Fim do relacionamento é matéria-prima para ex-casal debater no palco da Flip

PARATY ¿ A Flip vai abrigar na manhã deste sábado (04) um encontro inédito no Brasil e no mundo. Pela primeira vez, a conceituada artista plástica francesa Sophie Calle e seu ex-namorado, o escritor Grégoire Bouillier, vão se encontrar em público, na mesa ¿Entre Quatro Paredes¿, para debater o trabalho de ambos, inspirado no término da relação. Ele transformou a experiência em livro e ela, numa exposição que chega a São Paulo na semana que vem. A expectativa de que o casal ¿lave roupa suja¿ no palco da Tenda dos Autores é inegável, mas é bem pouco provável que isso aconteça.

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |

Divulgação/Edu Girão

Sophie Calle na coletiva

Representante da França na Bienal de Veneza de 2007, Calle criou a exposição "Cuide de Você" ("Prenez Soin de Vous"), que estreia no Sesc Pompéia e depois segue para Salvador. Na mostra, a artista exibe a reação de 107 mulheres ao e-mail de rompimento enviado por Bouillier, em mais um projeto em que apagou as linhas da arte e a realidade. Para ela, no entanto, o expediente é natural e, mais do que isso, até necessário.

Na vida real, me sinto muito frágil com meus sentimentos. Meus projetos são uma maneira de lidar com isso e fabricar relações unilaterais, seguras, que não me oferecem risco, confessou Calle, tímida, na coletiva de imprensa realizada hoje. Assim que estou sentindo alguma emoção, fico me perguntando o que vou fazer com isso. Como disse meu amigo Jean Baudrillard, este gesto me protege do sofrimento.

Bouillier tem uma relação distinta com suas experiências. O autor ¿ que já foi processado pelos pais na época de lançamento de seu livro de estreia, o autobiográfico Relatório Sobre Mim (Rapport Sur Moi, 2002) ¿ garantiu em entrevista que não gosta da separação entre ficção e realidade. Geralmente, a realidade ultrapassa a ficção, e é essa ultrapassagem que me interessa. O trabalho do escritor é justamente juntar a ficção com a realidade, manipulá-las.

Recém publicado no Brasil, O Convidado Surpresa mostra como Bouillier e Calle se conheceram no aniversário da artista, que costuma comemorar em uma festa na qual convida o mesmo número de pessoas dos anos que completa, mais um, que era o escritor. O fato de usar sua própria vida como tema não é um ato egocêntrico, como ele procurou explicar. A literatura serve justamente para mergulhar na interioridade, coisa que o cinema, por exemplo, não consegue captar. Ninguém acreditava que isso realmente tinha acontecido, então meu desafio foi colocar palavras nesse evento. Não acho que se possa recriminar o escritor por colocar-se na obra. Essa lógica de nossa época, da cultura de celebridades, está sendo usada para criticar a ficção, e devia ser o contrário.

Divulgação/Edu Girão

Grégoire Bouillier em rua de Paraty

O dia-a-dia como inspiração para a arte, pelo menos na opinião de Sophie, não significa necessariamente que sua vida esteja à disposição do mundo. Segundo a artista, suas obras retratam apenas sentimentos universais. Às vezes as pessoas acham que por conhecerem meu trabalho, conhecem minha intimidade. Estão erradas. Estou falando de coisas banais, uma separação, uma pessoa que sigo na rua. Não é minha intimidade, é a vida. Em Cuide de Você, se sabe que é uma carta de separação, mas só é um exemplo de uma correspondência entre homem e mulher ¿ a forma, o conteúdo são típicos.

Sobre o encontro em Paraty, Bouillier se limitou a dizer que foi convidado por Calle e não viu motivo para não aceitar. Ela, por sua vez, afastou qualquer especulação de que a conversa seja uma manobra marqueteira para promover o livro do ex-namorado. Marketing não foi o mote dessa ideia. Essa história merece ser contada e esse encontro tem sentido pela exposição estar estreando em São Paulo. Não há tensão nenhuma nisso, é só uma troca, e estou feliz.

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