"Filmes ruins são os que pagam melhor", diz Stephen Dorff ao iG

Ator de "Um Lugar Qualquer", de Sofia Coppola, deu entrevista em Veneza e falou sobre crise antes de trabalhar: "não estava feliz"

Mariane Morisawa, especial para o iG |

Getty Images
Fiz uns 30 filmes e nunca senti nada parecido antes", disse Dorff sobre "Um Lugar Qualquer
Stephen Dorff é uma cara conhecida. Filho de um compositor de trilhas para filmes e séries de televisão, o ator de 37 anos cresceu em Hollywood e começou a trabalhar quando tinha 12. Aos 22, destacou-se em "Backbeat – Os 5 Rapazes de Liverpool" e depois engatou projetos de maior porte, como "Blade" e "Inimigos Públicos". Mas é com "Um Lugar Qualquer" , de Sofia Coppola, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza e estreia desta sexta-feira (28), que sua carreira dá uma virada.

Ele interpreta o astro de filmes de ação Johnny Marco, meio perdido em sua vida sem sentido até que sua filha de 11 anos (Elle Fanning), com quem tem pouco contato, vem passar uma temporada com ele no hotel onde mora. Dorff falou ao iG durante o Festival de Veneza. O ator falou sobre a crise que enfrentou com a morte da mãe, a perda do amigo Dennis Hopper, o trabalho em "Um Lugar Qualquer", filmes ruins e seus próximos trabalhos. Leia abaixo a entrevista completa.

iG: Quando Sofia ofereceu este papel, você ficou preocupado, já que não é um personagem muito simpático?
Stephen Dorff: Na verdade eu senti muita empatia com Johnny Marco. Ele tem falhas e obviamente está sofrendo muito, me emocionou muito no papel e foi muito claro que eu seria louco de não aceitar, porque acredito que seja o melhor papel de minha carreira, no momento certo, porque eu estava atravessando mudanças. Estava voltando a fazer bons filmes, como "Inimigos Públicos", mas querendo esse tipo de papel. E do nada a Sofia me liga. É um ponto de virada na minha carreira. O personagem é um jovem pai, nunca tinha visto um pai de uma adolescente cuja filha é quase mais sofisticada do que ele. Achei tão original. Normalmente caras jovens como eu não recebem roteiros como este. Acho que minha mãe estava trabalhando comigo neste filme, porque o personagem é do tipo que ela queria que eu fizesse, ela sempre quis que eu mostrasse meu coração, que mostrasse o que ela achava que eu sou. Sempre achou que eu não era tão mau quanto os caras que costumava interpretar.

iG: Que transição é essa da sua vida?
Stephen Dorff: Eu amadureci, e minha mãe ficou doente, eu a perdi. Ela tinha só 59 anos, era tudo para mim, minha melhor amiga. Nunca tinha perdido ninguém assim. Agora que estou envelhecendo, estou perdendo amigos. Perdi Dennis Hopper, que esteve muito envolvido no início da minha carreira, que sempre me apoiou, me apresentou a Jack Nicholson, o que levou a "Sangue e Vinho". É estranho. Mas isso me fez repensar minha vida e me deu foco. Fiquei muito próximo das filhas de Sofia, Romy agora tem 4 anos, mas ela é minha melhor amiga (risos). E trabalhei com Elle, essa atriz jovem e incrível. Nunca fui muito próximo de crianças, então não sei se eu deveria ter filhos agora... (risos) Talvez um dia.

iG: Isso mudou você como ator?
Stephen Dorff: Fui capaz de interpretar o papel de uma forma diferente. Podia ter “interpretado”, mas não do jeito como foi. Eu posso alcançar qualquer nota, mas a sofisticação do papel, a sutileza, o controle do meu trabalho, isso veio de muitas coisas, da perda da minha mãe. Na última cena, Sofia me disse alguma coisa sobre minha mãe, o que me fez sorrir e ao mesmo tempo chorar. O processo todo foi muito estranho. Fiz uns 30 filmes e nunca senti nada parecido antes. Foi o momento perfeito para ela me abrigar e para eu abraçar o papel. Eu podia ter caído numa espiral como o personagem depois da morte da minha mãe, porque fiquei com muita raiva. Não queria acreditar em nada. Não estava feliz.

iG: Como lidou com essa raiva?
Stephen Dorff: Bem, fiz muitas tatuagens. E Michael Mann insistiu muito para eu trabalhar com ele em "Inimigos Públicos", disse que ia me ajudar. E, de fato, me ajudou. Mas eu estava muito perdido antes e continuei muito perdido depois. "Um Lugar Qualquer" foi como uma flor que caiu no meu colo. O fato de ela ter me dado o papel no dia em que minha mãe morreu... Senti como se minha mãe me desse sua bênção, me libertasse da escuridão. Senti que tinha de me recuperar e dar orgulho à minha mãe. A última coisa que eu queria era enveredar por um caminho como o de Johnny Marco, sair nos tabloides e ser preso por algo estúpido. É muito difícil perder alguém tão jovem e ainda sofro todos os dias, mas está melhorando. Coisas legais estão acontecendo.

iG: O que acontece quando você escolhe fazer filmes ruins?
Por sorte, eu só me arrependo de poucos. Mas isso acontece com todos, eu vejo De Niro fazendo filmes ruins. As pessoas têm estilos de vida caros, e os filmes pagam as contas. Eu mesmo criei um estilo de vida caro para mim, provavelmente não tanto quanto o de De Niro, mas tenho duas casas, gosto de comprar arte, gosto de gastar dinheiro. Infelizmente, os filmes ruins é que pagam melhor.

iG: O que é verdade e o que é falso na vida de um astro?
Stephen Dorff: Acho tudo muito realista no filme. Não dá para ficar mais real. Quando você vê um programa bobo como [a série] "Entourage", aquilo é zero. Ela toca em emoções verdadeiras, uma vida verdadeira. Ser ator é muito isolado, solitário. Hoje posso estar falando com repórteres. No set, fico três meses com aquelas pessoas e depois acaba. Claro, vou vê-los de novo. Mas aí vou para casa e não tenho um escritório. Entre filmes, não há trabalho. Fico sentado, espero, vejo minha família. Fico meio frustrado. Ligo para meus amigos para convidar para almoçar, e eles não podem, estão trabalhando.

iG: Como você escolhe seus próximos filmes?
Stephen Dorff: É difícil, depois desse papel. Escolhi um até agora, "Immortals", com Mickey Rourke e Freida Pinto, tem orçamento de US$ 100 milhões. É um papel meio como Han Solo. Um filme tipicamente comercial, mas com Tarsem Singh dirigindo, espero que seja legal. E tenho essa comédia escrita por Adam Sandler, "Born to Be a Star". Faço um astro pornô. Achei legal, porque sempre estou fazendo papéis mais pesados. Ele foi meu treinador, porque nunca tinha feito uma comédia assim. Eu precisava ser loiro, propus usar cabelo longo, com megahair. Aí quando comecei a trabalhar com a Elle Fanning, a gente se encontrava, para criar laços, e eu estava com esse cabelo ridículo! Tive de explicar que estava fazendo esse papel. E eu não sabia como dizer a ela que era um ator pornô, disse que era um surfista (risos). Adoro trabalhar, mas não há tantos bons filmes por aí, sobre comportamento real e seres humanos. Tem muita coisa sobre política, sobre heróis de quadrinhos, ou sequências, ou "Missão: Impossível parte 9".

Assista ao trailer de "Um Lugar Qualquer":

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