"Histórias Cruzadas" comove fácil com drama racial

Baseado no best-seller "A Resposta", filme indicado ao Oscar retrata luta por direitos civis pelo viés das domésticas negras

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Quando a Academia de Hollywood aumentou para dez o número de indicados a melhor filme , a ideia era tornar o Oscar mais popular, permitindo a entrada de concorrentes com que o público se identificasse. A manobra não deu muito certo, como comprovam os indicados deste ano , com uma única exceção: "Histórias Cruzadas", de longe o longa-metragem com maior bilheteria da lista (US$ 169 milhões só nos Estados Unidos).

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Baseado no best-seller "A Resposta" , o filme estreia nesta sexta-feira (03) no Brasil com a expectativa de, igualmente, atrair espectadores ávidos por uma história edificante e de fácil identificação. Escrito por Kathryn Stockett, o romance é inspirado na infância da autora, criada por uma empregada negra na cidadezinha de Jackson, no Estado do Mississipi.

Divulgação
Viola Davis em "Histórias Cruzadas": segregação racial nos EUA da década de 1960
Apadrinhado pela apresentadora Oprah Winfrey, o livro virou fenômeno de vendas e ajudou a carreira do filme – depois de uma estreia modesta, o boca a boca nas semanas seguintes se encarregou de catapultá-lo para a liderança na América do Norte . O sucesso não é nada difícil de entender, já que "Histórias Cruzadas" mistura os ingredientes básicos para agradar multidões: relevância social, humor, certo romance e farta abertura para lágrimas.

Recém-formada, a jovem Eugenia "Skeeter" (Emma Stone) deixa a universidade e volta para sua cidade-natal, Jackson, com a ambição de se tornar escritora. O cenário são os EUA do início da década de 1960, quando as lutas pelos direitos civis começavam a se alastrar pelo país.

No sul, no entanto, a consciência ainda era de outro século: empregados negros tinham talheres próprios, o contato físico com os patrões era evitado e, conforme a legistação estadual, conversas entre brancos e negros podiam ser até ilegais. Salário mínimo, férias e assistência social não eram nem cogitados.

É nesse contexto que Skeeter, contratada como colunista de assuntos domésticos do jornal local, desperta para as diferenças desse quase apartheid. Apesar de criarem os filhos das patroas brancas como se fossem seus, as serviçais, por conta da "sanidade", precisam até mesmo usar um banheiro construído na rua, nova bandeira da líder comunitária local, a perua e vilã Hilly (Bryce Dallas Howard).

A ideia de um livro em que as empregadas contem tudo o que sofrem no trabalho surge como a salvação de todo mundo – a redenção das empregadas e a chance de Skeeter virar uma escritora.

Daí surgem as verdadeiras protagonistas. Viola Davis, forte candidata ao Oscar de atriz, interpreta Aibileen, doméstica veterana que já criou 17 crianças. Calada e com olhar sofrido, são dela os momentos mais emocionantes do filme. Já a Octavia Spencer, virtual ganhadora da estatueta de atriz coadjuvante, cabe ser o alívio cômico, a desbocada Minny. Jessica Chastain, também indicada a coadjuvante, vive uma nova moradora da cidade, hostilizada pelas outras por ter se casado grávida com um bom partido local.

"Histórias Cruzadas" é exatamente o que parece: meloso até não poder mais. Da trilha sonora apelativa aos personagens previsíveis, tudo está envolto numa camada extra de açúcar.

Tate Taylor, ator que se tornou roteirista e cineasta, não é nada sutil atrás das câmeras e fez um trabalho genérico, com jeitão de novela. Sua competência para o cargo, aliás, nunca foi colocada à prova: é amigo de infância da autora do romance, que lhe concedeu os direitos de filmagem antes mesmo do livro ser publicado.

Leia também: Indicados ao Oscar 2012 chegam às livrarias

Apesar disso, "Histórias Cruzadas" funciona. A sorte de Taylor foi ter escalado um elenco excelente. Além das atrizes que concorrem ao Oscar, o grupo tem Emma Stone , nova queridinha de Hollywood e em breve estrela de "O Espetacular Homem-Aranha", a excelente Allison Janney, Mary Steenburgen, a veterana Cicely Tyson e a pequena participação de Sissy Spacek, que rouba todas as cenas em que aparece. Não à toa o filme teve o elenco reconhecido como o melhor da temporada pelo Sindicato dos Atores .

Com esse amparo e a contudente segregação racial, sempre eficaz para gerar emoções, "Histórias Cruzadas" se mostra entretenimento fácil e competente. Não deixa de incomodar o fato de o destino das empregadas ter ficado nas mãos da heroína branca, mas é uma das nuances que o roteiro de Taylor deixa em aberto. Se o filme satisfaz com sua simpatia, não deixa de ser intrigante imaginar como "A Resposta" teria ficado nas mãos de um diretor de verdade.

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