Heitor Dhalia sobre '12 Horas', que dirigiu: 'Não consigo me ver no filme'

Em entrevista ao iG, cineasta fala sobre seu primeiro trabalho em Hollywood, estrelado por Amanda Seifried

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Divulgação
Heitor Dhalia em evento de "12 Horas" em SP
Não são muitos os cineastas brasileiros que conseguiram ultrapassar a fronteira e filmar em Hollywood, e mais raros ainda os que voltaram falando bem da experiência. Heitor Dhalia não é exceção.

Conhecido por "O Cheiro do Ralo" (2006), ele estreia nesta sexta-feira (13) no Brasil "12 Horas" , suspense estrelado por Amanda Seyfried ("Mamma Mia!", "Cartas para Julieta") no qual quem deu as cartas foi o produtor – ao diretor só restou obedecer, ao que Dhalia chama de "ditadura".

Siga o iG Cultura no Twitter

O flerte com o exterior começou ainda em seu primeiro longa-metragem, "Nina" (2000), que chamou a atenção de executivos em Los Angeles, e se intensificou depois da exibição de "À Deriva" (2009) em Cannes. Dhalia se dedicou a aprender inglês e viajar com frequência aos Estados Unidos, atrás de projetos que nunca saíam do papel – ele já havia sido vinculado a um thriller de espionagem, a um drama sobre a fortuna em ouro dos nazistas e até a uma cinebiografia de F. Scott Fitzgerald.

"Los Angeles é um grande cassino, um jogo de especulação, de análise de riscos", comentou Dhalia durante entrevista em São Paulo. Segundo ele, a indústria norte-americana é tão competitiva que outros 16 diretores estavam no páreo para o cargo em "12 Horas", o primeiro com uma chance real de ganhar sinal verde.

Leia também: Com Amanda Seyfried, "12 Horas" é um suspense frustrante

"Por alguma razão, ganhei", disse ele, refletindo sobre o papel dos cineastas de fora dos EUA em Hollywood. "É como comprar uma ação em baixa. O talento estrangeiro entra como mão de obra barata e é mais fácil de controlar. A partir daí depende da sorte ou do destino para ver qual será seu limite criativo."

Getty Images
Dhalia, Amanda Seyfried e o produtor Tom Rosenberg na pré-estreia de "12 Horas" em Los Angeles
Como Dhalia faz questão de falar para quem quiser ouvir, ele teve muito azar. Em Hollywood, diferentemente do cinema produzido na maior do mundo, quem segura as rédeas do filme é o produtor, que pode ou não ter um perfil controlador. No caso de "12 Horas", o produtor Tom Rosenberg (ganhador do Oscar por "Menina de Ouro") era quem dizia "sim" e "não".

Dhalia contou que não pôde levar ninguém com quem trabalhava no Brasil: toda a equipe era norte-americana, escolhida por Rosenberg. A maioria do elenco o diretor conheceu no set, inclusive a estrela, Amanda Seyfried. Mesmo assim, foi proibido de ensaiar com ela. "Tive a sorte de trabalhar com a Amanda, uma flor de pessoa, do bem." Nos momentos de crise, ouvia Luiz Gonzaga para se lembrar das raízes.

Na entrevista a seguir, concedida ao iG , o diretor não se desculpa diretamente por "12 Horas", mas é mais ou menos isso o que acontece. Heitor Dhalia falou sobre a produção do thriller, a falta de personalidade que o filme tem, atacou constamente Rosenberg e ainda adiantou algumas informações sobre "Serra Pelada", seu próximo trabalho, que vai recuperar numa grande produção a febre do garimpo no norte do país.

Divulgação
É difícil assinar uma coisa que você não concorda e não teve escolha
iG: Você já tinha ouvido falar do produtor (Tom Rosenberg)?
Heitor Dhalia:
Conhecia, e conhecia a fama. Esse foi o grande erro - olhava os pôsteres na produtora dele e achava tudo uma merda. Mas eu estava a fim de fazer um filme lá e por algum motivo achei que ia me dar bem. Só percebi onde tinha me metido quando já estava lá. Peguei o cara que é considerado um dos dois piores produtores [de Hollywood] – o outro é um cara da Screen Gems, considerado igual. Tem uma nova geração de executivos que não é assim, é jovem, trabalha como se fosse numa bolsa de valores. Mas esse cara é um personagem clássico de Hollywood, como em "Barton Fink". Aquele "big boss" dos antigos estúdios, bilionário, ego gigante, que manda soltar e prender, escolhe as atrizes e você está ali no meio de tudo isso. Foi minha decisão levar o filme até o final: pensei em sair várias vezes, quando comecei a perder o poder de escolha. Mas fiz o filme, com todas as consequências, boas e ruins, disso.

iG: O que te incomodou principalmente?
Heitor Dhalia:
O principal foi o roteiro. Era muito engessado. Estou trabalhando em um roteiro novo agora e todo dia ele está em evolução, muda, alguém acha alguma coisa e a gente incorpora. É dinâmico, vivo, com o sentimento de "vamos fazer ficar melhor". [Em "12 Horas"] Era só o produtor quem ligava para o roteirista, todas as ideias partiam dele. Assim como o elenco secundário, o diretor de fotografia, de arte... Um conjunto de coisas que, juntas, fazem a diferença. [O produtor] Se esconde atrás de um diretor ao invés de assumir as escolhas dele, não tem coragem. Acho muita covardia.

