O Beijo da Mulher Aranha" / O Beijo da Mulher Aranha" /

Hector Babenco é homenageado em Paulínia

Um dos mais importantes diretores brasileiros em atividade verá uma cópia restaurada de O Beijo da Mulher Aranha

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Reprodução
Sônia Braga e Raul Julia em cena do celebrado O Beijo da Mulher Aranha
Homenageado pelo Festival de Paulínia, o diretor Héctor Babenco verá na sessão de abertura, nesta quinta-feira (15), uma de suas obras mais importantes. Vinte e cinco anos depois, O Beijo da Mulher Aranha ganhou cópia restaurada, exibida em primeira mão neste em ano na Cannes Classics, sessão paralela ao evento na riviera francesa, apadrinhada por Martin Scorsese. O filme rendeu o Oscar de melhor ator a Willian Hurt, ganhou outras três indicações (filme, direção e roteiro adaptado), deu fama a Sônia Braga e escancarou as portas de Hollywood para Babenco, um argentino expatriado. Argentino, aliás, que é um dos melhores diretores, hã, brasileiros.

Nascido em 1946, filho de imigrantes russos e poloneses, Babenco trabalhou como alfaiate antes de fugir da Argentina por não querer servir ao exército. Viajou pela Europa e fez de tudo um pouco, desde lavar pratos a fazer uma lendária participação como figurante nos filmes de Sergio Leone. Chegou ao Brasil no início da década de 1970, fixou residência e descobriu a paixão pelo cinema. Foi assistente de Roberto Farias no documentário O Fabuloso Fittipaldi (1973) e dirigiu seu primeiro longa dois anos depois, O Rei da Noite , com Marília Pêra e Paulo José.

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Marília Pêra e o garoto Fernando Ramos da Silva em Pixote: imagem provocou polêmica na época

Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia (1977) confirmou sua vocação para as bilheterias. Com Reginaldo Faria, irmão de seu antigo parceiro, no papel do bandido com cara de galã, o filme foi visto por 5 milhões de espectadores e chamou a atenção da crítica. Mas a consagração viria com seu próximo trabalho. Se Lúcio Flávio era inspirado em fatos reais, o polêmico Pixote, a Lei do Mais Fraco era uma dose cavalar de realidade.

Iniciamente uma série de entrevistas com internos da Febem, o projeto se transformou em um retrato da dura vida dos meninos de rua em São Paulo. Boa parte da crueza se deve à atuação de atores não-profissionais, principalmente Fernando Ramos da Silva, de 10 anos, no papel-título. O garoto teve um fim trágico, ao ser morto pela polícia poucos anos depois.

Pixote caiu nas graças da imprensa mundial – é adorado por gente como o diretor Spike Lee e o cantor australiano Nick Cave –, conseguiu uma indicação ao Globo de Ouro e foi considerado o terceiro melhor filme estrangeiro da década pela Associação de Críticos dos Estados Unidos, perdendo apenas para Ran, de Akira Kurosawa, e Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman. A história deu origem ao documentário Pixote in Memmorian, que será exibido em uma mostra paralela em Paulínia.

O filme atraiu a atenção de Hollywood para Babenco. Ele fez a coprodução com a Argentina A Terra é Redonda Como uma Laranja (1984), pouquíssimo visto, mas seu próximo longa-metragem trouxe a consagração. Escrito a partir do romance argentino de Manuel Puig, O Beijo da Mulher Aranha contrapunha as fantasias glamurosas de um homossexual (William Hurt, que também ganhou a Palma de Ouro) e seu engajado companheiro de cela (Raul Julia). Apesar dos astros norte-americanos e de ser falado em inglês, o filme tinha equipe e elenco brasileiros. Isso não impediu que a produção faturasse US$ 17 milhões nos EUA e fosse uma das estrelas do Oscar em 1986, ao lado de Entre Dois Amores .

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O diretor Hector Babenco, em foto de 2007
Depois disso, Babenco – já membro da Academia de Hollywood – desenvolveu seu primeiro projeto inteiramente nos Estados Unidos, com orçamento milionário (US$ 27 milhões) e de cara conseguiu reunir dois monstros do cinema. Ironweed (1987), adaptação do romance de William Kennedy (relançado recentemente no Brasil), colocou lado a lado Meryl Streep e Jack Nicholson e, como resultado, ambos foram indicados ao Oscar por seus papéis.

Brincando nos Campos do Senhor (1991) marcou a segunda tentativa do diretor da meca do cinema, e as coisas começaram a não dar muito certo. Ambicioso, o longa histórico, com três horas de duração, foi escrito em colaboração com o experiente roteirista francês Jean-Claude Carrière para contar o trabalho de missionários na Amazônia brasileira. Custou US$ 36 milhões e não conseguiu alcançar nem metade disso nas bilheterias. Como o filme anterior também não tinha ido muito bem comercialmente, as relações de Babenco com possíveis investidores ficaram estremecidas.

Nuvens negras baixaram de vez. Vítima de um câncer linfático com perspectivas não muito animadoras, o diretor teve que se submeter a um transplante de medula para conseguir se curar. Funcionou. Dois anos depois de recuperado, filmou o autobiográfico Coração Iluminado (1996), em que resgatava passagens da infância e adolescência na Argentina. Entre as atrizes principais, Xuxa Lopes, sua ex-mulher, e Maria Luísa Mendonça. Delicado, o filme concorreu à Palma de Ouro em Cannes e também será exibido em Paulínia.

Depois disso, Babenco demorou, mas fez um retorno triunfante. Carandiru (2003), baseado nas memórias do médico Dráuzio Varella, reuniu um elenco estrelado – inclusive Rodrigo Santoro, no papel de um travesti – e o público correu às salas para assistir: 4,6 milhões de espectadores. O sucesso foi tanto que rendeu até uma série para a televisão.

O Passado (2007) é seu trabalho mais recente. Outra adaptação literária (agora do romance de Alan Pauls), foi filmado na Argentina e teve o astro mexicano Gael García Bernal como protagonista. Mostrou um diretor experiente, inquieto, com fôlego de garoto. Até há pouco tempo, Babenco trabalhava em dois novos longas-metragens: A Brasileira , em parceria com a Espanha, e Cidade Maravilhosa . É ver qual deles chega às telas primeiro.

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