Gramado dá o prêmio principal a Bróder

Com lacunas e excessos, festival mostrou-se atento ao cinema jovem e articulado

Orlando Margarido, enviado a Gramado |

Edison Vara / PressPhoto
O diretor Jeferson De posa com os Kikitos ganhos no Festival de Gramado
A 38ª edição do Festival de Cinema de Gramado pode se orgulhar de ter reconhecido com todas as letras um cinema de frescor jovem e inteligente. Ao menos no que se refere à premiação principal, o júri oficial ousou fazer o que outros eventos similares recentes não arriscaram: bancar a produção de cor e sangue negros representada por Bróder . O filme do estreante em longa-metragem Jeferson De (assim mesmo, sem o complemento do sobrenome) saiu com os principais Kikitos do concurso, melhor filme e diretor, além de ator para Caio Blat. A premiação aconteceu ontem à noite na cidade serrana e contou mais uma vez com um discurso engajado e bem concatenado do realizador paulista. “Olha só que ironia desse Brasil; recusaram meu primeiro filme na Jornada da Bahia e agora sou premiado justamente aqui no sul”, disse o jovem negro.

Uma decisão difícil de contestar. Bróder , cuja carreira começou no Festival de Berlim em janeiro passado e integrou também a recente competição do último Festival do Cinema Brasileiro de Paulínia (ali premiado pela crítica), é bom e merece o feito, ainda que com os problemas de um trabalho de estréia.

Mais fácil é apontar em que os jurados de equivocaram. Um peso excessivo ao fraco e controverso Não se Pode Viver sem Amor , do veterano Jorge Durán, que já havia exibido sua pouca envergadura dramática no Festival do Recife, é o que mais chama a atenção, especialmente pelo prêmio de roteiro. Um reconhecimento técnico, digamos, pela fotografia de Luis Abramo cabe mais à carreira respeitada deste do que ao projeto.

E a escolha de Simone Spoladore pode ser considerada um eco de outros trabalhos da talentosa atriz, mas não por esta interpretação pálida. Diga-se, no entanto, que as opções para a estatueta feminina eram poucas e fracas. Curioso que o excesso também perdurou no formato do curta-metragem, com o bonito e carregado de formalismo Haruo Ohara. Ao menos reconhecer também Carreto, numa divisão de prêmio sempre questionável, fez lembrar que da humanidade e da vida real também se faz cinema.

Edison Vara / PressPhoto
A tradicional foto final com os premiados
Um último prêmio no certame nacional pode ser encaixado na sempre questionável atitude de um júri de tentar contemplar um projeto por consideração à carreira respeitada do realizador. É o caso de Geraldo Sarno com o muito debatido O Último Romance de Balzac , que ficou com o Prêmio Especial do Júri. O documentário, assim como o exemplar de mesmo gênero O Contestado – Restos Mortais, de Sylvio Back, trouxe à baila, ainda que involuntariamente, a questão do universo do espiritismo e seus recursos mediúnicos que assola o cinema nacional de recente produção. Deu pano para manga, e o debate franco e polêmico se sustentou ao final mais que o filme. Por isso mesmo, fica mais evidente o desprezo pelo belo documentário de Flávia Castro, Diário de uma Busca , lembrado apenas pelo júri da crítica. Como se fosse, aliás, uma espécie de sinalização do descompasso entre a preocupação de ser por demais cuidadoso, no caso o júri oficial, e a necessidade de se alertar para uma realização que traz a diferença, o inusitado.

Menos impactante, a premiação para os longas latino-americanos acarretou o que se pode chamar de olhar simpático e sem ousadias. Ressentiu-se mais da falta do que das escolhas, quase todas defensáveis, mas não unânimes. Nesse sentido, Mi Vida con Carlos , a produção chilena do diretor German Berger sobre a busca da memória de seu pai, um desaparecido político e morto pela ditadura de Pinochet, atende aos requisitos de uma preocupação documental e política que se espera de um júri sintonizado com um tema sempre presente na história desses países.