iG: Você corria o risco de ser demitido?
Heitor Dhalia:
A qualquer hora. Pelo contrato, ele podia me demitir a qualquer momento, a etapa que fosse. Claro que é um risco medido, porque ninguém quer fazer isso, é difícil. Mas dou o exemplo de outro filme que esse cara estava produzindo ao mesmo tempo ( "Anjos da Noite: O Despertar" ), com uma dupla de diretores suecos (Måns Mårlind e Björn Stein). Ele contratou um diretor de segunda unidade e começou a transferir a maior parte das cenas da primeira para a segunda. Então o núcleo dos diretores oficiais foi esvaziado. É brutal, ele não tem dó.

iG: Foi uma boa experiência?
Heitor Dhalia:
Foi. Fiz uma escolha, assumo totalmente, o que tem de bom e ruim. Não sabia que essa falta de controle seria tão grande. Achava que o cara ia garantir os principais pontos, ver se eu não estava fazendo merda, pirando com algo autoral. Nunca imaginei que dentro disso ele não pudesse deixar o filme melhorar, fazer um produto melhor. A partir disso, comecei a me chocar. O "filmmaker" era ele. Eu estava fazendo o papel dele e ele, o meu, de querer fazer tudo do seu jeito. Uma loucura.

nulliG: Você tem orgulho do filme?
Heitor Dhalia:
Tenho orgulho de ter feito. Olhando o produto final, acho bom tecnicamente, bonito, bem filmado. Agora, criativamente, não tenho orgulho. Sempre fiz filmes muito ousados. Prefiro uma coisa menos bem acabada e mais arriscada do que o contrário, por isso não consigo ter o entusiasmo que tenho por meus outros filmes. Bem ou mal, escolhi os outros, com seus erros e acertos. É difícil assinar uma coisa que você não concorda e não teve escolha, uma situação bem desconfortável. Não consigo, vamos dizer, me ver totalmente no filme.

iG: Não tem a sua personalidade?
Heitor Dhalia:
Personalidade não tem. E quem vê meu trabalho sabe. O que você vê: um filme hollywoodiano médio, de gênero, bem filmado. Essa parte eu fiz bem. Podia ser bem pior, de não conseguir nem isso. Podia acabar numa situação de guerrilha, tomando tiro do meu time. O principal problema do filme não é o filme, mas uma pessoa.

Divulgação
Heitor Dhalia: "Principal problema do filme não é o filme, mas uma pessoa"
iG: Mesmo assim, é o seu nome que está lá, e o filme recebeu críticas muito ruins, acredito que as piores da sua carreira.
Heitor Dhalia:
Esse também é um problema do produtor, que proibiu a crítica de assistir ao filme antes da estreia. Acho que se ele fosse lançado normalmente, também não teria uma boa recepção, mas não despertaria esse ódio. Pessoalmente, não consigo me ofender com nada porque sinto que não tive culpa. Depois do processo inteiro, o que se pode fazer? O cara escolheu tudo. Assumo ter escolhido o filme, só que o resto... Sem querer tirar o meu da reta. Ele foi covarde de novo, queria era garantir o primeiro final de semana [o desempenho de um filme na estreia geralmente é fundamental para a sua carreira comercial].

iG: Mesmo assim o filme não foi tão bem de bilheteria.
Heitor Dhalia:
Não acho que foi mal para o tamanho do lançamento, fez o suficiente. Bem ou mal, o cara ganhou dinheiro da pré-venda [para outras regiões, TV e mercado doméstico] e o filme arrecadou US$ 11 milhões. Não é todo filme que se paga.

iG: Você voltaria a filmar em Hollywood?
Heitor Dhalia:
Primeiro, nunca mais aceito condições assim. Só vou topar um filme se for para fazer melhor do que aqui, não tem mais sentido em passar por isso: morar fora um ano, trabalhar com um cara que só me f*, depois tomar porrada por ele... Para quê? Estou bem maduro agora para entender. Se fosse em outro momento da minha carreira, poderia ter ficado abalado. Também, azar: sem erro não tem qualidade, sem risco não tem cinema.

iG: A experiência com "12 Horas" vai ajudar você a fazer "Serra Pelada"?
Heitor Dhalia:
É um filme muito maior do que "12 Horas" e com muito menos dinheiro. Não vai ajudar muito, não. Mas é um filme a mais. Você não consegue ter crescimento pessoal e profissional em céu de brigadeiro: é na tempestade que se aprende. Foi uma experiência muito difícil para mim, em muitos sentidos, mas passei por ela. Entendi a arapuca em que me meti. Igualzinho a Waltinho [Walter Salles] com "Água Negra". Não fui o primeiro nem vou o ser o último a cair nessa.

iG: Quando começam as filmagens de "Serra Pelada" ?
Heitor Dhalia: Começamos a filmar em julho, no Pará. O orçamento está estimado em R$ 12 milhões. Por enquanto só Wagner Moura [no papel principal] está confirmado no elenco. Ainda estamos negociando com Seu Jorge.

    Leia tudo sobre: 12 horasheitor dhaliaamanda seyfriedhollywoodprodutorcinema

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG