Gay Talese analisa sua carreira na Festa Literária de Paraty

Paraty recebeu neste sábado em sua Festa Literária o jornalista norte-americano Gay Talese, um dos inventores do New Journalism, que na década de 1960 revolucionou a prática jornalística.

AFP |

Talese, de 77 anos, chegou com status de estrela à bela cidade colonial localizada a 250 km do Rio de Janeiro (sudeste).

Sua mesa literária foi uma das mais concorridas ao lado da do cantor e escritor brasileiro Chico Buarque, realizada na sexta-feira à noite. Muitas pessoas tiveram que sentar no chão da Tenda dos Autores, onde os debates são realizados.

O sucesso mostra que, mesmo com as mudanças drásticas atravessadas pelo jornalismo nos último anos, o modelo consagrado por Talese é tão admirado quanto difícil de ser atingido.

Gay Talese foi, ao lado de figuras como Truman Capote e Tom Wolfe, um dos inventores do New Journalism, corrente que introduziu a narrativa literária à escrita jornalística, tornando o próprio jornalista o personagem principal de suas reportagens.

"Nunca quis escrever notícias. Sempre gostei de escrever sobre a variedade de comportamentos humanos", afirmou, acrescentando que prefere abordar a vida das pessoas comuns.

"Como jornalista de esportes, no início de minha carreira, em uma luta de boxe, por exemplo, escrevia sobre a pessoa que tocava o sino ou sobre a mãe do boxeador que chorava ao vê-lo apanhando", explicou.

Ao fazer uma retrospectiva de sua bem-sucedida carreira, Talese, que estava impecavelmente vestido, como de hábito, resumiu: "Ao entrar na intimidade das pessoas você se torna um conspirador. Eu já conspirei com mafiosos e massagistas. Isso ia contra a minha formação católica, mas queria conhecer os pecadores da minha época", disse.

"Se você não consegue ser uma das pessoas sobre as quais escreve, então é incapaz de escrever sobre elas", acrescentou.

O experiente jornalista explicou como experiências, que em tese seriam frustrantes para um jornalista, tornaram-se um sucesso em suas mãos, como foi o caso de "Frank Sinatra has a cold" (Frank Sinatra está resfriado), quando em 1966 elaborou para a revista Esquire uma das maiores reportagens de todos os tempos, mesmo sem ter conseguido entrevistar o ícone da música mundial.

"Como ele (Frank Sinatra) não quis falar comigo, o que eu fiz foi conversar com as pessoas a sua volta. Mesmo as pessoas mais comuns são complexas", explicou o autor de obras como "The neighbor's wife" (A mulher do próximo).

Ao concluir sua participação em Paraty, Talese falou sobre sua preferência pela não-ficção em suas obras.

"Meu maior desafio é aliar a não-ficção à intimidade. Em 'A mulher do próximo', usei meu verdadeiro nome, assim como usei os nomes verdadeiros daqueles que acompanhei. Isso é honesto", ressaltou, recebendo os aplausos do público presente.

dm/LR

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