"Homem ao Lado" zomba da burguesia com briga de vizinhos

Comédia argentina faz piada com costumes das classes mais ricas

Reuters |

A prova de que a comédia de humor negro argentina "O Homem ao Lado" não tem nada de fantasiosa é que, há algum tempo, foi exibida na TV brasileira uma briga entre vizinhos bem parecida com esta do filme - embora aquela do programa dominical tenha tido um desenrolar e resolução bem mais tranquilos.

O imbróglio entre os dois vizinhos se dá por conta de uma janela que está sendo construída com vista para o quintal de um deles. Mas não é apenas isso: o local em questão foi a única criação do arquiteto Le Corbusier na América do Sul, chamada de Casa Curutchet, em Buenos Aires. É bem provável que o verdadeiro local - ao menos sua fachada - tenha sido usado como locação do filme.

O morador do local, na ficção, é o designer Leonardo (Rafael Spregelburd) - sujeito rico, refinado e um tanto esnobe. Sua paz acaba no dia em que seu vizinho, Victor (Daniel Aráoz), começa a obra. As primeiras marteladas o acordam e, quando se dá conta, vê um buraco na parede que separa as duas casas: o local da futura janela.

Os métodos convencionais parecem não surtir efeito. Eles conversam, entram em acordos - que Victor não cumpre - e brigam novamente. Não ajuda o fato de Victor ser um sujeito estranho, de modos e manias bastante peculiares. Seu furgão é como uma casa, com móveis e até um globo de discoteca. Sabe-se lá o motivo.

Victor invade cada vez mais a vida insípida da família de Leonardo. A mulher (Eugenia Alonso) é professora de ioga, mas vive irritada e briga com todo mundo. A filha (Inés Budasse), por sua vez, não tira os fones do iPod do ouvido e passa o filme inteiro sem trocar uma palavra com as outras pessoas. Leonardo também vive no seu mundo envernizado, coberto de cultura, que ele parece não compreender, e futilidades.

Um exemplo é uma cena quando ouve música erudita com um amigo. Eles falam sobre as inovações criadas por um determinado compositor. Até mencionam a ousadia de colocar marteladas, mas, só mais tarde, notam que os golpes não fazem parte da música -- estão acontecendo na casa ao lado.

Em "O Homem ao Lado", os diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat fazem uma crítica à superficialidade da burguesia, às convenções a que os ricos e finos se atêm. No entanto, o filme podia ir mais a fundo nisso - ficando na superficialidade perde a oportunidade de ser mordaz em relação à futilidade da classe média argentina - e, por tabela, de boa parte da do mundo. Boas ideias estão espalhadas pelo filme. Há momentos engraçados, mas outros em que boas oportunidades parecem apenas ensaiadas e abandonadas.

A Casa Curutchet, assim como a premiada poltrona desenhada por Leonardo, é tecnicamente impecável, mas com suas rampas e paredes de vidro parece fria, pouco confortável. É nessa bolha que a burguesia se fecha e ignora o restante do mundo -- uma visão de mundo que os diretores do filme, de vez em quando, compartilham.

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