Filmes gays "dão muito Ibope", afirma autor de "Cine Arco-Íris"

Livro compila produções com temática GLBT exibidos nas telas brasileiras e repassa história do gênero

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Sean Penn em "Milk": filme comprova maturidade com que o homossexualismo é retratado
Muito antes de "Milk - A Voz da Igualdade" e "O Segredo de Brokeback Mountain", que lucraram milhões e entraram recentemente pela porta da frente do Oscar, o homossexualismo já estava arraigado no cinema mundial. Pode não ser de forma muito explícita, mas desde seus primórdios o celuloide trazia impresso, mesmo pelas beiradas, a temática GLBT.

É isso que tenta provar o livro "Cine Arco-Íris", de Stevan Lekitsch, uma espécie de almanaque sobre o assunto. Segundo o autor, ao contrário do tabu que existia no iníco, hoje as produções gay têm muita visibilidade. "É a tendência do momento. Falar agora sobre o tema está dando muito Ibope, mais do que o normal." Conheça os cinco melhores filmes gays no Top 5

Jornalista e ativista da causa, Lekitsch conta que há dez anos começou a pensar no projeto, com o objetivo de criar uma fonte de consulta. "A ideia nasceu de uma certa reclamação de amigos que queriam assistir a filmes antigos, não-comerciais, e não sabiam quais eram, onde achar. Queria que eles pudessem ir na locadora com um guia debaixo do braço e encontrassem filmes sobre a temática", conta o autor o iG . "Não era possível que só existissem obras produzidas nos últimos 10 anos."

Com uma breve introdução a respeito da história do cinema, "Cine Arco-Íris" se estrutura em verbetes dos longas-metragens, indo do final da década de 1930 até a época atual. Para ser selecionado, o filme devia ter sido lançado em DVD ou exibido comercialmente no país, sem contar, claro, a proximidade com o tema. "Temos a ideia que são poucos, mas quando se começa a pesquisar... Personagens existem centenas, milhares. [O filme] precisava ter importância histórica, com temática próxima ou no mínimo que o personagem principal fosse homossexual."

Pode parecer trivial, mas o assunto não é nada explorado no Brasil. "Cine Arco-Íris" é, atualmente, a única fonte de pesquisa sobre o tema em catálogo. O próprio cinema nacional na área é farto. "Engraçado que a gente não conhece nosso próprio cinema. Tem um monte de filme nacional", diz o autor. O próprio Nelson Rodrigues, desde sempre adaptado para as telas, não era tímido com o assunto, vide o beijo de Ney Latorraca e Tarcísio Meira em "O Beijo no Asfalto" (81).

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Capa do livro "Cine Arco-Íris"
É verdade que a falta de interesse e a censura no governo militar contribuíram para muita coisa ficar perdida na memória, mas o fato é que desde o início o homossexualismo esteve presente no cinema brasileiro, talvez mais até do que no panorama mundial. Produzido em 1923, mudo, "Augusto Aníbal Quer Casar", dirigido por Luiz de Barros, é o primeiro a entrar no livro e conta a história de um homem que se apaixona por um transformista. Mais tarde, haveria o alemão "A Caixa de Pandora" (1929), em que uma das personagens se vestia de homem, mas na sequência já aparece outro brasileiro – "Messalina", de 1930, também dirigido por Luiz de Barros.

Obviamente as produções dessa época e ainda por muito, muito tempo não eram nada diretas. Qualquer menção ao assunto era discreta, velada. O homossexualismo era apenas sugerido ou uma mera especulação. Para Lekitsch, exemplos não faltam, boa parte deles clássicos. Estão lá "A Malvada", "Spartacus", "Drácula" e ao menos dois filmes de Alfred Hitchcock, "Rebecca, a mulher inesquecível" e "Festim Diabólico".

"Existe todo um trabalho subliminar, um subtexto camuflado", garante. "Quando se assiste ao filme com essa ótica, percebe-se um contexto por trás, fica muito explícito. Ou não, pode-se encarar como um filme normal, corriqueiro. A mesma coisa aconteceu na época da ditadura: se falava sobre política de uma forma tão velada que só quem fazia parte entendia."

Hollywood tangenciava o tema pelas mãos, por exemplo, de Tennessee Williams ("Gato em Teto de Zinco Quente", "De Repente, No Último Verão"), mas nunca abertamente. Na opinião do jornalista, a guinada só surgiu na década de 1970 com o musical "Cabaret" (72), cult gay estrelado por Liza Minnelli, que abordava a bissexualidade com mais intensidade. Mesmo assim, com ressalvas.

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Denzel Washington, Tom Hanks e Mary Steenburgen em "Filadélfia": virada em Hollywood
"Os anos setenta passam uma ideia liberal, todo mundo com todo mundo. Mas ninguém fica com ninguém, não se vê nada. No próprio 'Hair', um filme super moderno, gays não se beijam, por exemplo", conta o autor. "Me parece muito claro que a década de 1980 rompeu as barreiras, até porque o cinema europeu – Almodóvar, Pasolini, Fassbinder – deu um empurrão para o cinema norte-americano."

A partir daí, segundo ele, os homossexuais, digamos, saem do armário: beijam-se, trocam carícias, interagem. Em 94, quando "Filadélfia" dá o Oscar de melhor ator a Tom Hanks no papel de um advogado gay com Aids, quebra-se um paradigma. Filmes sobre o tema deixam o gueto e ganham os multiplexes. "Existia um preconceito financeiro – filmes gays passavam no circuito alternativo, salas de arte, colocavam num cantinho. Desde 'Filadélfia', a coisa mudou de figura. Esse filmes saem das salas pequenas para as maiores, comerciais. Estúdios grandes, como a Universal, Paramount, começam a investir nessa temática, o que muda todo o panorama na virada nos anos 90 para a propulsão nos anos 2000."

Não é por acaso que o maior capítulo de "Cine Arco-Íris" é dedicado aos filmes da década passada e atual. Hoje, além de existirem festivais e prêmios específicos para longas-metragens gay, há uma demanda de mercado pelo produto. "Uma coisa puxa a outra: mais produções, mais público. A visibilidade abriu muitas portas. Ainda existe muito tabu – as novelas, por exemplo, não mostraram direito o beijo gay –, mas é um assunto que deixou curiosidade. Ocorreu o fenômeno inverso: hoje isso dá audiência, há um interesse comercial."

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