Filmes médios e classe C devem garantir cinema brasileiro em 2011

Especialistas acreditam que bom momento do setor deve continuar no próximo ano; conheça os lançamentos mais esperados da temporada

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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"Tropa de Elite 2": fenômeno foi trampolim para ano histórico no mercado do cinema nacional
2010 foi um ano de recordes no cinema nacional. O fenômeno "Tropa de Elite 2" não só é o filme brasileiro mais visto de todos os tempos, com 11 milhões de espectadores, como também ultrapassou nesta semana "Avatar" e é campeão de bilheterias da história no país: R$ 102,6 milhões, contra R$ 102,3 milhões do poderoso épico 3D. O filme de José Padilha, ao lado de outros como "Chico Xavier" e "Nosso Lar", serviu de trampolim para o cinema brasileiro bater uma marca histórica: conseguiu seu maior público acumulado desde 2003, ano considerado até então imbatível, e deve fechar dezembro acima de 23 milhões de pessoas. O clima, sem dúvida, é de comemoração, mas esse quadro superlativo é sinal de que o setor deixou os tempos de coadjuvante para se aventurar em definitivo como protagonista em 2011?

A visão, em geral, é otimista. Para Paulo Sérgio Almeida, diretor do Filme B, portal que analisa o mercado cinematográfico, o momento demonstra a maturidade do cinema nacional. "Aos poucos, a produção do cinema brasileiro adquiriu a preocupação de acertar mercadologicamente", afirma. "Existem grupos distintos de produtores e diretores: uns buscam sucesso, outros prestígio, para serem culturalmente importantes e frequentarem os principais festivais, e outros fazem um cinema radicalmente autoral, de onde tem surgido surpresas interessantes."

Um indício da nova fase, segundo Almeida, é que os sucessos nacionais recentes conseguiram transpor a barreira dos fenômenos televisivos – no passado, boas bilheterias ficavam quase que restritas a longas da Xuxa e dos Trapalhões, amparados por sua presença constante na telinha. "O cinema brasileiro descobriu um nicho importante, que é o espírita, voltou a investir noutro que historicamente sempre deu certo, a comédia, e ainda rompeu aquela máxima de que ninguém queria mais saber de violência em favela."

Proprietário da marca Arteplex e sócio da Inovação Cinemas, rede que pretende abrir salas em hipermercados e outros locais de apelo popular, o empresário Adhemar Oliveira afirma que a situação vem se desenhando há algum tempo. "Cinema é sempre uma loteria. Estamos vivendo um caminho de aposta há uns 10 anos e neste houve a felicidade dos filmes falarem com um público maior. É resultado dessa perseverança." Além disso, Bruno Wainer, diretor da distribuidora Downtown Filmes, destaca que ficou mais fácil encontrar produções nacionais nos cinemas. "A janela entre um filme e outro diminuiu, o que acaba beneficiando projetos menores como 'Muita Calma Nessa Hora' [uma surpresa, até agora com 1,28 milhão de espectadores]."

Oliveira, no entanto, encara o futuro com prudência e afasta o oba-oba. "Os últimos cinco anos foram uma gangorra. Temos que passar três ou quatro sem cair." O empresário se refere à oscilação do público nacional ao longo da década. Depois do pico em 2003 (22 milhões de espectadores), foram registradas quedas consecutivas até 2006 (9,9 milhões), crescimento no ano seguinte (10,3 milhões), baixa de novo em 2008 (8,8 milhões) e um bom resultado no último ano (15,9 milhões). A produtora Mariza Leão ("De Pernas Para o Ar", "Meu Nome Não É Johnny") tem esse quadro bem claro na memória. "É preciso baixar a ansiedade. Todo ano com um bom resultado teve uma decepção no próximo", lembra.

Meio de campo na produção

Apesar de promessas como o próprio "De Pernas Para o Ar" – que já fez 125 mil espectadores na pré-estreia, no Natal – e "Bruna Surfistinha", não há no calendário de 2011 nenhum filme com potencial tão arrasador quanto "Tropa 2". Por isso, um caminho para manter um percentual competitivo de público para o cinema brasileiro, segundo Adhemar Oliveira, seriam filmes medianos, um meio termo entre blockbusters e longas declaradamente artísticos. "O que falta nesse mercado são produções médias, com público de 500 mil a 800 mil pessoas, que encham o colchão, como 'Muita Calma Nessa Hora'. Na hora em que houver um número de filmes que faça esse meio de campo, haverá uma estabilidade de crescimento", afirma. "No lugar de 'Tropa', quem sabe não teremos oito filmes de um milhão de espectadores? Assim, se amplia o universo do mercado, diversifica", complementa Mariza Leão.

Para o diretor do Filme B, 2011 deve registrar ao menos 15 milhões de espectadores para o cinema nacional. Isso é reflexo tanto de uma incipiente produção em escala quanto da demanda imposta por um novo grupo de consumidores que aqueceu o mercado – até o início de dezembro, o público total de espectadores teve um aumento de 22,7% em relação ao ano passado e a participação dos filmes brasileiros no mercado saltou de 15,4% para 19%. "Esse fenômeno não é passageiro. Pela primeira vez num passado recente se tem notícias confirmadas de que a classe C está indo ao cinema. A expansão das salas para os bairros e novas cidades vem possibilitando que o ato de ir ao cinema seja mais barato do que era antigamente", diz Paulo Sérgio Almeida.

