Canção de Baal - Cinema - iG" /

Helena Ignez quer dialogar com público no experimental Canção de Baal

PORTO ALEGRE ¿ Em contraste com as tietes e o glamour do tapete vermelho, o Festival de Gramado vem assumindo nos últimos anos grande apreço por produções inovadoras e experimentais. Selecionado para a mostra competitiva nacional, ¿Canção de Baal¿, de Helena Ignez, cumpre à risca esse quesito: musa do cinema marginal, a ex-mulher de Rogério Sganzerla adaptou para as telas um texto niilista do alemão Bertold Brecht que ainda cita a passagem de Albert Einstein pelo Brasil. A radicalidade do longa-metragem vai colocar o público, segundo o curador Sérgio Sanz, em um extremo ou outro: ¿tem gente que vai odiar e tem gente que vai adorar¿.

Marco Tomazzoni |

AE

Helena Ignez

Em entrevista ao iG , Helena conta que sua relação com Brecht começou em Salvador, aos 17 anos, quando cursava a Escola de Teatro da Bahia, e se manteve sempre íntima, tanto que ela ¿ ou a crítica, como prefere dizer ¿ se define como uma atriz brechtiana.  Baal é a primeira peça do dramaturgo, escrita em 1918, e mostra a jornada sem regras do protagonista, entregue a orgias regadas a álcool, alheio à sociedade, enquanto escreve poemas e canções. A cineasta resolveu adaptar a obra depois de conhecer a fazenda do diretor de arte Fábio Delduque, ao ministrar uma oficina no Festival de Serrinha. Era o lugar perfeito para o Baal existir, essa personalidade estranha, afirma.

Se por um lado o filme é fiel ao teatro ¿ tomei muita liberdade, mas ao mesmo tempo respeitei absolutamente os diálogos ¿, por outro não teve pudores em incluir na história a passagem de Einstein pelo Brasil, em 1925. A figura desse quase hippie, como diz Helena, um personagem pop como John Lennon, mensageiro da grande arte e ciência, foi uma espécie de contrapeso para o trabalho conturbado de Brecht. Um é dionísiaco, o outro é apolíneo. Achei que só o dionisíaco, esse fogo da loucura dé criar, não seria possível, precisava de um balanço.

Divulgação

Beth Goulart e integrantes do Grupo Oficina estão no elenco de "Canção de Baal"

Amiga próxima de Zé Celso Martinez Corrêa, a diretora contou com diversos atores do Teatro Oficina no longa. A profunda ligação com o trabalho do grupo se reflete também na narrativa, talvez ainda mais impactante e sem concessões ao público. Esse espírito avant-garde está expresso na fala emblemática de um dos personagens: quando se entende uma história, é porque ela foi mal contada.

Para Helena, é essencial deixar no ar uma aura de mistério, deixando que a plateia preencha as lacunas e descubra as sutilezas da história por conta própria. Acho que sempre sobra algo na imaginação do espectador, em que ele pode chegar sozinho. Acredito nessa troca, sinceramente. Como exemplo, cita a recepção do filme na abertura do Cineport ¿ Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa, em João Pessoa. As palmas e risadas na sala lotada foram um presente, diz a diretora.

Nem todos os espectadores são iguais, ela defende. Há públicos e públicos, como aquele que vai ao cinema para ver aquelas pessoas que já conhece, exclusivamente para assistir aquela historinha que já viu de várias maneiras na televisão. É difícil agradar a todos, mas é muito importante essa relação. Se cada um de nós artistas formos realmente autorais, no melhor sentido da palavra, a gente vai ter um grupo de pessoas no mundo inteiro que se interessam por nosso trabalho.

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Carlos Careqa encarna Baal

Realizado através de uma coprodução com o Canal Brasil, Canção de Baal já foi exibido na TV paga, mas será projetado em Gramado pela primeira vez com som 5.1 e em cópia digital. Em setembro, o filme receberá em Trieste, na Itália, um prêmio especial por contribuição à linguagem e na sequência deve receber uma pré-estreia oficial, apesar de chegar às salas do País apenas em 2010.

Enquanto isso, Helena ensaia a peça Tragicomédia de um Homem Misógino, uma mistura de linguagem teatral e audiovisual dirigida por André Guerreiro Lopez ¿ responsável pela fotografia de Canção de Baal ¿, em temporada no Sesc Leopoldina, em São Paulo, e se dedica à montagem de Luz nas Trevas, A Volta do Bandido da Luz Vermelha, continuação do ícone máximo do cinema marginal, escrito pelo próximo Sganzerla pouco antes de sua morte, em 2004.

Protagonizado pelo cantor Ney Matogrosso, Luz nas Trevas acaba de ganhar um prêmio de R$ 300 mil do governo paulista para finalização e deve estrear em meados de junho do próximo ano, quando será inaugurada no Itaú Cultural uma exposição dedicada a Sganzerla. Com curadoria de Joel Pizzini, a mostra vai unir fotos e trabalhos do cineasta e deve servir como trampolim para o filme, dirigido por Helena ao lado de Ícaro Martins. Já estamos pensando num superlançamento e estão aparecendo propostas, o filme não está carente disso, adianta.

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