PORTO ALEGRE ¿ A procura intensa de longas-metragens brasileiros pelo Festival de Gramado é um dos principais motivos de orgulho da organização este ano. No total, 85 filmes se inscreveram e apenas seis foram selecionados para a competição nacional. O que chama a atenção dentro de um universo tão vasto é a presença de duas produções gaúchas ¿ ¿Em Teu Nome¿ e ¿Quase um Tango¿ ¿ em um festival que tem justamente a tradição de sediar a estreia nacional de filmes realizados na região.

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"Em Teu Nome", do gaúcho Paulo Nascimento, teve cenas gravadas em Paris

Um dos curadores, Sérgio Sanz afasta totalmente a hipótese de favorecimento regional e atribui a seleção à qualidade dos filmes. Nós nunca dividimos por região ou estado, nada disso. O Rio Grande do Sul hoje é um estado produtor de boa qualidade, não só de quantidade, que aliás é bastante alta, diz. Até tivemos pena de um terceiro filme não entrar, mas ficamos com dois porque se insistíssemos em metade serem gaúchos, seria no mínimo deselegante com o resto do Brasil.

O presidente do festival, Alemir Coletto, faz coro e afirma que o fato dos longas terem sido selecionados é uma demonstração de que o cinema gaúcho obteve uma qualidade espetacular. Não há uma cota fixa por região, nada disso. Assim como tivemos dois gaúchos nesta edição, houve anos em que não houve nenhum. Coletto se refere a 2006, ano em que a nova direção assumiu o evento e, justamente por não selecionar nenhuma produção gaúcha, sofreu forte pressão da classe cinematográfica local.

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"Corpos Celestes", de Fernando Severo e Marcos Jorge, é estrelado pelo Dalton Vigh

Em Teu Nome é o quarto longa-metragem de Paulo Nascimento (Diário de um Novo Mundo, Valsa para Bruno Stein) e aborda o exílio de um jovem estudante durante os anos de chumbo da ditadura militar. Estrelado por Marcos Palmeira e Vivianne Pasmanter, Quase um Tango é dirigido por Sérgio Silva, veterano da cena gaúcha. O papel principal foi escrito especialmente para Palmeira, que trabalhou com o cineasta no drama de época Anahy de las Misiones na retomada do cinema nacional.

Filmado na maior parte no Paraná, Corpos Celestes é o segundo trabalho de Marcos Jorge, o aclamado diretor de Estômago. Na verdade, é a estreia de Jorge na direção ¿ as cenas foram gravadas no fim de 2005 e no início de 2006, mas Estômago acabou sendo concluído e lançado antes. O filme foi dirigido juntamente com Fernando Severo e conta a história de um astrônomo interpretado por Dalton Vigh, que dedicou a vida ao trabalho e acabou deixando de lado a vida pessoal.

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"Corumbiara", de Vincent Carelli

Canção de Baal, de Helena Ignez, é o competidor que aparentemente tem mais a ver com o perfil de Sanz e José Carlos Avellar, a dupla de curadores. Em entrevistas e nas edições anteriores do festival, os dois sempre deixaram clara sua predileção por filmes experimentais, que inovam de alguma forma a linguagem cinematográfica. Adaptada da primeira peça escrita por Bertold Brecht, a história mostra a jornada sem regras do protagonista, entregue a orgias enquanto escreve poemas e canções.

Fechando a competição nacional estão dois documentários. Cildo, de Gustavo Moura, enfoca a vida, obra e ideias do carioca Cildo Meireles, um dos principais artistas plásticos brasileiros contemporâneos. O filme foi exibido em janeiro no Tate Modern, em Londres, durante uma retrospectiva dedicada a Meireles e participou do Festival É Tudo Verdade, em São Paulo.

Já Corumbiara é um projeto antigo de Vincent Carelli e busca recuperar o massacre de índios na Gleba Corumbiara, Rondônia, em 1985. Em um processo quase investigativo, o cineasta mergulha no caso atrás dos poucos sobreviventes da matança para retratar também o descaso histórico com os povos indígenas e o processo selvagem de apropriação de terras na Amazônia.

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