Gramado procura equilíbrio entre arte e tapete vermelho, afirmam organizadores

SÃO PAULO ¿ Após 37 anos, o Festival de Gramado parece ter encontrado o tom que melhor reflete as características que assumiu com o passar do tempo. Criado na década de 1970, o evento se firmou não só como janela do cinema nacional e, nas últimas edições, latino-americano, mas também como um modo de aproximar os turistas que invadem a serra gaúcha atrás das celebridades que desfilam no tapete vermelho do Palácio dos Festivais. Hoje, a organização da festa admite sem rodeios esse perfil: ao mesmo tempo em que privilegia na competição os chamados ¿filmes de arte¿, encoraja o público a ver de perto os artistas que vêem nas telas do cinema, na televisão e capas de revista.

Marco Tomazzoni |

Edison Vara/PressPhoto

Sérgio Sanz, curador de Gramado

Responsável pela curadoria ao lado do crítico José Carlos Avellar, Sérgio Sanz assumiu o posto em 2006, uma das primeiras manobras para tentar devolver prestígio ao festival, abalado pela crise do cinema brasileiro nos anos 1990, a exigência por filmes inéditos e uma seleção de gosto duvidoso. Em entrevista ao iG , Sanz admite que Gramado acabou se transformando em uma festa híbrida, talvez em busca de uma fórmula para conseguir sobreviver em meio à fartura de eventos similares espalhados pelo País (cujo principal expoente é o novato Festival de Paulínia).

A gente foi percebendo que era importante manter esse equilíbrio entre o tapete vermelho e o filme experimental, com mais propostas de ideias do que apenas entretenimento, porque é disso que o cinema mundial vive, explica o curador. Uma cinematografia só existe quando ela alcança com um leque quase todos os tipos de filmes. Percebemos que grande parte do público, se não a maioria, gosta do tapete vermelho. Gramado é isso hoje, a mistura de duas coisas.

Os homenageados deste ano são uma amostra cristalina dessa postura. Enquanto a curadoria elegeu os diretores Ruy Guerra, Walter Lima Jr. e o ator Reginaldo Faria ¿ todos com mais de 40 anos de cinema ¿ para receberem Kikitos especiais, a presidência do festival, a cargo de Alemir Coletto (ex-secretário municipal de Cultura e Turismo), optou por chamar Xuxa e Dira Paes para uma homenagem especial. A homenagem à Xuxa é puramente do Coletto, não tem nenhuma participação nossa, aponta Sanz. Ele evidentemente é mais favorável do que eu e o Avellar ao tapete vermelho. Ao mesmo tempo, tem consciência de que está presidindo um festival de cinema, e o que faz um festival existir são os filmes. Os convidados fazem é a notícia existir.

Com prudência, Coletto confirma que o festival prevê no orçamento a presença de estrelas e que toda celebridade que seja representativa para a cultura nacional é bem-vinda. Enfatiza, contudo, que as homenagens são um reconhecimento a nomes que se sobressaem na produção cinematográfica brasileira e latina. A Xuxa, assim como o Renato Aragão no ano passado, está sendo homenageada por seu histórico e relevância, já que é responsável por dois dos 10 filmes de maior bilheteria da história do País. Realista, Sanz ainda comenta: muita gente vai à Gramado só pra ver a Xuxa entrar e sair do cinema.

Edison Vara / PressPhoto

Alemir Coletto, presidente do festival

Tanta preocupação com o público está relacionada com o impacto que o evento tem na economia da cidade. Segundo Coletto, passam por Gramado ao longo da semana 120 mil pessoas, multidão que esgota a capacidade de rede hoteleira e lota restaurantes e lojas. Em uma estimativa modesta, ao menos R$ 50 milhões são injetados no município.

O orçamento do festival para este ano é de cerca de R$ 3 milhões e sofreu um baque há poucas semanas, quando o Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul e o Conselho Estadual de Cultura vetaram a captação de recursos através da Lei de Incentivo à Cultura (LIC), já que antigas prestações de contas de Gramado ainda não foram homologadas pelo governo gaúcho.

Conforme Coletto, o montante representava 25% do orçamento, o que obrigou a administração a buscar outras fontes de patrocínio privado. O presidente, no entanto, garante que nesta edição dívidas antigas serão saldadas e a meta é entregar o festival totalmente saneado e com os compromissos financeiros dos prestadores de serviço atendidos.

A expectativa para este ano vem reforçada pelo recorde no total longas e curtas brasileiros inscritos e filmes latino-americanos, o que encheu de orgulho os organizadores. O Brasil produziu algo próximo de 103 filmes de longa-metragem e nada menos do que 85 dessas produções se inscreveram para serem avaliadas pelo festival, comemora Coletto. Isso já demonstra que essa edição será representativa daquilo que de melhor foi produzido na América Latina. É um reconhecimento, uma consagração do festival pela sua relevância no cenário latino-americano.

Igualmente animado, Sérgio Sanz afirma que, apesar de novos festivais que tem aparecido ¿ uns bons, outros nem tanto ¿, Gramado continua sendo um lançador de realizadores e de filmes. Há uma perspectiva, principalmente dos jovens diretores, de ganhar Gramado ser uma porta interessante para eles começarem com cinema. E Gramado ainda é o festival mais conhecido do Brasil, salienta.

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