"Heleno" mostra derrocada de primeiro "bad boy" do futebol brasileiro

Em preto-e-branco, Rodrigo Santoro vive o atacante do Botafogo rumo ao fundo do poço

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Se há um mérito em "Heleno", que estreia nesta sexta-feira (30) nos cinemas, é recuperar a história de Heleno de Freitas, o primeiro "bad boy" do futebol nacional, perdida entre as lendas do esporte. Atacante do Botafogo na década de 1940, Heleno era o que Brasil tinha de mais próximo a um astro ou rockstar numa época em que a indústria das celebridades, e do próprio esporte, ainda não havia atingido pleno desenvolvimento.

Com Rodrigo Santoro no papel principal, o diretor José Henrique Fonseca ("O Homem do Ano"; série "Mandrake") capta com segurança, e em preto-e-branco, o auge e a derrocada do jogador, que morreu precocemente num sanatório aos 39 anos.

Divulgação
Rodrigo Santoro como o jogador Heleno de Freitas: astro no Brasil da década de 1940
Saudado pelos jornais como "homem-gol", Heleno era dono de uma empáfia inabalável e um gênio explosivo. Xingava os companheiros, não aparecia nos treinos, brigava no vestiário e no gramado, mas tinha um belíssimo aproveitamento na área. "Fecha o olho e cruza no Heleno que ele resolve", dizia a máxima, reproduzida por ele. A imprensa ainda alimentava esse ego gigantesco com manchetes sensacionalistas, legitimando um comportamento que há muito havia ultrapassado os limites.

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Estrela que era, Heleno morava no hotel Copacabana Palace, onde se entregava a noitadas tórridas com fãs e cantoras de boate – a mais frequente era Diamantina (a belíssima colombiana Angie Cepeda, de "Pantaleão e as Visitadoras"). Muito álcool e cigarros eram ingredientes rotineiros, mas pouco depois o vício em éter entraria com peso na vida desregrada do jogador.

O sucesso na juventude é intercalado por cenas de Heleno no fim da vida, internado em Barbacena, com problemas mentais e padecendo de um estágio avançado de sífilis. Doze quilos mais magro, debaixo de maquiagem pesada, cabelo ralo e dentadura, a caracterização de Santoro espanta. Aquele homem na clínica é apenas um reflexo embaçado de glórias anteriores, que tenta recuperar sua imagem se alimentando literamente de recortes de jornal colados na parede.

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Se havia o perigo de o filme se tornar o relato comum de alguém que sucumbiu à fama, José Henrique Fonseca conseguiu conferir personalidade à história, escrita em conjunto com Felipe Bragança e o argentino Fernando Castets (parceiro de Juan José Campanella em "O Filho da Noiva", "Clube da Lua" e outros filmes), com coadjuvantes competentes. Há a cumplicidade com o irmão (Duda Ribeiro), o triângulo amoroso com o melhor amigo de Heleno, Alberto (Erom Cordeito), e sua mulher, Silvia (Alline Moraes, fotogênica e competente), embora a comoção fique por conta do relacionamento com o enfermeiro Jorge (Mauricio Tizumba).

Até pode-se questionar a validade de não se filmar em cores, mas a fotografia de Walter Carvalho é irretocável. Os enquadramentos fechados colaboram, assim como o desenho de som e a trilha sonora, para a criação de um clima desconfortável, em sintonia com a confusão psicológica do protagonista.

Sonhos e fantasmas

Ao longo da projeção, a antipatia por Heleno não se dissipa. O curioso é não conseguir se tornar imune a seus sonhos (jogar na Seleção Brasileira e no recém inaugurado Maracanã) e fantasmas (uma fatídica final chuvosa contra o Flamengo no campeonato carioca). Talvez porque, mais do que o futebol – que não aparece tanto assim –, o filme seja sobre uma tragédia irrefreável, digna de ópera (atente para a referência explícita), sem possibilidade de redenção. O desastre comove, talvez até fácil demais.

Rodrigo Santoro é também responsável por manter o interesse pelo personagem. Se não é um virtuoso, o ator só comprova sua força diante das câmeras, como mostrou recentemente em "Meu País" e lá atrás em "Bicho de Sete Cabeças", outra história com doentes mentais.

Ele se vira bem inclusive no microfone. Num momento para lá de didático, Heleno dedica uma música a sua família na rádio, cantando o standard "Nature Boy" , finalizado com os versos "ele aprendeu que o importante era amar e ser amado". Mais claro impossível.

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