Filmes aumentam movimento em centros espíritas

Cinema espírita veio para ficar", garante produtor de "As Mães de Chico Xavier

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Nelson Xavier em "As Mães de Chico Xavier": filme vai ter estreia de blockbuster no país
A "febre" espírita no cinema brasileiro começou no ano passado e de cara rendeu frutos. Juntos, "Chico Xavier" e "Nosso Lar" levaram mais de 7 milhões de espectadores aos cinemas, ficaram entre os dez filmes mais assistidos de 2010. "Não é uma nova onda. É um gênero que veio para ficar", garante Luís Eduardo Girão, produtor de "As Mães de Chico Xavier" , que estreia nesta sexta-feira (1º) em larga escala no país. Não é só isso: de acordo com a coordenação da Federação Espírita Brasileira (FEB), o interesse pelo assunto e o movimento nos centros espíritas aumentaram.

Até na televisão o fenômeno acabou respingando. A novela "Escrito nas Estrelas", escrita por Elizabeth Jhin para a rede Globo, abordava o espiritismo de forma indireta, ao mostrar um personagem que, depois de morrer, acompanhava o mundo do vivos a partir do plano espiritual. Exibido na faixa das 18h, o folhetim teve bom desempenho ao longo de seus cinco meses e chegou ao último capítulo, em setembro, batendo recorde de audiência para uma novela do horário nos últimos três anos.

A produção temática farta dá a impressão de ser simultânea às comemorações do centenário de nascimento de Chico Xavier no ano passado, embora, na verdade, viesse sendo gestada há algum tempo. Luís Eduardo Girão pode ser considerado o estimulador desse movimento. O empresário gerenciava os negócios da família em Fortaleza e dividia seu tempo entre Brasil e Estados Unidos. Depois de viver um período de crise pessoal, tomou contato com a obra de Chico Xavier no teatro. O impacto foi tão grande que, em 2003, montou a Mostra Brasileira de Teatro Transcedental, para reunir os expoentes dessa cena no país, e, na sequência, a ONG Estação da Luz.

Além de desenvolver trabalhos assistenciais no Ceará, a entidade resolveu transpor o espiritismo para o cinema, levando às telas a vida do médico Bezerra de Menezes, expoente da doutrina espírita. o fruto foi "Bezerra de Menezes - O Diário de um Espírito", que, apesar de orçamento e distribuição modestos, se beneficiou do boca a boca e acumulou 480 mil espectadores em 2008, um feito para projetos desse porte.

Atento para o mercado que o resultado revelava, Girão – financiador de boa parte dos custos de "Bezerra de Menezes", estimados em R$ 2,3 milhões – criou a Estação da Luz Filmes, voltada especificamente para a produção audiovisual. A companhia coproduziu "Chico Xavier" , de Daniel Filho, e volta à baila com "As Mães de Chico Xavier", agora com estatus grandioso: o filme tem orçamento de R$ 3,8 milhões e estreia, na véspera dos 101 anos do médium, com mais de 400 cópias no país, digno de um blockbuster. É o maior lançamento da semana e ainda conta com apoio promocional de Rede Globo e Telecine, que já adquiriu os direitos de exibição na TV por assinatura.

Genêro consolidado

Em entrevista ao iG , o empresário e produtor afirmou que o cinema transcedental, como ele chama, não tem prazo de validade e possui espaço garantido no país. "Não estou especulando, é algo consolidado. Se você analisar a literatura brasileira, ou a Bienal do Rio, de São Paulo, os livros que mais vendem há décadas são espiritualistas. Zíbia Gasparetto, Chico Xavier, o próprio Alan Kardec, Divaldo Pereira Franco, todos esses autores têm livros maravilhosos, best-sellers, que são roteiros quase prontos para o cinema."

