foi fazer o festival na data prevista e... virou história.

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Muhammad Ali, Bill Withers e Don King: descontração na hora do almoço
Dirigido por Jeffrey Levy-Hinte, montador de Quando Éramos Reis , O Poder do Soul tinha poucas chances de dar errado, e isso porque o foco são os números musicais. Atrações africanas também estavam na programação, mas todo mundo queria ver mesmo eram os astros norte-americanos: 300 mil pessoas esperaram por mais de seis horas no aeroporto de Kinshasa para receber James Brown, B.B. King, Bill Withers, The Spinners, Miriam Makeba, Sister Sledge e Celia Cruz. Todos no auge de sua forma, imortalizados em película com uma fotografia belíssima e som cristalino.

Usando um figurino que lembra uma fantasia de super-herói e mostrando coreografia perfeita, os Spinners provam ser um dos melhores grupos vocais do início da década, ali ali com Temptations e O'Jays. Aos 49 anos, B.B. King chega elogiando a beleza das africanas, discute o setlist em cena e apresenta uma versão matadora de "Thrill is Gone". Celia Cruz está deslumbrante ao lado de percussionistas virtuose, Bill Withers canta sozinho ao violão, enquanto Miriam Makeba surpreende ao falar seu nome real – impronunciável – em dialeto sul-africano, antes de cantar "The Click Song".

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Mas a estrela máxima é mesmo James Brown. Um monstro da dança e da música, esbanjando passos, disposição e popularidade, ele é apresentado com pompa: "O cara que vai fazer seu fígado tremer, a bexiga explodir, congelar seus joelhos, o padrinho mundial do soul, o soul brother número 1... James Brown!". No palco, dançarinos, um conjunto de metais excelente e repertório engajado, mas não por isso menos cativante. Brown entra em cena para arrasar, e consegue. A palavra de ordem é "negritude", expressa em sucessos como "Soul Power" e "Say It Loud (I'm Black and I'm Proud)". A autoestima fica nas alturas. Ainda na esteira do fenômeno "Sex Machine", para Brown tudo é brilho, talento, ginga e sensualidade. Um espetáculo.

Costurando as músicas do filme, apenas imagens de época. É através de entrevistas e cenas de bastidores que se sabe de tudo o que acontece, e alguns "personagens" são tão absurdos que até parecem ser fruto da ficção – inglês típico, engomadinho, o representante dos investidores liberianos que bancaram o projeto é uma caricatura, tamanha sua preocupação e desconfiança para que nada desse errado. Como um cicerone, está Muhammad Ali, cheio de si – "Deus me fez maior que todos os artistas e atletas do mundo" –, tecendo comentários nonsense sobre a velocidade das moscas africanas e a importância do combate com Foreman. "Essa luta é pela igualdade, liberdade e justiça dos negros". Mais um tempero para um documentário que já valeria só pela música.

Assista ao trailer de O Poder do Soul :

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