Bruno Wainer concorda e afirma que, depois dos eletrodomésticos, a classe C agora "quer consumir cultura e procura filmes brasileiros". Na opinião de Adhemar, a escolha está relacionada à vontade de ver sua realidade representada nas telas. "Estamos vivendo um momento diferente na sociedade brasileira. Há um orgulho, uma busca pela construção da imagética própria do país. Tem na TV, por que não no cinema?"

Segundo Paulo Sérgio Almeida, nenhum filme ultrapassa a marca de seis milhões de espectadores sem a classe C e, salvo franquias famosas ("Homem Aranha" e "A Era do Gelo", por exemplo), só o filme brasileiro tem poder de atraí-la para dentro dos cinemas. "O filme nacional tem comunicação maior por causa da ausência de legenda – não é à toa que várias produções estrangeiras estreiam com copias dubladas. Mas o filme brasileiro ganha pela comunicacao direta. O primeiro fator que leva alguém ao cinema é o assunto. Quando a ideia é de falar com o grande público, a competição sempre pende para o nosso lado."

Veja abaixo a lista dos lançamentos com promessa de bilheteria nos primeiros meses de 2011:

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Comédia "De Pernas pro Ar" é a aposta do verão
"De Pernas pro Ar", 31 de dezembro
A comédia estrelada por Ingrid Guimarães aproveita o final de ano para colocar nas telas uma história apimentada. Ao lado de Maria Paula, a atriz comanda uma sex shop – só essa frase já é suficiente para atrair boa parte do público alvo. Nos últimos anos, janeiro se firmou como um bom período para o cinema brasileiro. Foi assim com "Meu Nome Não é Johnny" (2008) e "Se Eu Fosse Você 2" (2009), mas não para "Lula, o Filho do Brasil". "Verão é para a comédia, combina melhor com calor, praia e cinema", explica a produtora Mariza Leão. Em pre-estreia em 300 salas desde o Natal, "De Pernas pro Ar" confia no boca a boca para emplacar, embora já tenha uma meta estabelecida. "Nosso dever de casa é um milhão de espectadores", diz Mariza. Leia entrevista com Ingrid Guimarães e assista ao trailer

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Deborah em cena do filme "Bruna Surfistinha"
"Bruna Surfistinha - O Doce Veneno do Escorpião", 25 de fevereiro
Deborah Secco comanda a adaptação do best-seller confessional da garota de programa e atriz pornográfica Raquel, vulgo Bruna Surfistinha. O tema picante, a pouca roupa de Deborah e a expectativa gerada até agora garantiram um lançamento de nível para o filme: já cogita-se uma estreia na casa das 500 cópias, padrão de gigantes hollywoodianos. A direção é do estreante publicitário Marcus Baldini. Assista ao trailer

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Wagner Moura: de volta ao cinema com "Vips"
"VIPs", 25 de março
Ganhador do Festival do Rio no ano passado, "VIPs" confia no carisma de Wagner Moura para contar a história real de um golpista que muda de personalidade conforme a ocasião. Seu maior feito foi se passar pelo filho do dono da companhia aérea Gol no carnaval do Nordeste. O roteiro é de Bráulio Mantovani, que trabalhou com o ator nos dois "Tropa de Elite". O filme entra em cartaz no mesmo dia de "Sucker Punch - Mundo Surreal", de Zack Snyder ("300", "Watchmen"), competidor duríssimo. Assista ao trailer e saiba mais


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Vanesse Gerbelli e Neusa Borges no longa espírita
"As Mães de Chico Xavier", 1º de abril
Aposta espírita do ano, segue a vida de três mães, Ruth (Via Negromonte), cujo filho enfrenta problemas com drogas; Elisa (Vanessa Gerbelli), que tenta superar a perda do filho; e Lara (Tainá Muller), que enfrenta uma gravidez não planejada. Marido de Via, Nelson Xavier reprisa seu papel como o médium Chico Xavier, que conforta e orienta as personagens. Ainda no elenco, Herson Capri e Caio Blat. O filme foi produzido pela mesma empresa que lançou "Bezerra de Menezes", o estopim da febre espírita nos cinemas. 

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Bruno Mazzeo escreve e estrela "Cilada.com"
"Cilada.com", 21 de abril
Adaptação para os cinemas do quadro exibido no programa "Fantástico", da rede Globo, e que depois virou série no canal Multishow. Bruno Mazzeo interpreta um cara que se vê em maus lençóis quando a namorada descobre uma traição e resolve disponibilizar um vídeo de sexo dos dois na internet. Mazzeo também escreveu o roteiro, dirigido por José Alvarenga Jr., veterano da Globo e responsável por levar "Os Normais" para a telona. Conheça os bastidores das filmagens

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Marcos Paulo dirige Lima Duarte no policial
"Assalto ao Banco Central", 22 de julho
Estreia do ator Marco Paulo na direção de longas-metragens e mais uma tentativa para o cinema brasileiro se aventurar no gênero policial. O título já entrega que se trata da história real do crime cometido em Fortaleza, em 2005, no maior assalto a banco já realizado no Brasil e o segundo maior do mundo (R$ 160 milhões), envolvendo a escavação de um túnel por três meses. Milhem Cortaz ("Tropa de Elite") interpreta o chefe do bando, enquanto Giulia Gam e Lima Duarte são os delegados responsáveis pelo caso. Assista ao trailer

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