Girão disse ainda que os longas espíritas se mostram como uma opção para o público, cansado das histórias de ação. "As pessoas nesse mundo maluco em que a gente vive estão cada vez mais precisando de boas notícias, de algo que preencha suas almas, seus espíritos, que traga inspiração. É uma tendência natural seguir histórias de amor além da vida, de tolerância, compaixão, de que o amor vale a pena." Além disso, defendeu que os filmes fazem as pessoas refletirem sobre assuntos a que não dão atenção no dia a dia. "Desde a infância, a adolescência, nunca paramos para pensar de onde viemos, o que estamos fazendo aqui e para onde vamos depois da morte. Esse tipo de filme levanta essa reflexão. As pessoas saem da sessão emocionadas."

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O produtor Luís Eduardo Girão: investindo no "cinema transcendental"
Coordenador da Federação Espírita Brasileira, Antonio Cesar Perri de Carvalho sustenta a mesma ideia. Segundo ele, o sucesso dos produtos espíritas na TV e no cinema demonstra que há realmente interesse da população por temas que escapem da violência explorada pela mídia. Ao iG , Perri disse ainda que a partir do segundo semestre de 2010 o interesse pelo espiritismo e a procura por centros espíritas aumentaram. "Isso é evidente. Temos conhecimento de 30 milhões de simpatizantes no país, em todas as classes sociais."

Por outro lado, Girão garante que os filmes não querem defender nenhuma doutrina e independem de questões religiosas. "O objetivo não é dizer que a religião A é melhor do que a B. Fizemos, inclusive, exibições-teste pra católicos e evangélicos e a receptividade foi a melhor possível." O motivo para a boa aceitação, na opinião do produtor, é o sincretismo religioso, ou seja, a opção por seguir ao mesmo tempo duas ou mais religiões. "A população brasileira aceita [o espiritismo], por mais que a maioria seja católica."

Isso sem contar, claro, a imagem de Chico Xavier, que transcende essa discussão. O médium tem admiradores espalhados por todo o Brasil, que se mobilizam espontaneamente, segundo Girão, para promover os produtos relacionados a ele, como os filmes. "Eles vão em massa ao cinema e os amigos, familiares, todos vão junto." Não é surpresa, portanto, que as pré-vendas de ingressos de "As Mães de Chico Xavier" tenham sido um sucesso. Um termômetro foram as canetas promocionais entregues para cada entrada comprada antecipadamente – o estoque do produto esgotou rapidamente.

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Carlos Vereza em "Bezerra de Menezes": filme pode dar origem a minissérie de TV
Projetos no exterior

A Estação da Luz pretende reinvestir os lucros de "As Mães de Chico Xavier" em outros filmes, todos com temática espírita. Girão explicou que, no momento, a empresa estuda vários roteiros, mas ainda não tem fechado seu próximo longa-metragem. A televisão é uma possibidade: a produtora já tem formatada uma minissérie baseada na vida de Bezerra de Menezes. Já foram feitas conversas com a Globo, mas há o interesse por "novas parcerias".

Existe também a ideia de uma coprodução internacional. Girão esteve no ano passado no francês Marché du Film (Mercado do Filme), encontro de profissionais do mundo todo – compradores, distribuidores, financiadores – realizado de forma paralela ao Festival de Cannes. Foram feitos contatos com França e Estados Unidos. "Temos esse sonho. Os roteiros são universais, sobre perda e superação. Com tanta violência, desamor e tsunami, queremos levar uma mensagem de luz que, acredito, é comum a todos."

A relação dos filmes espíritas com o exterior ainda engatinha. De acordo com o coordenador da FEB, o Conselho Espírita Internacional não interfere de forma direta nesse processo, mas tem expectativas "muito intensas" de que as obras sejam disponibilizadas. O caminho já está pavimentado: todos os DVDs do filmes produzidos até agora têm legendas em outros idiomas.

A Federação Espírita Brasileira não se envolve diretamente nas produções, a não ser que detenha os direitos autorais dos livros adaptados. Foi o caso de "Nosso Lar" e também de "E A Vida Continua", com direção de Paulo Figueiredo e participação especial de Lima Duarte no elenco, previsto para o segundo semestre. Outro grande lançamento do ano será "O Filme dos Espíritos" , de André Marouço, baseado no famoso "Livro dos Espíritos", de Allan Kardec.

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