Filmes reabrem feridas francesas sobre a Argélia

Convivência com imigrantes muçulmanos traz à tona passado colonial e preocupação com identidade francesa

The New York Times |

A experiência colonial francesa na Argélia, marcada por guerra, terrorismo e tortura, é uma ferida que parece não fechar nunca. Raiva e culpa sobre a Argélia infundem parte da ansiedade atual sobre os banlieues, ou periferias, habitados principalmente por imigrantes muçulmanos, a preocupação com a identidade nacional francesa, o islã radical e as mulheres que usam véus.

Ultimamente, a França foi abalada por dois filmes sobre a Argélia e o confronto francês com o seu passado colonial. Os filmes não poderiam ser mais diferentes: um, feito por Rachid Bouchareb, um francês de origem argelina, é uma ficção histórica sobre a fúria da luta pela independência da Argélia, o outro, feito por Xavier Beauvois, é voltado à crença religiosa e santidade.

Mas ambos se passam em um período de violência. O primeiro naquele em que combatentes argelinos em busca da independência pela Frente de Libertação Nacional, ou FLN - terroristas para os franceses - começaram a luta terrível e sangrenta para expulsar o governo francês. E o segundo quando o Islã radical ganhava espaço na Argélia e tentava tomar o poder em uma guerra civil, num esforço esmagado pelo próprio governo argelino.

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Des Hommes et Des Dieux vendeu mais de 2 milhões de ingressos em cinco semanas
Um filme apresenta mártires argelinos e o outro mártires franceses. Ambos são extremamente desequilibrados e ambos utilizam o "outro" como fantoches de um drama histórico. Um glorifica a criminalidade e o terrorismo em nome da liberdade e da justiça argelina, enquanto o outro, que se passa em meados da década de 1990, observa horrorizado como a religião se misturava com a política argelina e procurava justificar assassinatos e terrorismo.

No entanto, ambos os filmes foram escolhidos por seus respectivos países, a França e a Argélia, para representá-los no Oscar de língua estrangeira, cujos escolhidos serão anunciados no dia 27 de fevereiro.

"É uma ferida", disse Benjamin Stora, um dos melhores historiadores da França sobre a Argélia e o colonialismo francês. "A Argélia é a França, ela é parte da história do nacionalismo francês. A Argélia continua a obcecar as pessoas e ainda atormenta a sociedade francesa".

Homens e deuses

O filme de Beauvois, Des Hommes et Des Dieux (Sobre Homens e Deuses, em tradução livre) é um drama calmo e contemplativo sobre a fé, que vendeu mais de 2 milhões de ingressos no país em cinco semanas. Nele estão alguns dos melhores atores da França, incluindo Michael Lonsdale e Lambert Wilson, em uma história em grande parte verdadeira sobre um grupo de nove monges que vivia entre os pobres da Argélia no mosteiro de Tibhirine, onde eles decidiram permanecer mesmo quando o perigo se aproximava.

Em março de 1996, sete deles foram sequestrados durante a guerra civil argelina, detidos por dois meses e encontrado mortos, degolados, em maio do mesmo ano. Os detalhes de seu sequestro e morte permanecem obscuros, embora o Grupo Islâmico Armado (GIA) tenha assumido a responsabilidade.

O filme tocou algo profundamente a França, um país em grande parte católico, extremamente orgulhoso da sua laicidade constitucional, mas também assombrado pela perda da abnegação e da fé.

Repercussão

O jornal Le Monde disse:''Os monges de Tibhirine encarnam tudo que o público, da esquerda e da direita, já não encontra na sociedade: a nobreza de espírito, um sentido de sacrifício, liberdade, sinceridade, ecologia, meditação e reflexão diária sobre a morte”. O L'Express disse que o filme “oferece uma magnífica resposta aos terroristas, bem como aos soldados, enquanto mostra os tormentos dos que recusam a lógica da guerra”. O Le Figaro foi mais longe e disse que o filme tocou na inquietação contemporânea da "onda muçulmana e a situação dos cristãos no mundo muçulmano em geral”.

Embora o assassinato dos monges paire sobre a narrativa, e os próprios monges falam sobre o significado do sacrifício que sentem se aproximar, o filme é idílico e curiosamente apolítico. A obra parece estranhamente ignorante da implantação colonial que o mosteiro representa, tantos anos após a Argélia conquistar a sua independência, e que o próprio proselitismo da Igreja Católica Apostólica Romana representa. É um estranho esquecimento de um país pobre e dividido, onde a jihad está em ascensão como resposta ao próprio campesinato entre o qual os monges vivem tão alegre e cegamente.

Hors-la-loi (Fora da Lei, em tradução livre) é um filme mais simples, de ação, com muito barulho, discurso e sangue. Quando foi exibido pela primeira vez, no Festival de Cannes, agentes policiais da tropa de choque se posicionaram nas proximidades para lidar com a raiva dos manifestantes franceses e o longa foi um fracasso comercial no país.

O jornal Le Parisien o chamou de “o filme que perturba” porque é uma acusação enraivecida e grosseira do domínio colonial francês, abrindo com o massacre de civis desarmados, na maioria argelinos, por soldados franceses na cidade de Setif em maio de 1945 - civis que viram o fim da Segunda Guerra Mundial, como muitos na África e na Indochina, como o marco do fim do império francês.

Guerra

A Argélia finalmente conquistou a sua independência em 1962, após uma guerra que abalou a França, derrubou a Quarta República e fez com que quase 1 milhão de cidadãos franceses da Argélia, conhecidos como pieds noirs (pés escuros, em tradução livre), e pelo menos 100 mil argelinos QUE apoiavam o Estado francês, conhecidos como harkis, emigrassem em massa para França.

O filme traz três atores franceses de ascendência do norte da África (nenhum deles argelino) interpretando três irmãos que sobrevivem ao massacre de Setif – descrito como um ato de barbárie, com civis desarmados alinhados contra paredes e alvejados na nuca. Os irmãos emigram para a França, onde se envolvem na revolução argelina, arrecadando dinheiro e atacando a polícia francesa, bem como rivais mais moderados da Argélia.

A história da luta da FLN dentro da França é pouco conhecida, e a história dos irmãos é convincente. Mas é o esforço de Bouchareb em comparar a FLN à resistência francesa contra os nazistas, que é mais controversa e impulsiona a maioria dos críticos franceses. Bouchareb diz que os protestos são ignorantes e que o filme é sobre “injustiça” e revelou aos repórteres em Cannes que "sociólogos e outros especialistas é que devem dizer por que as pessoas acham tão difícil visitar o passado na França”, como se o passado guarda uma clareza que a política atual não tem.

Para Stora, os filmes apresentam argumentos diferentes sobre política, sacrifício e fé. Mas em ambos os filmes, ele disse: ''a Argélia está ausente”.

A Argélia não é o Vietnã da França, ele disse, mas algo mais arraigado. ''É muito mais complicado exorcizá-la aqui e, além disso, ainda temos os pieds noirs e os harkis", disse. "A França está ficando um pouco mais envolvida nesta parte da sua história", com mais documentários na televisão. "Mas, por enquanto, os franceses ainda não podem ver sua tragédia na telona”.

*Por Steven Erlanger, com contribuição de Maia de la Baume

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