Festival É Tudo Verdade 2012 exibe documentários de 27 países

Curta premiado com o Oscar, Werner Herzog, Tropicália, Primavera Árabe e cabaré parisiense entre as opções na programação

iG São Paulo |

Começa nesta quinta-feira (22) em São Paulo a principal janela para exibição de documentários da América Latina. O festival É Tudo Verdade vai exibir 80 filmes de 27 países, sempre com entrada franca, divididos entre as mostras competitivas e especiais. A maratona inicia no Rio de Janeiro no dia seguinte e se estende simultaneamente até 1º de abril. Na sequência, parte da programação segue para Brasília e Belo Horizonte.

Na capital paulista, a abertura conta com a estreia no país de "Tropicália", documentário de Marcelo Machado que procura abarcar as origens e a explosão do movimento de contra-cultura capitaneado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, Gal Costa e Tom Zé, entre outros, no final da década de 1960. No Rio, o alvo é de um dissidente do grupo, com "Jorge Mautner - O Filho do Holocausto", dirigido por Pedro Bial e Heitor D'Alincourt.

Divulgação/Paulo Salomão
Jorge Ben, Caetano, Gilberto Gil, Rita Lee, Gal Costa e Os Mutantes em 1968: o núcleo da Tropicália
O É Tudo Verdade vai mostrar pela primeira vez no Brasil "Salvando a Face" ("Saving Face"), vencedor do Oscar 2012 de melhor curta-metragem documental, que enfoca mulheres paquistanesas cujos rostos foram desfigurados por ácido pelos próprios maridos. Também será a chance de conferir o novo filme de Werner Herzog, "Ao Abismo" ("Into the Abyss"), considerado um dos melhores documentários do ano passado, sobre um condenado no corredor da morte.

Divulgação
"Salvando a Face", premiado com o Oscar 2012: mulheres deformadas pela violência dos maridos
Destaques não faltam na programação. Há desde reflexos da Primavera Árabe, com "Meia Revolução", registro dos primeiros protestos públicos no Egito que culminaram no afastamento do ditador Hosni Mubarak, a "Crazy Horse", do veterano documentarista Frederick Wiseman, sobre o cabaré parisiense, um dos mais famosos do mundo. Na linha de cineastas premiados, há ainda "Dutch", do elogiado cambojano Rithy Panh, relembrando os absurdos cometidos pelo Khmer Vermelho nos anos 1970.

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Entre as personalidades, "Carrière 250 Metros" reconstitui os passos do escritor, dramaturgo e roteirista francês Jean-Claude Carriere, colaborador de Peter Book, Milos Forman e famoso pelas parcerias com Luis Buñuel. Já "Com Amor, Carolyn", recupera as memórias de Carolyn Cassady, mulher de Neal Cassady e amante Jack Kerouac, ícones da geração beat. Assim como o marido, Carolyn inspirou um dos personagens do romance "Pé na Estrada", Camille, interpretada por Kirsten Dunst na futura adaptação de Walter Salles .

Divulgação
Dançarinas no documentário "Crazy Horse"
Segundo o crítico Amir Labaki, fundador e diretor do É Tudo Verdade, a seleção internacional este ano não apresenta uma unidade. "Após o 11 de Setembro, houve uma guinada para a politização do documentário. Isso foi perdendo força nos últimos anos rumo a uma hibridização. Retratos da Primavera Árabe continuam essa linha de documentário 'cívico', mas é um momento mais nebuloso, sem um vetor hegemônico. Bato o olho na programação e vejo como o leque é amplo, desde vídeos diários até filmes com dimensões épicas."

Nos documentários brasileiros, o cenário já é mais claro. "De um lado, há uma renovação do documentário histórico-cultural, com narrativas diferenciadas, e do outro, a escola do cinema direto continua forte, apoiada pela revolução digital."

Entre os selecionados para a competição nacional estão "Mr. Sganzerla", de Joel Pizzini, sobre Rogério Sganzerla (1946-2004), diretor de "O Bandido da Luz Vermelha" e símbolo do Cinema Marginal; "Dino Cazzola - Uma Filmografia de Brasília", rico em imagens de arquivo sobre a história da capital federal; e, um pouco antes da estreia de "Xingu", o documentário "Coração do Brasil", em que foi refeito o trajeto dos irmãos Villas Boas na década de 1950 para demarcar o centro geográfico do país.

O É Tudo Verdade tem o maior prêmio do país para um longa-metragem documentário, no valor de R$ 110 mil para o filme vencedor da competição.

Coutinho em foco

Nas retrospectivas, o destaque é "Cabra Marcado para Morrer" (1984), de Eduardo Coutinho, conhecido por filmes como "Edifício Master", "Jogo de Cena" e o recente "As Canções" . Gestado inicialmente como um longa de ficção em 1964, "Cabra" foi interrompido pela ditadura militar e só retomado 20 anos depois, reunindo a equipe original.

George Magaraia
Eduardo Coutinho posa com seus prêmios por "As Canções" no Festival do Rio, no ano passado
Nesse meio tempo, Coutinho se tornou um documentarista tarimbado no programa "Globo Repórter" e é esse período que o festival enfoca: rivalidades, pistoleiros e a pobreza no interior brasileiro nos especiais de TV que ajudaram a formar o cineasta de "Cabra Marcado para Morrer".

"É a grande obra documental do cinema brasileiro, influente para a renovação do documentário no país", afirma Labaki, lembrando que o festival tinha uma "dúvida" com Coutinho, já que o cineasta havia estreado vários filmes no evento, mas nunca havia sido homenageado.

Estão marcados debates reunindo Eduardo Coutinho e as pessoas envolvidas na produção e o restauro recente de "Cabra Marcado para Morrer" pela Cinemateca Brasileira. "É a chance de recuperar a história desse grande clássico."

A outra retrospectiva é do argentino Andrés Di Tella, pouco conhecido no Brasil e apenas o segundo sul-americano homenageado em 16 anos do festival. Filho de um indiana, Tella, segundo Labaki, discute em seus filmes a identididade e "o que é ser nacional em um mundo cada vez mais internacional".

Em paralelo à programação, será realizada a Conferência Internacional do Documentário, na Cinemateca Brasileira, que em sua 12ª edição discute a relação do gênero com a animação.

SERVIÇO

Festival É Tudo Verdade 2012
Entrada franca
Programação completa no site oficial

São Paulo
De 22 de março a 1º de abril
Cinesesc, Centro Cultural Banco do Brasil, Cinemateca Brasileira e Museu da Imagem e do Som (MIS)

Rio de Janeiro
De 23 de março a 1º de abril
Espaço Itaú de Cinema Botafogo, Centro Cultural Banco do Brasil, Instituto Moreira Salles, Oi Futuro – Ipanema e Espaço Museu da República

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