François Ozon voa alto com "Ricky"

Multifacetado, diretor francês combina naturalismo e realismo fantástico no longa

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Divulgação
Sergi López, o pai de "Ricky"
François Ozon não para de surpreender. Com uma personalidade mutante, o diretor francês tem em pouco mais de uma década de carreira dez longa-metragens no currículo, obras tão díspares quanto sua estreia, “Sitcom – Nossa Linda Família”, passando pelo musical “8 Mulheres” (em cartaz nesta 33ª Mostra, na homenagem a Fanny Ardant) até “Swimming Pool – À Beira da Piscina” e “O Tempo que Resta”. A mudança de tom surge mais uma vez em “Ricky”, exibido na competição do Festival de Berlim, que ainda tem três sessões na Mostra de São Paulo.

A princípio, Ozon tece um retrato quase naturalista da periferia de Paris. Mãe solteira, Katie trabalha em uma fábrica de produtos de limpeza e mora sozinha em um subúrbio com a filha de 7 anos, a pequena Lisa, tão independente que até assusta. A rotina solitária das duas sofre um baque com a chegada de Paco (Sergi López, de “Harry Chegou Para Ajudar”), imigrante espanhol que Katie conhece no trabalho e logo se torna seu namorado.

Aquele núcleo familiar tão bem resolvido, principalmente para Lisa, vira do avesso com a chegada de um novo “pai”, que de fato se transforma em um quando Katie engravida. Nasce Ricky, uma linda criança loira, saudável, mas que por alguma razão chora insistentemente. Paco não parece ser lá um pai exemplar e aí as coisas mudam de rumo. Sem domar a imaginação, o filme abraça as asas do realismo fantástico e gira em torno do próprio eixo.

O espectador, que até então se mantinha atento a uma história tradicional, se vê sentado na beira da poltrona com a direção que as coisas tomam, embora pistas estivessem sendo soltas aqui e ali. A reviravolta acende um clima de mistério e deslumbramento que tem como único pecado uma introdução que parece longa demais. Parece porque, no fim das contas, “Ricky” é justamente aquilo a que se propunha, uma reflexão sobre a família, e a justaposição entre as duas partes só acentua esse aspecto, guiando os personagens para o desfecho.

Com total consciência de que está conduzindo uma espécie de conto de fadas moderno, Ozon repassa esse didatismo para a narrativa, linear e sem arroubos nos enquadramentos. A direção de fotografia segue o mesmo preceito: cinza e fria no início, ensolarada no final, em sintonia com o termômetro da trama. Um prato cheio para qualquer tipo público, que o brasileiro deve conferir no final de janeiro, quando a estreia de “Ricky” está prevista no País.

“Ricky” na Mostra Internacional de São Paulo. Terça-feira (27), às 22h, Cinemark Shopping Eldorado. Sexta-feira (30), às 22h10, no HSBC Belas Artes 2. Domingo (01/11), às 17h40, no Cinesesc.

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