Filme Dzi Croquettes salva grupo de vanguarda do esquecimento

Documentário sobre o grupo que escandalizou o Brasil nos anos 1970 chega aos cinemas

Bruno Rico, iG São Paulo |

Divulgação
Cena do documentário Dzi Croquettes
Purpurina, cílios postiços e pernas cabeludas sob saias. O grupo de teatro Dzi Croquettes escandalizou o público, os artistas e os censores da ditadura militar no Brasil na década de 70. Espetáculos inspirados na Broadway, no jazz e na bossa-nova eram apresentados por homens divorciados da “moral e dos bons costumes” que, após serem censurados, ganharam os afagos da vanguarda de Paris.

Os shows alternavam quadros clássicos de clowns, imitações de Carmen Miranda, pole-dancing, danças românticas de tango e improvisações. Os textos, embora não acessíveis na íntegra, sugerem um humor sarcástico, agressivo e agudo, pronunciados em várias línguas, com sotaque estrangeiro e sensual.

Os quadros eram concebidos a partir da individualidade de cada ator. Eles próprios arriscavam uma maquiagem – sempre carregada, uma roupa e uma personalidade de palco. O resultado eram figuras caricatas bissexuais de Hitler, Chaplin, toureiros, secretárias, freiras etc. Um dos números era composto pelos bailarinos vestidos de tangas e panos, e pela clássica trilha-sonora do filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço , de Stanley Kubrick. “Pareciam borboletas. Eram lindos”, lembra Ney Matogrosso.

O que poderia se restringir a um deboche localizado, no estilo teatro de cabaré, ganhou, com o profissionalismo exigido pelo mentor do grupo, Lennie Dale, status de vanguarda internacional. Para montar os espetáculos, Lennie exigiu dos outros 12 integrantes o domínio de técnicas de balé clássico, sapateado e canto. “Ele transformou um monte de mocorongos em bailarinos profissionais”, diz um dos antigos membros.

Essa experiência teria se perdido não fosse o documentário Dzi Croquettes , que, após levar os prêmios de melhor documentário no Festival do Rio (júri e voto popular) e da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (voto popular), estreia nesta sexta-feira.

Os diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez contam que, quando tiveram a ideia de produzir o longa, descobriram que não havia documentação sobre o grupo. “Procuramos no Google, e vimos que não havia nada”, disse Issa. Os únicos registros de apresentações encontrados são de uma TV pública alemã. No Brasil, apenas algumas cenas de entrevistas da rede Globo foram utilizadas.

O único ponto baixo do filme é a tentativa de contextualizar a experiência do grupo durante a ditadura militar. Embora a ousadia de assumir-se gay, ator, e vestir-se de mulher neste período expresse uma radicalidade importante da obra e vida dos integrantes, as já saturadas cenas de conflitos entre policia e manifestantes somadas às descrições do golpe e do AI-5 soam redundantes.

Entre os depoimentos, há comentários de Miguel Falabella, Pedro Cardoso, Ney Matogrosso, Gilberto Gil e Marília Pera, além do registro emocionado de Cláudia Raia. A atriz e cantora Liza Minelli também rasga elogios ao grupo. O documentário conta que ela teria sido a responsável por apresentá-los à critica especializada de Paris.

Pedro Cardoso afirma que o grupo foi a principal referencia para o teatro de humor estilo “besteirol”, consagrado nos anos 80 através dos programas de TV Armação Ilimitada e TV Pirata . Entre outras relações, o documentário expressa que Dzi Croquettes também está na raiz do grupo musical As Frenéticas, de sucessos como “Vingativa” e “Dancin’ Days”. Três de suas integrantes haviam formado anteriormente o “Croquettas - Regina Chaves, Leiloca e Lidoka.

O documentário Dzi-Croquettes estreia nesta sexta-feira em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Goiânia e Curitiba.

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