Governo subsidia cinemas em supermercados

Com incentivo fiscal ou capital estrangeiro, empresários investem em salas de exibição voltadas ao grande público

Guss de Lucca, iG São Paulo |

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Entrada do Cine 10 Sulacap, no Rio de Janeiro: salas de cinema dividem espaço com supermercado
É possível dividir a história das salas de cinema do Brasil em três momentos específicos: o auge, em 1975, momento em que o país contava com 3.276 espaços de exibição; a decadência, em 1997, quando o número foi reduzido para 1.075; e a retomada, em 2010, ano em que o país ganhou 110 novas salas – e a promessa de receber mais 900 nos próximos cinco anos.

De acordo com a assessoria de comunicação da Ancine (Agência Nacional do Cinema), um dos maiores diferenciais de 1975 para 2009, período em que o país contabilizava 2.110 salas, é a distribuição desses espaços, que privilegiam áreas de renda mais alta das grandes cidades da região Sudeste, quase sempre dentro de shoppings centers.

Buscando promover o aumento e descentralização dos espaços exibidores, o órgão lançou em parceria com o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Ministério da Fazenda o programa Cinema Perto de Você, cuja meta é alcançar 600 salas em quatro anos.

O primeiro complexo de salas inaugurado com o incentivo do programa foi o Cine 10 Sulacap, no Rio de Janeiro, que rompeu com o modelo baseado em shoppings centers de bairros nobres – construído dentro de um supermercado, o cinema abriu suas portas em 30 de setembro e encerrou seu primeiro mês de existência com um total de 40 mil ingressos vendidos.

"Montamos um complexo com 1.373 lugares divididos em seis salas, sendo uma delas 3D. O cinema mais próximo que a população do Jardim Sulacap tinha acesso ficava a dez quilômetros do bairro", explicou Adhemar Oliveira, da Inovação Cinemas, empresa administrada por ele e Thierry Peronne,  e responsável pelo projeto Cine 10, que se prepara para lançar seu segundo complexo, agora dentro de um supermercado no bairro do Limão, em São Paulo.

Ivone Perez
Empresários apostam em complexos de salas de exibição voltados para regiões carentes de cinemas
De acordo com Adhemar, também proprietário dos cinemas da marca Arteplex, a opção pela parceria com a rede de supermercados surgiu por uma série de facilidades, como a divisão de custos e a existência de um estacionamento gratuito para o público. Além disso, o incentivo do programa foi essencial para a criação de salas com esse perfil – dos R$ 6 milhões gastos no Sulacap, apenas R$ 2,2 milhões vieram de recursos próprios.

"Quando você monta um cinema em um shopping classe A ou na periferia, os equipamentos de projeção são iguais. Você pode gastar menos em material de acabamento, mas o custo acaba sendo similar. E o retorno que você tem pelo preço médio leva um tempo maior, pois o valor dos ingressos é menor", explicou ( leia a entrevista completa do empresário ).

Ao mesmo tempo em que a Ancine analisa projetos voltados para a criação de salas em municípios da Bahia, Rondônia e Ceará com população entre 20 e 100 mil habitantes, a operadora de cinemas mexicana Cinépolis inaugura em São Paulo o seu terceiro complexo de salas no país – em 2010 a rede lançou cinemas nas cidades de Belém do Pará, e Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

Na abertura para a imprensa do Cinépolis do Mais Shopping Largo 13, localizado na zona sul da capital paulista, o presidente da rede no Brasil, Eduardo Acuña, disse em entrevista ao iG que a carência de salas do país foi um dos grandes incentivos para a sua entrada no mercado brasileiro.

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Corredor do complexo da Cinépolis inaugurado em São Paulo: rede mexicana quer 290 salas em três anos
"Países como o México, Alemanha e França, por exemplo, têm uma média de 24 mil habitantes por sala de cinema. No Brasil, esse número cresce para 80 mil", contou. "Vimos uma oportunidade no país e estamos apostando na abertura de 290 salas nos próximos três anos."

Apesar de seus primeiros complexos se localizarem dentro de shoppings, Eduardo não descarta outras possibilidades, e chegou a estudar a abertura de um cinema de rua. "Tanto a compra como o aluguel do terreno eram muito caros, o que inviabilizou o projeto. Mas estamos abertos a oportunidades", explicou.

A grande dificuldade citada pelo presidente é o alto valor de uma sala de exibição no país, que chega a custar 80% mais caro do que um espaço idêntico no México. "Enquanto no México conseguimos montar cinemas de sete salas em cidades com 70 mil habitantes, no Brasil fica inviável pensar em investimentos do porte em cidades com menos de 300 mil. O 'custo Brasil' é muito alto."

Mesmo assim, o crescimento do poder aquisitivo das classes C e D é estímulo suficiente para a gigante mexicana – que tem em seu país mais salas do que o total atual do Brasil – manter sua aposta baseada na experiência que é ir ao cinema – leia a entrevista completa do presidente da Cinépolis .

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