"Há 30 anos penso em desistir", diz Selton Mello

Diretor e protagonista de "O Palhaço" fala do filme, carreira e da série "A Mulher Invisível"

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Mario Miranda/Agência Foto
Selton Mello: "nunca tenho certeza", afirma o ator
Uma crise profissional inspirou Selton Mello, 38 anos, a escrever "O Palhaço" , em que o tristonho Benjamim (o próprio Selton) questiona sua vida no picadeiro e sua habilidade de fazer rir. Em Paulínia, quando o filme foi exibido pela primeira vez e ganhou três prêmios , o ator e diretor disse que superou o impasse rápido . Agora, durante a Mostra de São Paulo , pouco antes da estreia, nesta sexta-feira (28), o discurso já foi outro: "há 30 anos penso em desistir", disse ao iG .

Por enquanto, pelo menos, ele não deve ter motivo. Bem recebido por público e crítica, "O Palhaço" entra em cartaz no país com cerca de 200 cópias e é o mais forte candidato brasileiro a ser bem nas bilheterias no segundo semestre. Além disso, em breve estrela a segunda temporada de "A Mulher Invisível", série derivada da comédia de mesmo nome.

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Exibido na Rede Globo, o programa é produzido pela Conspiração Filmes, de forma independente. Há anos sem contrato com a emissora, Selton está satisfeito com a rotina – "sou totalmente livre e e tem sido bom assim", embora tenha ficado balançado com a enorme audiência da série. "Quem sabe no ano que vem, ao invés de fazer um filme, não faço uma série?". Leia abaixo a entrevista.

iG: "O Palhaço" tem um espírito e uma inocência que parecem perdidos no tempo.
Selton Mello: É um filme que mantém a capacidade do sonho, uma característica que o cinema não pode abrir mão. Acho que nos últimos tempos a barreira entre ficção e documentário se rompeu e os filmes estão cada vez mais realistas. Inclusive nesse período começou o boom dos não-atores – quanto mais não-ator, melhor, porque é mais realista, mais hoje. E o sonho? E o terreno da imaginação? A fantasia? O lúdico? "O Palhaço" vai por esse caminho, também sendo realista, contando a história de um cara com um dilema real e acessível.

iG: Você superou rápido a crise que deu origem ao roteiro, não?
Selton Mello: Na verdade, eu tenho esse conflito o tempo inteiro, não exorcizei nada. Há 30 anos faço isso e há 30 anos penso em desistir. Há 30 anos acontece algo lindo e vou em frente. Nunca tenho certeza. Na verdade, não foi um momento: sempre estou nesse momento. Penso muito.

iG: É uma dúvida relacionada a ser ator, diretor ou do negócio mesmo?
Selton Mello: Acho que é mais como ator. Estou bem encantado em dirigir, porque me senti mais criativo, estava precisando disso. Isso me oxigenou e deu gás para ir adiante. Porque eu penso em muitas coisas, sou hiperativo, então fico pensando, pensando... São 30 personagens: como eles se vestem, andam, se comportam? Quem serão os atores? Como é a trilha sonora que vai embalar isso tudo? Como vai ser o ritmo da montagem? Isso me estimula e enriquece.

Divulgação
Cena de "O Palhaço": vida no picadeiro na corda bamba
iG: Como está sendo a resposta do público nos festivais e sessões de pré-estreia?
Selton Mello: É muito prazeroso ver a reação das pessoas. O filme está causando um grande encantamento. Há pouco tempo estava em Recife num festival de circo, dentro de cinema com mil lugares, lotado, e as pessoas riram muito. Parece que estava faltando um filme assim. É a sensação que tenho vendo a reação do público.

iG: Você já disse a ideia foi fazer um filme que falasse com o grande público.
Selton Mello: Isso, sem perder a ternura, o refinamento estético. Sem abrir mão de um cinema mais bem cuidado, da fotografia, da direção de arte, do roteiro, que não fica explicando tudo o que está acontecendo como muitos roteiros que se vê por aí. Ele fica no meio do caminho, popular e refinado. Parece que deu certo esse samba que eu queria fazer.

iG: Você está muito contido no papel de Benjamim. Foi difícil achar esse tom?
Selton Mello: Não foi, não. Queria o personagem desse jeito. Na verdade, antes o roteiro foi parar nas mãos do Wagner [Moura] e do [Rodrigo] Santoro, eu não ia fazer. Entreguei para o Wagner o papel do Benjamim, ele adorou, achou a história linda, mas tinha o "Tropa de Elite 2". Me disse: "faz você". Santoro leu também, disse que adoraria fazer, mas tinha um filme no exterior. Me disse: "faz você". Vendo hoje, foi mais fácil eu mesmo fazer. É um dos personagens mais lindos da minha história, coloco ele ao lado de Xicó, de "O Auto da Compadecida", Lourenço, de "O Cheiro do Ralo", André, do "Lavoura Arcaica", com a diferença que esse saiu da minha cabeça. Acho um personagem lindo demais, delicado, que tem uma maneira de enxergar o mundo muito peculiar, um ritmo interno diferente, sensível. Se fosse com o Wagner ou o Santoro, ia ter que ensaiar com os dois para explicar como queria. Já eu sabia que era assim, botava a roupa e fazia.

iG: Usou coisas da sua infância para criar o filme?
Selton Mello: Talvez inconscientemente. Eu me vejo na Guilhermina [menina que vive com a trupe do circo, interpretada por Larissa Manoela]. Afinal, quando tive 8 anos de idade já frequentava sets de filmagem. Eu era ela, ficava vendo tudo, os atores, os problemas, as coisas acontecendo. Guilhermina é tipo um alterego.

iG: Em Paulínia, ao responder se "O Palhaço" seria baseado na sua vida, você comentou que não e que sairia no meio de filme autobiográfico seu. Por quê?
Selton Mello: Minha vida não tem muita graça. Trabalho bastante. Viajo pouco, não sou um cara dado a grandes aventuras. Minhas aventuras eu coloco todas no trabalho. De vez quando tenho umas férias, trabalho de novo . Não faço esporte radical, ou ando de bicicleta, ou faço viagens loucas. São histórias que não dariam um filme bom. Pouca ação. É muito mais cerebral.

iG: Como foi se dirigir?
Selton Mello: Para mim, foi super tranquilo, justamente porque eu sabia o que queria. Dirigir e atuar para mim, simplérrimo. Mas para quem estava comigo podia ser maluco. Estava em cena, falando com a atriz, e olhando um carrinho passando do lado, falando que precisava ser mais rápido. Para o elenco podia ser complicado.

iG: Ajudou ter dirigido alguns episódios da série "A Mulher Invisível"?
Selton Mello: Na primeira temporada dirigi um e nessa nova, três. Ajudou bastante. Um ritmo louco, bem mais rápido. Tem uma urgência de resolver as coisas de uma maneira prática e ainda assim bonita. É um exercício muito bom.

iG: Projetos assim, independentes, são o que você gostaria de fazer na televisão?
Selton Mello: Pô, adoraria. Televisão é um negócio muito atraente. Esse episódio da primeira temporada que eu dirigi teve 20 e poucos pontos no Ibope: 40 milhões de espectadores, quatro vezes "Tropa de Elite 2". Deixa você pensando... No cinema, se faz um esforço tão grande para ser visto por 500 mil pessoas, 1 milhão, 2 milhões. Na TV, você faz um episódio que 40 milhões assistem!? Te faz pensar, pelo menos . No ano que vem, ao invés de fazer um filme, quem sabe não faço uma série? Quem sabe?

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