Ganhadores de Berlim são destaque da competição latino-americana em Gramado

SÃO PAULO ¿ A falta de festivais de expressão na América Latina fez com que Gramado, a partir da década de 1990, quando a competição foi aberta para produções estrangeiras, se tornasse uma plataforma de boa visibilidade no continente. Se no ano passado o prestígio do evento se limitou a 12 longas latinos interessados em participar, nesta edição houve um número recorde de inscritos: 43 filmes.

Marco Tomazzoni |

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Uruguaio "Gigante", de Adrián Biniez, conquistou três prêmios no Festival de Berlim

O súbito interesse pode refletir tanto um período intenso da produção latino-americana quanto a consolidação de Gramado no calendário cinematográfico internacional. O curador Sérgio Sanz aposta na segunda opção. Uma das coisas que ajudam o Brasil neste momento é que nós conseguimos há alguns anos ficarmos estáveis e isso faz com que a gente ganhe credibilidade, defende.

Não é o caso, por exemplo, de outro conhecido festival da região ¿ Mar del Plata, na Argentina, famoso por receber na década de 1960 figuras como François Truffaut, Píer Paolo Pasolini, Jacques Tati e Paul Newman, foi fechado durante o regime militar e ao ser reaberto, no início dos anos 2000, sofreu com a crise argentina e desde então padece de uma periodicidade indefinida.. Isso acaba gerando uma desconfiança nos cineastas, vai ter o ou não vai ter de novo?, diz Sanz.

O lado positivo é que, com isso, Gramado acaba atraindo filmes prestigiados, como os dois grandes vencedores do último Festival de Berlim. La Teta Asustada, de Claudia Llosa (sobrinha do escritor Mario Vargas Llosa) ganhou o Urso de Ouro e foi recebida com festa em Lima, no Peru. Escrito pela própria diretora, o roteiro é baseado no mito andino de que as mulheres estupradas durante o governo militar traumatizavam seus filhos ao dar-lhes o seio para mamar.

O Peru vem lentamente crescendo nos últimos anos, explica o curador. Lembro que há uns 12 anos fui filmar lá e eles produziam um filme, às vezes dois por ano, e foram lentamente ocupando seu espaço, com mais regularidade que o Chile, por exemplo, que a um dado momento produziu 20, 25 filmes e três anos depois, produziu apenas quatro.

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Vencedor do Urso de Ouro, "La Teta Asustada" é o 2º filme da peruana Claudia Llosa

Se La Teta Asustada ganhou o prêmio máximo de Berlim, o uruguaio Gigante conseguiu a proeza de receber três: o Urso de Prata (Grande Prêmio do Júri), o prêmio de obra estreante e o prêmio Alfred Bauer de inovação cinematográfica. Dirigida pelo argentino Adrián Biniez, a história gira em torno de um segurança de supermercado que se apaixona pela faxineira ao vê-la pelo circuito interno de televisão. O longa estreia no Brasil no dia 21 de agosto e já é considerado, ao lado de La Teta Asustada, sério concorrente ao Oscar 2010 de filme estrangeiro.

Cinema político

Outra estrela da competição é o documentário La Próxima Estación, dirigido pelo argentino Fernando Solanas e único filme convidado diretamente pela curadoria a integrar o festival. Conhecido por seu cinema engajado, o veterano diretor já ganhou diversos prêmios internacionais, incluindo Cannes e Veneza, e também tem chamado atenção nos últimos anos pela sua carreira política ¿ Solanas foi recentemente eleito a deputado federal com uma votação estrondosa e se especula uma segunda candidatura do diretor à presidência da república.

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O argentino "Lluvia"

La Próxima Estación é o quarto documentário de uma série de cinco sobre a sociedade argentina contemporânea, abordando temas como democracia, corrupção, privatizações, pobreza e crise energética. O filme enfoca a crise e privatização da rede ferroviária argentina e suas consequências junto aos trabalhadores, cidades e economias regionais.

Também da Argentina vem Lluvia, dirigido por Paula Hernández, que teve sua estreia no cinema, Herencia, exibida no Brasil. O filme recebeu sete indicações à premiação concedida pelos críticos argentinos e conta como um homem e uma mulher, em um período turbulento de suas vidas, se conhecem em meio a um engarrafamento numa noite chuvosa de Buenos Aires.

O quinto e último concorrente estrangeiro é o colombiano Nochebuena, retorno ao cinema de Camila Loboguerrero, que há 18 anos não dirigia um filme. O cinema da Colômbia está crescendo e daqui a pouco a gente vai começar a ouvir falar muito de lá, afirma Sérgio Sanz. Comédia de humor negro, a história enfoca o encontro de uma família na véspera de Natal (a nochebuena do título).

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