Isso não o isenta de olhar com mais acuidade um projeto delicado e impactante como o colombiano El Vuelco del Cangrejo , francamente descartado pelo júri oficial e acolhido pela crítica, e com menos complacência o nicaragüense La Yuma , projeto de linguagem mais popular e de diálogo com platéias maiores, ainda que embalado na raridade de sua origem – o primeiro longa de ficção em 20 anos no país – e na simpatia e força de seus atores, todos cativantes.

Melhor que a balança tenha sido reequilibrada com o forte e seco Perpetuum Mobile , que trabalha numa chave quase surreal a questão da morte tão cara aos mexicanos. Ainda que sempre possa haver lamentos e reparos a se fazer, Gramado deu um bom passo a frente no reconhecimento de uma parcela do cinema brasileiro que veio para ficar com energia e inteligência.

Veja a lista completa de premiados do 38º Festival de Cinema de Gramado:

Longa-metragem naciona l

Melhor filme: Bróder , de Jeferson De
Melhor diretor: Jeferson De, Bróder
Prêmio Especial do Júri: O Último Romance de Balzac , de Geraldo Sarno
Melhor ator: Caio Blat, por Bróder
Melhor atriz: Simone Spoladore, por Não Se Pode Viver sem Amor
Melhor roteiro: Dani Patarra e Jorge Durán, por Não Se Pode Viver sem Amor
Melhor fotografia: Luis Abramo, por Não Se Pode Viver sem Amor

Melhor Longa-metragem latino-americano

Melhor filme: Mi Vida con Carlos , de German Berger
Melhor diretor: Nicolas Pereda, de Perpetuum Mobile
Prêmio Especial do Júri: La Yuma , de Florence Jaugey
Melhor ator: Gabino Rodriguez, de Perpetuum Mobile e Martin Piroyansky, de La Vieja de Atrás
Melhor atriz: Alma Blanco, de La Yuma
Melhor roteiro: Pablo Jose Meza, de La Vieja de Atrás
Melhor fotografia: Miguel J. Littin, de Mi Vida con Carlos

Melhor curta-metragem nacional

Melhor filme: Carreto e Haruo Ohara
Melhor diretor: Rodrigo Grota, de Haruo Ohara
Melhor ator: Flávio Bauraqui, de Ninjas
Melhor atriz: Elisa Volpatto, de Um Animal Menor
Melhor roteiro: Cláudio Marques e Marília Hughes, de Carreto
Melhor fotografia: Carlos Ebert, de Haruo Ohara
Prêmio Especial do Júri: Os Anjos do Meio da Praça , de Alê Camargo e Camila Carrossine

Prêmio da Crítica

Melhor Longa-metragem nacional: Diário de uma Busca , de Flávia Castro
Melhor longa-metragem Latino: El Vuelco de Cangrejo , de Oscar Ruiz Navia
Melhor curta-metragem nacional: Babás , de Consuelo Lins
Prêmio Aquisição do Canal Brasil (curta-metragem): Haruo Ohara , de Rodrigo Grota

Júri Popular

Melhor longa-metragem brasileiro: 180° , de Eduardo Vaisman
Melhor longa-metragem estrangeiro: Mi Vida con Carlos , de German Berger
Melhor curta-metragem: Ratão , de Santiago Dellape

Troféu Cidade de Gramado (júri de estudantes de cinema)

Melhor filme: Diário de uma Busca , de Flávia Castro
Melhor filme nacional: Terra Deu, Terra Come , de Rodrigo Siqueira
Melhor filme estrangeiro: El Vuelco de Cangrejo , de Oscar Ruiz Navilla
Montagem: Quito Ribeiro e Jeferson De, por Bróder
Trilha musical: João Marcelo Bôscoli e Jeferson De, por Bróder , e John Ulhoa, Wilson Suroski, Rubens Jacobina e Diamantino Feijó, por Ponto Org
Direção de arte: Ana Dominoni, por O Último Romance de Balzac

Curta-metragem nacional

Melhor filme: Haruo Ohara , de Rodrigo Grota
Direção de arte: Vicente Saldanha, por Amigos Bizarros do Ricardinho
Montagem: Paulo Sacramento, por Ninjas
Trilha musical: Amigos Bizarros do Ricardinho

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